Por Raul Pompéia (1881)
Cendi os perdera... depois de morta. O índio murmurou entre dentes.
- Covarde!
E baixou os olhos de lá, das estrelas, para Cendi.
- Adeus, sonho do meu amor, adeus, rolinha! Os guerreiros guardar-te-ão o corpo no invólucrode barro de igaraçaba... Mas eu irei contigo!...
VIII
Um rumor levantou-se ao longe. Taigaíba escutou.
Este barulho era seu conhecido. Ouvira-o já cem vezes, cem vezes isto fora para ele um hino de alegria. Então, porém, não passava de uma canção fúnebre que o atraía. Ele obedeceu:
- É a batalha que se aproxima!...
E embrenhou-se na mataria, gritando possesso:
- Taigaíba ao combate! À morte! à morte!...
1882
Raul Pompéia
QUASE TRAGÉDIA
Conto da Lua-de-Mel
Quando se é recém-casado por esses primeiros dias velozes que fogem para o passado, com uma rapidez incrível; em que almeja-se ardentemente que a noute desça, porque se ama o recato das sombras; em que suspira-se pela manhã, porque a manhã traz aquela preciosa luz fresca que convida a esses passeios ricos de efusões e mútuas expansões amorosas; nesses rápidos dias que os europeus gostam de saborear à beira do Adriático, cobrindo-se com o céu da Itália, ou no meio dos lagos da Suíça, entre os nevoeiros que descem das cumeadas glaciais e brancas; nesse fragmento de vida que os Fluminenses passam refugiados nas alturas verdes e saudáveis da Tijuca, nos saborosos dias da lua-de-mel, há certas confidências murmuradas docemente entre os esposos, confissões muito em segredo, que só entre os dous pombinhos se dizem, e como arrulhos se perdem na ventania que a floresta manda...
E assim deve ser. Tal é a doçura estranha dessas conversações, tal é a intimidade religiosa, em que se confundem a expansão e a reserva, num mistério tão delicado, que é melhor, muito melhor que se percam no espaço, longe dos ouvidos indiscretos como o canto do pássaro na mata virgem...
Foi numa dessas entrevistas meigas e misteriosas, que a pequena Adélia pôde saber porque motivo, pouco antes do seu casamento, Eduardo deixara dous dias em seguida de ir vê-la à casa do pai e soubera também o motivo daquela palidez cruel com que ele reaparecera, rindo muito, jurando que aquilo fora um ligeiro incômodo; que já estava perfeitamente bem, sem conseguir entretanto, ocultar absolutamente que sofria.
Haviam se casado.
Aqueles dous dias e aquela palidez, foram a tristeza da sua alegria no casamento.
Eduardo estava pálido, dentro da casaca preta que mais pálido o fazia. Adélia ficara também pálida e melancólica.
Quando ela soube o motivo, quando descobriu a cicatriz recente que ele tinha pouco acima do calcanhar direito, foi então que a melancolia desapareceu-lhe; mas como não sofreu ainda de vê-lo doente da ferida que mal acabava de fechar-se!
Pôs-se a refletir no fato.
Teve medo de interrogar positivamente Eduardo. Fez conjeturas, todas as conjeturas, e tratou muito dele, maternalmente como uma irmã, como uma filha, muito empenhada em vê-lo completamente restabelecido...
Eduardo pelo contrário inebriado de amor por ela, não cuidava de si. Só queria beijá-la. Cobrialhe de beijos as pálpebras, ambas as faces, os lábios, beijava-lhe até, cousa incrível! beijava-lhe a concha das orelhinhas rosadas de veludo! Pobre Eduardo!...
Afinal Adélia veio a conhecer tudo. Tudo... que poema! Escapara de ver na candura nívea das asas do seu amor uma triste mancha de sangue. A história do seu noivado por um triz que dava em tragédia e todos os sorrisos e juras por uma linha que não degeneraram em pranto e desespero.
Felizmente tudo ficara em riso, o sangue se reduzia a salpicos vermelhinhos, pontuando as asas de neve dos seus Cupidos.
Parece invenção. Entretanto, a cicatriz lá estava, pouco acima do calcanhar de Eduardo, como a prova palpitante.
Foi assim.
Moravam em Santa Teresa. Da casa de Adélia, no alto, avistava-se embaixo, numa das ruas da encosta do morro, a casa onde morava Eduardo.
Todas as tardes, depois que ele a pediu em casamento, o moço subia a ver a noiva e visitar a família do futuro sogro.
Raramente faltava. Quando ficou determinado o dia do casamento, as visitas de Eduardo tomaram-se infalíveis. Em todo o lugar falava-se do próximo enlace.
Repentinamente, com grande espanto de todos da casa de Adélia e principalmente desta, Eduardo falta um dia. Mandaram saber porque.
- Estava incomodado.
Falta segunda vez...
Duas vezes... Era incrível...
Um noivo como ele faltar duas vezes... era grave.
Nova visita.
- Vai melhor... mas...
Todos ficaram sobressaltados.
Quanto caiporismo!
Havia alguns dias que tudo acontecia naquela casa. Um telegrama viera, noticiando moléstia grave de um parente que estava em Cabo Frio, o padrinho de Adélia, para sinal; a estouvada da Joana quebrara uma dúzia de pratos, por querer carregá-los todos duma vez em pilha; ainda mais, entrara pelas janelas da frente, uma grande borboleta preta que fora pousar exatamente na caixa do enxoval da menina...
O cão do vizinho uivara toda a noute...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.