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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

Ela ignorava tudo. Sabia apenas que era mãe porque sentia no seio os movimentos do Ser Perfeito, no qual concentrava todo o seu amor.

Já lhe crescia o colo, pesando, arredondado e túrgido. O amor preparava o alimento para aquele que se nutria de mistério.

- As mães sofrem tanto pelos filhos!... O amor das mães é como a rosa que cresce entre espinhos. Praza aos céus que meu filho não sofra enquanto for pequenino.

As crianças não falam, não atinam a indicar onde lhes punge a dor, de sorte que a gente não sabe como as há de aliviar quando sofrem. - As mães adivinham.

- São tão fracas as criancinhas que tudo é perigo em torno delas. Tremo quando penso no meu pequenino filho que vai nascer, tão franzino e tão pobre. Onde o agasalharemos nós? - Entre os nossos braços, como os pássaros resguardam o ninho entre os ramos. - E o frio?

- Temos o nosso calor. - E a fome? - Os peitos maternos são dois celeiros sempre cheios. - Haveis de amá-lo, senhor, e ajudar-me enquanto ele carecer de nós? - Por ti, por Ele, por todos, disse José enlevado. Chegavam a um bosque de tamareiras, onde havia uma cisterna cercada de musgo.

Um velho cego repousava à sombra, ouvindo cantar uma criança que brincava sentada nas folhas secas.

O CEGO

O velho era Jericó.

Esperava naquele retiro a passagem das caravanas que se encaminhavam a Jerusalém e sempre recolhia uma azinhavrada moeda, um punhado de tâmaras ou um esgarçado albornoz em que se enrolava, bendizendo com palavras humildes e agradecidas, a generosidade dos homens, recomendando-os ao deus de Abraão, de Isaac e de Jacó e indicando-lhes os melhores e mais seguros caminhos pelos montes.

José ajuntou as folhas espalhadas e fez uma alfombra onde Maria adormeceu revendo, em sonha, a sua alegre Nazaré, as moças à beira da fonte, os pastores nos cerros, à hora macia da tarde, quando as cotovias baixam e desaparecem nas searas e as águas das levadas cantam.

Conversaram os dois velhos – José falou da sua viagem, o cego falou da sua cegueira.

- Estava assim desde moço, um raio cegara-o no campo, sob um sicômoro. Já se habituara à treva como um prisioneiro que se houvesse acostumado ao cárcere.

Um mágico de Suza oferecera-se para curá-lo. Pedira cem dracmas, baixara a cinqüenta; faria por vinte se ele lhas oferecesse.

Tinha ainda a sua cabana e ovelhas, vendendo-as reuniria uma soma, mas, pensando, resolvera deixar-se ficar na cegueira. E suspirou:

- Ilude-se que julga que, ao voltar aos antigos lugares, encontrará as coisas como deixou: as próprias pedras modificam-se e não são várias como as almas.

Quando me anunciaram a morte de meu filho, pedi que me pusessem junto do cadáver, apalpei-o, beijei-o; ouvi os passos dos que o levavam a enterrar, mas não vi o enterro.

Ouvi o estrondo da queda do cedro que cobria de sombra a minha eira e, ainda hoje, vou sentar-me no sítio em que ele avultava e sinto-me agasalhado pela ramagem que não existe e ouço a alegre voz dos passarinhos de outrora.

As coisas foram desaparecendo uma a uma; eu mesmo envelhecia, mas a cegueira conserva a visão do passado.

O sol parou para mim na mocidade como parou sobre os muros de Jericó à voz do batalhador.

Vejo dentro de mim tudo quanto deixei: as gentes, os animais, as árvores, os lugares com suas cabanas e os seus campos floridos.

Sou como a ave aprisionada, de pequenina, em uma gaiola, que não olha senão a limitada paisagem que fica em torno da sua vivenda triste. Soltai-a, esvoaçará atordoada e, se não regressar à prisão, morrerá de fome perdida nas florestas frondosas, se não cair nas garras dos abutres.

O homem de Suza queria dar-me a liberdade. Para que? Para eu morrer de saudosa tristeza sentindo o deserto em volta de mim? Não! Vivo no passado, o meu tempo já foi.

Não caminho para a morte. Espero-a, sentado no limiar da mocidade, ouvindo o rumor do tempo devastador, sem ver os desastres, sem ver as lágrimas, sem ver os enterros.

Perdi-me dos meus, dei em uma furna e nela vivo. Já agora estou habituado à sombra. Para que hei de sair se, lá fora, me esperam ossadas? Se o próprio Deus me oferecesse a luz eu lhe pediria a morte. Voltar atrás...! A erva cresce, o vento revolve a areia desmanchando as nossas pegadas.

O campo, que conhecemos florido, mudou-se em carrascal; a gente envelheceu ou morreu. Só há um meio de não caminhar chorando – é seguir sempre em frente e se eu recobrasse a vista teria de retroceder e cegaria de novo com os olhos afogados em lágrimas. Aonde vos dirigis? - A Belém.

- Casa do pão. É ali que deve nascer o Anunciado. Casa da abundância, celeiro do Senhor, Belém da fertilidade! De lá é que nos há de vir o Messias. O campo de Booz dará o trigo que há de fartar as almas. - É para lá que vamos. - Que as estrelas vos sejam propícias, como foram a Ruth, a moça de Moab.

DENTRO DA NOITE

(continua...)

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