Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

O padre Osório leu com uma grande ignorância curiosa: Os demónios acometem mais os melancólicos. Primeiro, por que o humor melancólico com dificuldade se tira e é de sua natureza inobediente e rebelde. Segundo, porque o humor melancólico é mais apto para gerar diversas enfermidades incuráveis, porque, se é muito enxuto, ofende as membranas do cérebro e faz ao homem doido; se ofende os ventrículos causa apoplexia, e gera raivas, frenesis e ódios; e estes efeitos de melancolia muitas vezes os costuma causar o Demónio, etc.

– O padre Osório está-se a rir?! – invectivou Frei João abespinhado – Sabe o senhor que mais? Eu já tinha ouvido dizer ao abade de Santiago de Antas que o Sr. Padre Vigário de Caldelas não era muito seguro em matéria de fé; que tinha um bocado de fedor herético nas suas prédicas, e que dava mais importância à quina do que aos santos milagrosos na cura das maleitas.

– Se isso fede a heresia, então, Sr. Frei João, estou de todo pobre – obtemperou Osório, e continuou deixando impar de espantada indignação o missionário. – A respeito da enfermidade de Marta, sou a dizer-lhe que em vez de exorcismos quereria eu que lhe ministrassem banhos de chuva, calmantes, distracções; e, baldados estes recursos, que a internassem num hospital de alienadas, porque esta mulher é filha de uma doida, é neta de outros doidos, e pouco há-de viver quem a não vir de todo mentecapta. Além de herege sou profeta, meu caro Sr. Frei João. A sua energúmena tem infelizmente o demónio que raras vezes a ciência vence – o demónio da demência hereditária que a não se curar com a agua em chuveiro, também se não cura com a água benta. Seria bom que Vossa Reverência, antes de pôr à prova os exorcismos, ouvisse a opinião dos médicos.

– Eu sei o que dizem os médicos – e sorria com menosprezo da pobre medicina. – Eu, aqui onde me vê, com os exorcismos, com este remédio que não inventei, mas que a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo me deixou, e que ele mesmo, o divino Mestre usou, como o Sr. Padre Osório deve ter lido nos seus Evangelhos... ou nega a autoridade dos Evangelhos? Nega que Jesus Cristo expulsava demónios? – Não senhor, eu sei a história da legião que se meteu nos porcos...

– E outras; os livros sagrados estão cheios desses factos a que o padre Osório chama histórias; não são histórias, são factos.

– Ah! Sr. Frei João! Jesus Cristo, a sua vida e os seus milagres não são história? não pertencem à história? Mau é isso então!

A polémica prolongou-se um tanto azeda; Osório escandalizava os pios ouvidos do egresso que, pondo as mãos no peito e os olhos no Céu, exclamava com S. Paulo que era necessário que houvesse escândalos. Interrompera-os o brasileiro, dizendo que a sua sobrinha estava com um ataque e que lhe dera no jardim. Frei João entrou na alcova para onde a tinham levado em braços, e o padre Osório ficou ouvindo a revelação da governanta, que lhe dizia:

– A desgraçadinha está de todo varrida! Eu estava no tanque a passar uns lenços por água quando ela entrou no pomar sem fazer caso de mim, como se ali não estivesse viva alma. E vai depois, pôs-se a cortar rosas e a dizer que eram para o seu amado José Alves, para o seu esposo José Alves. V. Sª não me dirá quem diacho, Deus me perdoe, é este José Alves?

– E depois?

– Depois, sentou-se debaixo da ramada, esteve a chorar com o ramo das rosas muito chegado à cara e daí a pouco caiu para o lado a dar aos braços e a espernear. Eu então chamei a cozinheira e levamo-la para o quarto com os sentidos perdidos! O José Alves, quanto a mim, acho que foi derriço que ela teve em solteira. Já ouvi dizer que a casaram com o arenque do tio contra vontade... S o que tem estes casamentos...

O padre Osório não elucidou a governanta. Assim que o Feliciano lhe disse que se iam ler os exorcismos, retirou-se, pretextando deveres paroquiais, e observou-lhe:

– Não deixe mortificar muito sua sobrinha com os exorcismos, Sr. Prazins. O demónio que ela tem é a doença. Faça o que lhe disse o padre-mestre Roque, que é um velho ilustrado e virtuoso. Vá dar um giro com ela. Leve-a à capital; demore-se por lá; e, quando a vir distraída, contente e com bom apetite, volte para sua casa.

O brasileiro disse que bem sabia que os exorcismos eram chérinolas; mas que o frade se lhe metera em casa, e dizia que não se ia embora sem curar ela. Acrescentou que não podia agora sair do Minho porque estava à espera que os filhos do Cerveira de Quadros perdessem na batota do Porto a sua parte de alguns contos de réis, que acharam por morte do pai; – que lhe convinha muito comprar a quinta da Ermida que partia com a dele, e havia outro brasileiro que a trazia de olho. Que a respeito da sobrinha tencionava levá-la a banhos do mar, e havia de comprar o Manual do Raspail, a ver o que ele dizia da moléstia, porque em Pernambuco toda a casta de doença se curava pelo Raspail, e que levasse o Diabo o frade e mais a caiporice dos exorcismos.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6667686970...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →