Por Coelho Neto (1906)
— Pois é assim. Não estou arrependida. Tudo me tem corrido bem. Às vezes tenho saudade, não da vida que levava: de ti, de mamãe, mas procuro distrair-me, disfarço e as horas levam os pensamentos tristes. A vida é muita curta — quem mais vive é quem mais goza, não achas? Falam no futuro, no dia d'amanhã. Eu vejo as outras, coitadas! umas, viúvas, cheias de filhos; outras, sofrendo horrores com os maridos. O amante é um escravo, o marido é um senhor. É como dizia uma argentina que conheci: "Os homens são encantadores, o homem é insuportável." Ter de aturar um sujeito toda a vida é o mesmo que não ter senão um vestido que vai envelhecendo e ao qual é necessário a gente ir pondo e sobrepondo enfeites para esconder as manchas e os remendos. Não me serve.
— Ainda gostas muito de romances?
— Leio. E tu? A tua mania era o casamento. Já tens noiva?
— Deus me livre!
— Deus te livre?! — Fez um momo faceiro. — Pensas que não te conheço.
— Não, estás enganada. Namorei por troça, passatempo apenas, Casar!
upa!
E gravemente, com a entono da responsabilidade:
— Preciso cuidar da velha. Ela não tem mais ninguém no mundo, bem sabes.
— É verdade... Eu, compreendes, não tenho coragem de oferecer-lhe a minha casa, nem ela havia de querer.
Paulo não contestou.
— Enfim, sempre posso fazer alguma coisa... A questão é saber se ela aceita.
— Por que não? Não és filha?
— Talvez tenha escrúpulos: dinheiro mal ganho.
— Qual! histórias.
— Mamãe!? Tu não a conheces.
Levantou-se e, contendo um bocejo, perguntou:
— Queres ver o meu quarto? — Vamos.
Ela caminhou direito às portas, abriu-as de par em par e afastou-se dando passagem ao irmão que parecia embaraçado, tímido.
— Entra. Tens vergonha? — perguntou sorrindo. — É um quarto como outro qualquer.
O tapete, alto e fofo, abafava maciamente os passos. A cama estendia-se sob um baldaquino de cujo fundo, dum amarelo de ouro, irradiando em pregas, pendiam sanefas e pesadas dobras de um pano de seda púrpura. Os móveis lampejavam lustrosos, com altos espelhos que refletiam, afundavam o aposento. As paredes eram ramilhetadas de ouro.
Um perfume cálido errava na ar. Havia no silêncio um quê de sedução, um convite misterioso: era o ambiente lascivo que sugeria e vergava ao amor. Paulo não se atrevia a avançar — olhava tolhido, perturbado, sentindo o prestígio inelutável da mulher, a influência poderosa da carne como se ali não estivesse a irmã, mas uma mercenária que o fosse arrastando, vencido, para a amor lúbrico que todo aquele interior aconchegado e discreto insinuava.
Violante abriu o guarda-vestidos — evolou-se uma bafagem aromal em que havia o perfume alucinante da carne e ele viu a policromia das sedas que escorriam dos cabides em saias esguias, plumagens ondulantes, nuvens de rendas. Abriu um cofre, mostrou-lhe as jóias, umas em escrínios, outras soltas.
No psichê ainda rolavam anéis, grampos e numa concha de nácar rebrilhava um escaravelho cravejado de rubis e uma grande pérola piramidal alvejando na encarna dum broche.
Ele olhava, mas a atenção fugia-lhe para o corpo lânguido, flexuoso, cujas formas desenhavam-se sob as rendas do frouxo penteador. Recuou, sentia-se abalado, começava a fraquear diante da mulher. Respirou largamente caminhando para a sala, como a fugir:
— Sim, senhora. — Logo pensou no homem e, com os olhos incendiados, perguntou numa voz presa em que havia desejo: E ele?
— Ele!... É uma excelente criatura. Muito delicado, quer-me muito. Dá-me tudo quanto quero, faz-me todas as vontades. É como um pai. Tem ciúme, mas isto é mal de todos. Não há remédio senão aturar um pouco. Vivo aqui como vês. Pouco saio. É lendo, dormindo, conversando.
— E já apareceste na Rua da Ouvidor?
— Eu? Quantas vezes!
— Então?
— Então, quê?
— Não encontraste conhecidos?
Ela deu d'ombros.
— Já te disse que não os vejo. Quero que não me aborreçam.
Deixou-se cair em um dos divãs, em derreado abandono. Paulo contemplava-a. Parecia-lhe outra — não era a mesma Violante. Se perdera aquela graça leve e arisca da donzela, ganhara beleza mais empolgante, o olhar tornara-se mais quente, a boca mais sangüínea, as faces mais coradas: desabrochara soberba.
Se ela o fitava sentia-se acanhado, o sangue subia-lhe ao rosto incendiandoo.
— Senta-te.
— Não. Vim apenas ver-te.
— Já vais?
— Tenho que fazer.
— Onde estás trabalhando agora?
— Por aí. Topo a tudo.
— Deixaste a jornal?
— Ora! Dias depois da tua saída.
— Por quê?
— Histórias...
Estendeu-lhe a mão.
— Espera, homem. Que pressa! — Levantou-se e, a correr, com um crespo ondular de rendas, foi ao quarto e voltou, momentos depois, com um envelope. — Dá isto á mamãe e dize-lhe que não seja má, que me venha ver.
— E tu, por que não vais até lá?
— Quando?
— Quanto quiseres.
— Só à noite.
— Pois sim, à noite. Hoje, por exemplo. Por que não vais hoje?
Ela pensou um momento, mordicando o lábio. Por fim disse:
— Pois sim. Hoje à noite.
— Eu previno-a para que ela não sofra um choque. Porque ainda não sabe que te encontrei.
— Ah! não?
— Não.
— Coitada!
— Às sete horas...
— Às sete, não; é muito cedo. Às oito e meia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.