Por Raul Pompéia (1882)
Manuel de Pavia, que não era suscetível de medrosas palpitações, ao menos dentro dos limites da quinta, sentia que o coração abria-se-lhe em violentos diástoles...
— Aqui estou — disse o vulto a pouca distância. — Oh, Inácio! — disse Pavia.
CAPÍTULO V
Era , de fato, Inácio, o criado do duque, que o leitor viu no princípio desta narrativa a conversar com Manuel de Pavia. O inescrupuloso arranjador do negócio da Conceição conversara longamente com Inácio a respeito de umas jóias do duque de Brangantina. A primeira das conseqüências dessa entrevista era o encontro alta noite, à base dos muros que protegem o torreão do lance esquerdo do palácio.
No ponto marcado, encontravam-se os dois.
Antes de darmos conta ao leitor do que se passou em seguida ao encontro no lugar marcado, devemos informá-lo de uma circunstância de alta monta.
Na rua. no... há uma grande loja de ourivesaria. Três grandes vitrinas de cristal abrem-se para o público, apresentando o mais ofuscante e precioso conjunto de ouro e pedrarias que s e pode imaginar. Sobre luxuosos lençóis de veludo de carregadas cores, amontoam-se incríveis porções de esmeraldas, sem engaste, rubis, safiras, diamantes espalhados como se fossem grãos de milho, mostrando com orgulho as mais delicadas clivagens e as mais finas cintilações prismáticas que a imaginação concebe.
No interior da loja, luzem pelas prateleiras os mais belos produtos de ourivesaria, jóias de um valor inapreciável, fabulosas pratarias...
O dono desse Eldorado é um negociante forte.
Disfarçada, a um dos ângulos da loja, entre dois belos armários de madeira preta recortada em flores, e luzidamente lustrada, existe uma pequena porta que apresenta à vista o aspecto de um espelho encostado à parede. Entra-se por aí para os compartimentos íntimos da loja. Logo depois da porta, encontra-se um pequeno escritório, biombo de madeira em volta, mobiliado por uma escrivaninha, algumas cadeiras e uma grande burra sólida, pesada e impenetrável como um monólito egipciano.
Coa-se para esse lugar a claridade de uma área próxima. A essa luz frouxa escreve o guarda-livros da casa, agente de quase todos os negócios do proprietário do estabelecimento e, nesse caráter, homem da mais provada confiança para o ourives.
Enquanto este, trajando como um gentleman, saboreia preciosos charutos no meio dos lúcidos efeitos das mercadorias do seu aristocrático negócio, indolentemente arrimando os cotovelos aos caixilhos envernizados dos mostradores, ou ao tapete escovado dos balcões, crivando de moderados apartes a conversação entusiasta do grupo de políticos seus amigos, que vêm todos os dias palestrar-lhe às soleiras... no escritório por trás da porta de espelho, o guarda-livros entabula as suas negociações.
Este empregado é um sujeito prático, inteligente, fino e, além de tudo, tem um curso bem acabado de mineralogia. É de pequena estatura, nervoso, tendências dominadoras, voz enérgica, linguagem rápida, acompanhada de sons guturais, irônicos, significativos. É feio de cara. Nariz fino, olhos pequenos e espertos, pouca barba. Tipo, fuinha; espírito, raposa. Chama-se Aleixo de tal.
Em noite de 11 de março de 18... duas conversas importantíssimas travaramse na grande ourivesaria.
Junto dos mostradores a balava-se a golpe de alevantada retórica o ministério do tempo. Muitas vezes estremeceram de susto os castiçais de prata e as badejas, os tinteiros de ouro, as medalhas com as iniciais de brilhantes, as pulseiras, os colares, os brincos, as abotoaduras, as alegres fantasias... Eram os murros da eloqüência dos políticos esborrachados sobre o balcão, por não poderem chegar à cara de qualquer ministro ou chefe de partido contrário ao do orador.
Os circunstantes ou riam estrondosamente daquela energia caricata, ou protestavam contra as asserções que se faziam.
No escritório do sr. Aleixo havia coisa mais interessante. Conversava-se com tanto fogo como na loja; porém as palavras não faziam estrépito.
A pouca distância da escrivaninha, Aleixo prestava atenção ao que dizia um sujeito moreno muito barbado de óculos azuis. O bico de luz que alumia o escritório deixa-nos reconhecer o sujeito. É o nosso Manuel Pavia, ligeiramente disfarçado. Ouçamos o que ele diz:
— ... Assim , vê o senhor que não haverá dificuldade... Não há muito risco para mim em levar a cabo a empresa e nenhum para o senhor em prestar-me um serviço que lhe dará tanto lucro.
Fez-se uma pausa, durante a qual se ouviu uma gargalhada sonora dos políticos que discutiam na loja. Depois Aleixo começou:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.