Por Raul Pompéia (1880)
É também a que todo o poeta empresta ao seu objeto idolatrado.
Mas os poetas!... Cantam a lua antes de vê-la através das lentes telescópicas.
Como o astrônomo deixa escapar um riso de mofa, ao ler uma poesia à lua de algum enlevado cantor, o conhecedor profundo desse bando, denominado pelos homens das nuvens, "belo sexo", e mais prosaicamente mulher, não pode reter o escárnio, contemplando um hino em que um amante em delírio exalta os grandes dotes da sua bela.
Não devemos enfastiar o leitor com digressões desta ordem.
Reentremos na narração.
Tudo florescia nas margens do afluente do Amazonas. As plantações do exsubdelegado renasciam virentes, coroavam-se as roseiras de purpúreas flores e do curral partiam balidos de ovelhas, intercalando o mugir majestoso e cheio das luzidas vacas, que olvidavam as míseras companheiras desumanamente esfaqueadas dois anos atrás.
Para melhor e em menos palavras traduzir a prosperidade que reinava, basta dizer que Eustáquio, o qual já nutrira fortes desejos de deixar a província do Amazonas, se resolvera a permanecer em sua residência.
Resolução funesta.
As belas noites sucediam-se aos dias deliciosos, embora a temperatura, elevada exigisse freqüentes banhos no líquido refrigerante do Iapurá.
Pusera-se a lua, escondendo segredos além das colinas, depois de oferecer ao olhos do mundo um arco delgado de luz.
Densas trevas envolveram os bosques em que se aninha S. João do Príncipe, realçando as estrelas que rutilavam no céu.
Flutuando na massa aquosa do Iapurá, poderia ver um objeto pouco alongado quem então passasse pela picada.
O objeto vogava mansamente.
Era uma canoa.
Seguiu até os terrenos do protetor de Rosalina e movendo-se parecia querer se ocultar sob as muralhas de rocha da margem.
Logo que parou, uma sombra de baixa estatura, saltou em terra, deu alguns passos, entrou no roseiral de Eustáquio, prestou ouvidos à porta e debaixo das janelas e assentada sobre a cerca levou tranqüilamente escutando uma hora inteira.
— Nada há de novo, disse enfim.
Levantou-se, e entrando na canoa voltou para o povoado.
Quem era essa sombra em breve saberá o leitor.
CAPÍTULO VII
SOB O VÉU DO MISTÉRIO
TALVEZ HAJA UM DEFENSOR
O sossego voltando fizera o novo subdelegado murmurar, contra, dizia ele, o abuso que cometia Eustáquio conservando inutilmente dois guardas, em detrimento do interesse público.
Menos que isso era suficiente para dirigir o comportamento do esposo de Branca, que apenas ouviu o que se tornara já voz geral deu ordem aos policiais para se retirarem.
A necessidade de vigilância não se fez sentir imediatamente e quinze dias se foram sem a menor quebra de tranqüilidade.
Branca e sua pequena companheira, confiadas no desaparecimento absoluto dos temíveis celerados, começaram a dar, sozinhas, demorados passeios pela estrada e pela campina, sobre cujas ondas de verde-claro adejavam lindas borboletas.
Pela manhã e à tardinha tinham sempre lugar estes passeios, que foram enfim bruscamente interrompidos por um gravíssimo risco e que milagrosamente escaparam as passeantes.
Um dia ao romper d'alva a moça e a menina, depois de deliciosos tragos de café, seguiram vagarosamente e distraídas para S. João do Príncipe.
Aspiravam com prazer as fragrâncias matinais exaladas das moutas de baunilha e da relva delicada, ao passo que caminhavam.
Finalmente, meio fatigadas assentaram-se sobre um tronco carcomido e tombado junto à estrada.
Os primeiros raios do dia rompiam indiscretamente a folhagem, projetando no chão avermelhado inextrincáveis claros e escuros que faziam os ramos.
Esqueciam-se elas das horas e sorriam internamente ouvindo as melodias tremuladas pelas aves.
Tinham-se levantado e por entre os troncos das seringueiras acompanharam os movimentos de um enorme jacaré, vendo-o mergulhar ao longe, no meio do rio.
Nesse instante perceberam, atrás de si, um barulho nos espessos matagais que encobrem as possantes raízes dos gigantes da floresta.
O seu primeiro sentimento foi de curiosidade, mas logo tremeram de terror.
Acabava de saltar para a picada uma figura... Mas que figura!
Um negro horrendo, cujas feições angulosas e agudas emprestaria ao demônio a mais tenebrosa imaginação de pintor.
Empunhava medonho facão áspero de ferrugem e nu da cintura para cima, vestia umas sórdidas calças que, rasgadas pelo uso, entremostravam nervudos joelhos.
— Olé! rugiu prolongadamente a fera, tão cedo por aqui!
Seguiu as palavras de um riso satânico capaz de estremecer de pavor o mais corajoso sertanejo.
Rosalina sentiu o medo invadir-lhe a alma, Branca tremia de terror.
Quiseram gritar, pedir socorro mas o susto o impediu.
As pobres só esperavam a morte, encarando o algoz que lhes sorria cruel.
Nos olhares das vítimas lia-se uma súplica, nos do algoz um escárnio.
O negro como o tigre não quis sacrificar imediatamente a presa quis gozar das suas antecipadas torturas.
A crueldade encontra, não sabemos que hediondo prazer nas angústias do paciente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.