Por Coelho Neto (1890)
Felizmente Anselmo encontrou um cocheiro amável. Mas que trabalho para acomodar o Lins!
— Para onde vamos?
— Rua do Riachuelo.
— Olhe, cavalheiro, vá devagar porque a rua está jogando muito. Decididamente não posso comer feijão. Estou danado! Que morro é aquele alto?
— Onde?
— Ali! Não estás vendo as luzes?
— Que morro? Que luzes? Não vês que são estrelas?
— Estrelas?! É verdade! Estrelas... Mas como o céu é alto, hein...! Que horror! Mais devagar, cavalheiro. Queres saber? Há dias, quando eu voltava para casa, às cinco da manhã, encontrei um cavalo de tílburi deitando fumaça pelo nariz. O seu cavalo fuma, senhor? Mais devagar... Homem, tu moras na rua do Riachuelo ou na estação do Riachuelo? Parece que estou andando desde o princípio do mês.
— E tu pesas, Lins!
— Não sou eu, filho, é a cabeça... Uma feijoada completa, imagina! — Aí! Pare.
Que trabalho para descer o Lins e para deitá-lo, que trabalho!
CAPÍTULO XV
Uma tarde, terminado o trabalho da redação, Anselmo descia a rua do Ouvidor quando se sentiu agarrado por um pulso formidável. Voltou-se impetuosamente e deu com Luiz Moraes, sempre carrancudo:
— Onde vais?
— Não tenho destino. Estou arejando o cérebro.
— Dize-me cá: Fortúnio falou-me de uns contos teus que foram rejeitados por certo jornaleco.
— Sim, não são propriamente contos: são umas ligeiras fantasias. Por quê?
— Eu te digo. Vamos aqui um instante. Tenho de esperar o Artur. Já conheces o Artur?
— De vista.
— Excelente rapaz e magnífico poeta. Seria um dos primeiros líricos americanos se, por vezes, não rebaixasse a lira a violão zingareando chulas para o populacho. Um poeta não deve descer à multidão, a multidão é que deve subir ao Parnaso para ouvi-lo. Tomarias a sério Petrarca ou Musset tocando na orquestra para ritmar o passo bambo de uns tantos saltimbancos? Não, por certo. A arte é hierática. O poeta é sacerdote: oficia para o coração e o Artur não é só um poeta, é um grande poeta: natural, correto, suave e brilhante. Acho que não devia escrever para o teatro. Ficasse nos sonetos. — Il faut vivre, mon ami.
— Ora! Il faut vivre! E eu? Não estou aqui? E Deus me livre de escrever uma linha para o teatro, não que deteste a literatura dramática, mas não temos intérpretes. Um poeta não deve descer à imbecilidade erótica do maxixe. Faça versos honestos, escreva poemas, isso sim. Vamos tomar alguma coisa.
Entraram na Maison Rouge. A casa era sombria e lúgubre como uma adega. Estava deserta; tomaram uma das mesas e Anselmo, puxando uma cadeira, disse em tom sentencioso:
— Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, disse o Cristo.
Ao povo dá ele as revistas, à Arte dá os esplêndidos versos que tanto exaltas.
— E com razão porque são admiráveis. Mas eu fico indignado quando ouço um bom verso estropiado por um palhaço. Um alexandrino na opereta! Sabes que me lembra? Um leão das montanhas com a sua juba dourada, virando cambalhotas num circo ou correndo cavalgado por um macaco. O verso alexandrino é nobre, fezse para os lábios de um Leconte e não para a boca desdentada de um histrião de feira.
É natural que a Sarah recite as estrofes do grande "Impassível", mas um clown que declamasse Bhagavat faria estourar de riso um frade de pedra. Senhor, poeta é poeta! Só então o Moraes viu que o caixeiro estava de pé, junto à mesa, esperando ordens: Homem estavas aí...? Está bem; não perdeste o teu tempo, sempre ouviste alguma coisa aproveitável. Dá-nos cerveja. E, cuspinhando, continuou:
— Tenho dito ao Artur: Que diabo! Tu que tens tanto talento por que não deixas essa borracheira de teatro? Escreve versos, que os fazes admiráveis, lida com a tua musa delicada e abandona de vez esse rancho de cabotinos... Mas o homem está viciado. O escritor habitua-se com o meio que o aplaude e, para o não perder, vai cedendo à larga, até que um dia nivela o seu espírito com o da gente ignóbil e adeus! Foi-se! Perdido. E como o homem que se vicia com a morfina. Há glórias afrontosas, eu penso assim. O Artur é homem para ser aplaudido por nós, e prefere ao nosso julgamento o barbarismo idiota das platéias. Vício.
— Mas que há de ele fazer se os nossos teatros não aceitam peças literárias? Consta-me que ele tem uma tradução magnífica de Molière, em verso.
— Uma não, várias.
— Então...
— Mas escreve revistas.
— Para ganhar.
— Faz mal! Um poeta como ele não transige.
— Mas... E sobre os contos?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.