Por Lima Barreto (1909)
A sua morte é uma grande desgraça que nos acabrunha; e, desde que esta folha existe, é o primeiro que a maldita Parca leva. Muitos, é verdade, já se foram; mas não os levou a Parca. São felizes? São infelizes? Eles lá saberão... Este ficou no seu posto até à última hora, e ainda nas vésperas de morrer, quando a arruaça fazia cessar todo o movimento, deu num só dia quatro mesas fartas ao pessoal deste jornal.
Era um herói, um herói como o nosso tempo sabe compreender, isto é, um homem que põe tudo o que há em si de força, de coragem, de inteligência e de dedicação para um dado e único fim útil aos seus semelhantes.
Nada lhe faltava de grande. O caráter, a inteligência e o coração, nele, chegavam à mesma altura e agiam de concerto. Falava três línguas: português, inglês e francês. Nascido em Arcis-sur-Aube, pátria de Danton, em 1864, e oriundo de uma família nobre, em breve emigrou para a Inglaterra, onde abraçou a profissão em que morreu. Daí, depois de exercê-la com paixão, veio para o Brasil esse excelente representante da grande raça de Vatel. Era de um grande orgulho e conta-se que não entrou para o célebre Savoy de Londres porque não tinham permitido que assinasse o menu. Saudades. "
Um pouco abaixo do retrato, seguia-se esse artigo de Losque e o jornal vinha tarjado em sina] de lato. Tratava-se do cozinheiro particular do diretor, mas a estética do necrológio pedia se fizesse um auxiliar do jornal. A morte desse serviçal obscuro da domesticidade do doutor Loberant, veio trazer-lhe os maiores testemunhos da sua vitória.
Todos os jornais se referiram ao inditoso Charles de Foustangel e alguns abriram subscrições para socorrer a família do cozinheiro. Fora do convívio jornalístico, as manifestações de pesar não foram menores: o Centro dos Estudantes passou um telegrama de pêsames ao presidente da República Francesa e ao cortejo do enterro concorreram mais de cinqüenta carros, levando perto de uma centena de pessoas, entre as quais altas patentes do Exército e Marinha, diretores de repartições, homens da bolsa, literatos aclamados, revolucionários temidos e um capitão do Estado Maior, representando o presidente da República.
A Viscondessa de Varennes não faltou. Passou por mim, no carro, a olhar um lado e outro com os seus grandes olhos de Juno, as olheiras violáceas, mordiscando os lábios muito pintados, abanando-se com o seu grande leque rococó e toda envolvida num pesado vestido de taffetas de seda negra.
Antes de embarcar, Floc foi até ao trem e ela despediu-se dele, estendendo a mão pela portinhola do coupé, com metade do rosto a aparecer, sorrindo, muito graciosa, muito lenta, numa atitude de fidalga do século XVIII. E o negro cortejo desfilou pela rua como um triunfo sui generis para a vitória do diretor. Na frente, ia o coche fúnebre, sarapintado de dourados, crivado de grinaldas com flores roxas e brancas de pano e as fitas votivas cheias de inscrições a esvoaçar lentamente como se fossem todos os adeuses que o morto quisesse dar naquele momento, às coisas e às pessoas. Seguiam-se-lhe as caleças, as vitórias e coupés, transportando a alta administração, civil e militar, as finanças, as letras e a revolução profissional, em tocante homenagem ao grande homem que era o cozinheiro do doutor Ricardo Loberant, diretor-proprietário d'O Globo.
O motim obrigara o presidente a demitir a maioria dos ministros, isto é, os ministros atacados pelo O Globo; o prefeito e o chefe de polícia também saíram. A lei dos sapatos foi para as coleções legislativas e o empréstimo ficou prometido ao Rodrigues. O diário de Loberant ficou sendo quase a sétima secretaria do Estado. As nomeações saiam de lá e as demissões também. Bastava um aceno seu para um chefe ser dispensado, e bastava qualquer dos seus empregados abrir a boca para obter os mais rendosos lugares. Leporace foi nomeado diretor das antigüidades egípcias do Museu Nacional; e Rolim, o Rolim dos grandes pos, subdiretor da Repartição Cartográfica da República. Leiva fora modesto: pediu e obtivera o lugar de quarto escriturário do Tribunal de Contas, independente de concurso. Os empregos foram assim satisfazendo a natural voracidade dos auxiliares de Loberant. Todos eles viviam agora calmos, sorridentes, satisfeitos, convencidos de que tinham moralizado a República. Tudo ia bem e a administração fazia-se com a moralidade e a limpeza de uma pequena casa burguesa. Tinham-se cinqüenta mil-réis, comprava-se; não se os tinham, diminuía-se a conta do armazém. O jornal passou do mais formal pessimismo ao otimismo mais idiota. O próprio Loberant perdera a “atrabílis”, fumava com mais calma, sorria com afabilidade e dispunha de empenhos. Era um gosto vê-lo dando audiência aos necessitados de empregos. Apareciam diariamente aos vinte. A uns, atendia; a outros respondia com gravidade ministerial: venha amanhã.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.