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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Lucrécio informou à mulher do que o engenheiro desejava. Teve ela uma grande alegria com a importância que o marido ia ganhando, mas , ao mesmo tempo, lembrou-se:

— Você arranja tudo para os outros e não arranja nada para você.

— Deixe estar, mulher, que a minha vez há de chegar... Quem não tem habilitações tem que esperar.

Vestiu-se Lucrécio e desceu com pressa à cidade, para passar um telegrama empenhando-se com Contreiras pelo engenheiro. Interessava-se deveras por aquele homem simples, formado, preterido, que fora ao seu encontro pedir justiça. Desceu a rua do Ouvidor com pressa; mas logo ao chegar à rua Primeiro de Março, teve que cumprimentar a Mme. Forfaible.

A mulher do general não se cansava de andar na cidade e procurava variar a hora dos seus passeios. De fato, as ruas centrais pela manhã têm um aspecto de trabalho e atividade que as veste de modo diferente das outras horas do dia.

Não há conversas das esquinas; as carroças com cargas grosseiras passam por elas e pelas lojas há uma azáfama de lavagem e arrumação.

Na rua Primeiro de Março, porém, mais que nas outras horas, as libras brilhavam nas vitrinas e os bilhetes de bancos podem ser estalados entre os dedos pobres.

Mme. Forfaible chamou Lucrécio e perguntou muito naturalmente:

— Que é que se diz do meu marido?

— Não sei... Não vai ser senador?

— Não queria... Queria que ele fosse ministro! Não dizem nada por aí?

— Que eu saiba não. Mas, a senhora sabe que essas coisas, nós, os pequeninos...

— Diga-me uma coisa, Lucrécio: isso que se diz aí da mulher de Lussigny é verdade?

— Que é, minha senhora?

— Que ela pode muito em Bentes.

— Ah! É uma de Paris?

— É essa mesma.

— Dizem que sim, D. Anita. Dizem que ela é quem faz tudo, que o general só faz o que ela quer. Ela já está aí.

— Eu sei. Vou falar com ela. Meu marido há de ser ministro.

Despediram-se e Lucrécio seguiu em direitura à Central dos Telégrafos. Se bem que fosse amigo de Macieira, não estava incompatível com Contreiras, a quem mesmo dissera que não trabalhava em seu favor por ser camarada leal do adversário dele. Não havia nenhum obstáculo em pedir pelo engenheiro que há muitos anos não passava do mesmo lugar, portanto, em tal sentido, telegrafou:

“Exmo. Sr. Coronel Contreiras — Tatui — Palmeiras - Respeitosamente peço a V. Exa. promover engenheiro Gama Silveira vinte anos preterido — Lucrécio

Contreiras, logo que tomou conta do governo do Estado, mandou empastelar o jornal da oposição; e, em seguida, fez um inquérito em que o seu delegado procurava demonstrar que haviam sido os proprietários do jornal os autores do empastelamento.

Para isso, além do seu cinismo em afirmar, o tal delegado empregou a coação e a ameaça sobre os depoentes, pobres operários que eram obrigados a dizer tudo o que convinha à autoridade.

Não contente com isso, dividiu o Estado em vários distritos agrícolas, à frente dos quais pôs um inspetor e meia dúzia de auxiliares; todos gente sua, que se encarregavam de esbordoar aqueles que demonstravam de qualquer modo não concordarem com “o salvador”.

As reclamações choviam e os delegados policiais faziam inquéritos onde diziam que não havia nos casos coisa alguma de política, mas simples rixas por questões de mulheres ou de família.

Havia em Contreiras, como em todos os déspotas de sua escola que se seguiram, um terror extremo diante da lei que violavam. Não tinham coragem de fazê-lo francamente, claramente, ousadamente; mascaravam as suas violências, os seus assassinatos, com subterfúgios legais e outros, falando sempre em liberdade, em ordem, em paz e prosperidade.

Bogoloff chegando ao Estado, teve vontade de visitar o governador e pediulhe uma audiência; mesmo porque, se não o fizesse, corria perigo a sua segurança.

Já começavam a desconfiar “daquele estrangeiro”. Isto é, não do súdito russo, mas do indivíduo estranho ao Estado, pois assim chamavam os que não viviam e residiam lá.

Viu-se o Diretor da Pecuária muitas vezes seguido por tipos suspeitos, e à vista disso, declarou a sua qualidade de oficial e pediu uma audiência ao governador. Ele lha deu sem muita mora e Bogoloff pode encontrar-se com um homem muito comum, de feições e inteligência. Não lhe pode sacar nem uma idéia sobre a administração e o governo. Só lhe dizia:

— Este Estado, Doutor, tem sido muito roubado. Agora as coisas vão entrar nos seus eixos. Sou honesto e não consinto que ninguém roube à minha sombra. Quanto a bois, há por aí muitos, mas esse negócios de bois não é dos mais urgentes. A polícia não está bem instruída...

Quando o russo lhe falou da miséria da população, na lamentável impressão que isso fazia a quem vinha de fora, ele lhe disse:

— É... É... São uns madraços. Estou tratando de fundar uma colônia correcional.

Aquele homem não via que era o próprio governo que estava criando aquela situação; que era, além de outras coisas, a quantidade formidável de impostos cobrados pelos governos municipal, estadual e federal, tornando o trabalho infecundo e afastando o emprego de capitais.

(continua...)

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