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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Com estes em contraposição, os de orgulho masculino, peludos, morenos, nodosos de músculos, largos de ossada, e outros mirrados de malícia, insaciáveis, de voz trêmula e narinas ávidas de bode, os gorduchos de beiço vermelho relaxado, fazendo praça de uma superioridade porque nem sempre zelaram antes da madureza das banhas.

Ângela dominava-os a todos; vencia-os.

As janelas abertas para o quintal do diretor eram fortemente gradeadas de madeira; por entre as travessas olhávamos.

Ângela fazia-se menina para brincar e correr com vivacidades de gata. Rolava no chão, envolvendo a cara nos cabelos, secos, soltos. Saltava agitando o ar com as roupas; colhia flores e jogava, distribuindo por igual a todos, que ela a todos queria bem. Quando não havia muitos, às grades do salão, descuidava-se, aparecia em corpinho e saia branca, afrouxando o cordão sobre o seio, mostrando o braço desde a espádua, espreguiçando-se com as mãos ambas à nuca e os cotovelos para cima, contando para a janela histórias que não acabavam mais, enquanto às axilas, em fofos de camisa, ia escapando a indiscrição dos fios fulvos. Sempre ao sol! sempre alegre! filha selvagem da luz, fauna indomável das regiões quentes, afrontando a temperatura como as leoas, insensível e sobranceira.

Cantava.

Só no canto era triste; canções nostálgicas repassadas do sentimento de coisas distantes, um lar amigo de pais, um coração de adolescente, conhecido uma vez antes da emigração para sempre, canções da ilha em que se ouvia o murmúrio do oceano calmo e das brisas viajadas, e o grito angustiado das gaivotas e a celeuma longe da maruja à faina, acompanhando um estribilho insistente de amor, amor malandro de gente pobre à beira-mar, feito de peixe, de ociosidade triste e de calor.

Às vezes era grosseira: dialogava ao desafio em chacota desbocada, com quem quisesse; impacientava-se abruptamente e desaparecia, arremessando uma praga de bem acabada torpeza. Fazia pilhéria; tinha um colégio também para receber internos, externos, meio-pensionistas. Batia no ventre.

E com a grosseria, com a chacota, com o estribilho sentimental, com os descuidos do corpinho, com as flores, com as turbulências de criança sem modos, Ângela era a rainha da atenção e da curiosidade: inflamava-se o chalé em conflagrações de entusiasmo. Se passava algum tempo sem aparecer, colavam-se às grades, perscrutando a sombra das árvores do quintal, carinhas sem conta, chapadas de saudade.

E divertia-se a apreciar os ardores engaiolados dos seus meninos, entretendo-se a desesperá-los como quem atiça o braseiro para ver a erupção das fagulhas, o rodopiar dos rubis candentes, com um prazer graduado entre o orgulho da castelã requestada de cem paladinos e a expectativa palpitante do carname em postas de um festim de jaula.

Com o tempo vim a descobrir que uma camarilha de espertos conseguira sofismar alguns paus da grade da última janela, três ou quatro leitos além do meu, e passavam de noite, quando o silêncio se fazia, a tomar fresco no jardim do diretor. Preferiam as noites escuras, que têm mais estrelas e mais segredo, e preferiam as noites de chuva, que em questão de fresco são decisivas. Desciam por uma corda de lençóis torcidos e voltavam às vezes como pintos, mas refrescados sempre. Por medida de prudência, não passeavam mais de dois por noite, fazendo sentinela um durante a ausência do outro.

Disse que me não interessavam as intrigas e preocupações gerais do salão; não fui preciso; e não sei como possa ser neste ponto sem recorrer às modalidades de expressão — atualmente, virtualmente, que o anacronismo injusto condenou. Pouco se me davam fatos; o espírito seduzia. Talvez por isso fiz a descoberta do sofisma da camarilha; incomodando-me a liberdade secreta, o rega-bofe às altas horas, como um roubo feito a mim, aos companheiros, iludidos no sono, traição odiosa à nossa tolice de descuidados. Veio-me uma noite a tentação violenta de espalhar o segredo por todos, desmoralizar os finórios, conduzir o Silvino e mostrar-lhe os sarrafos ajeitados à deslocação, trair merecidamente aos traidores. Medi as objeções: além de feia delação de voluntário da espionagem, podia ser asneira. Talvez soubessem todos, menos eu, simplesmente por estar de pouco na terceira classe. Experimentei. Conservei-me acordado até à hora, com uma paciência e um esforço de caçador de emboscada. No momento flagrante, ergui-me na cama, esfregando os olhos, fingindo-me admirado. Não houve remédio senão iniciar-me. Os dois da noite contaram. Malheiro era o chefe da troça, uma troça de nove, muito discretos, muito hábeis; também quem traísse apanhava.

A minha irritação contra o sofisma abrandou sem desfazer-se. Sempre que por acaso algum rapaz surpreendia os expedicionários da frescata, era incontinente aliciado para as vantagens e sob as ameaças. O marro fabuloso do Malheiro era a sanção.

(continua...)

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