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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Ah! Sim. Vamos fundar uma revista literária. Temos aí homem que está entusiasmado e quer tentar a aventura... Vai ganhar dinheiro, afirmou o poeta torcendo os fartos bigodes. Estamos resolvidos a trabalhar de graça nos primeiros tempos, mas depois ele há de entrar com o cobre... O caso é este: Resolvemos, o Artur e eu, fazer um jornal novo, com idéias novas... Nada de antigualhas, e queremos arrebanhar todos esses rapazes que andam por aí cheios de talento, mas repelidos, porque ninguém quer tentar a experiência. Aqui é assim — só têm talento os de um certo grupo da rua do Ouvidor. Ali estão os romancistas criadores, os poetas incomparáveis, os mestres da crítica... Uma súcia de bestas que vive num elogio recíproco, escancarando as mandíbulas em hiatos encomiásticos, ao coxear dos versos cambaios ou ao chirinolar do período fanhoso e vazio do primeiro mu que zurra. Uma cáfila! Vamos cair sobre a súcia a golpes de talento. E havemos de desbaratá-la, porque não vale nada. Gente que não lê, gênios sem sintaxe, águias com penas de ganso. O Artur está disposto a começar a razia. Vais ver o estouro e eu quero os teus contos.

— Pois não.

— Publico-os e fico à espera da crítica. Também se vier algum, dou-lhe tamanha tunda que ele nuca mais se mete em coisas de Arte.

— Que título tem a revista?

— Vida Moderna. Vai sair magnífica, hás de gostar.

— Você e o Artur?

— Eu e o Artur.

— Pois trago amanhã os contos.

— Quantos tens?

— Cinco ou seis.

— Pois traze todos amanhã e vais ver como se desmantela uma igrejinha. Conto com pouca gente, mas sou como Gedeão: nada de fracos na falange, nada de exércitos de Xerxes — um pugilo de espartanos. Eles lá têm gente a valer... Mas que gente! Enfim, trazes amanhã sem falta?

— Sem falta.

— O jornal deve sair no sábado. — Trago amanhã.

Anselmo ia levantar-se quando apareceu o Artur. Gordo e sangüíneo, o rosto largo, expressivo, apresentava-o como um perfeito exemplar dos filhos da Provença dourada do Brasil, que é o Maranhão, terra de sonhadores, onde as lendas pululam e a poesia é a linguagem comum dos que vivem nos campos largos, à grande luz do sol, ou ao pálido luar sem névoa. Os olhos vivos pareciam guardar ainda um pouco de cintilação dos dias equatoriais, a fronte vasta, os cabelos negros, violentamente atirados para trás, reluzindo com brilho próprio. Sentou-se acaçapado, olhando por cima das lentes do pince-nez de tartaruga que lhe escorregava do nariz. De quando em quando erguia a cabeça com ímpeto, como se o ar lhe faltasse, com a mão espalmada derreava os bigodes ou alisava os cabelos. Moraes balançava a perna, passando o índex pela mesa.

— Então?

— Aqui estou. Que há de novo?

— Está tudo feito.

— Falaste ao Lombaerts?

— Para quê? Pois ele não te disse que podíamos mandar originais?

— Sobre o formato do jornal, sobre a escolha das gravuras?

— É ilustrado? — perguntou Anselmo que se havia conservado calado. — Ilustrado. Homem, vocês não se conhecem ainda.

O Artur encarou Anselmo.

— Anselmo Ribas, foi companheiro de casa de meu irmão.

— Pois não. Trocaram um aperto de mão.

— Vem trabalhar conosco, disse o Moraes, acrescentando: Tem talento.

Mas vamos ao caso. Estás disposto a abrir luta?

— Acho que não convém.

— Ora! Não convém... Mas, seu Artur, nós havemos de deixar que um bando de imbecis viva por aí, com muita empáfia, inculcando-se diretor do movimento intelectual? Sujeitos sem valor, rimam baboseiras e escrevem uma prosa mais chata do que o diabo?

— Que temos nós com isso?

— Que temos?! Se não aparecer um homem de coragem que se ponha à dominação da grei dos turiferários ficamos reduzidos a quê, faça favor de dizer, a quê? Não, senhor: vou ser implacável. Se tivessem talento, muito bem, mas são todos uns nulos, sem originalidade, sem estilo e pretensiosos como tudo. Chefes...! Ora pelo amor de Deus!

— Mas, Luiz, eu não te entendo. Combates agremiações literárias, achas, e com razão, que a coterie esteriliza...

— É indecente!

— É indecente, e alicias um grupo, organizas uma coterie, respondes ao mal com o próprio mal. É esquisito. Vamos trabalhar sem idéias preconcebidas; nada de lutas. Para que nos havemos de indispor com os rapazes que não nos fazem mal?

Não há razão...

— Pois eu rompo! E começo pelo chefe: derrubado o bonzo vem abaixo o pagode. Seu Artur, eu não sou literato de catálogo — estudo e não ando por aí a apregoar que os meus versos são os mais belos da língua portuguesa e aqui ninguém os faz melhor, nem aqui nem lá... nem lá! Entanto estou calado, não ando a esmolar elogios. Se aparecem artigos nos jornais a meu respeito são escritos espontaneamente pelos que se impressionam pelo meu verso. Por que não fazem eles o mesmo? Não! E um nunca acabar de elogios, é um Te-Deum laudamus que não tem fim. Rompo! Rompo e esbodego aquilo tudo!

— Faze o que entenderes: eu não concordo.

— Pois concordo eu.

— Ah! Sem dúvida: hás de concordar contigo. Mas vamos a saber: já tens o artigo?

— Que artigo?

— De apresentação?

(continua...)

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