Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– Estou convencido, Sr. Frei João – atalhou o vigário – Vossa Reverência já esclareceu a minha dúvida. É o caso que Deus permite demónios flagelantes para depurar com eles os pecadores – uns e outros criaturas da sua divina justiça.

– É isso mesmo.

– O espírito do mau homem – do pecador que é em si um demónio interno, depura-se pela acção de outro demónio externo, ambos criaturas do seu divino amor... Percebi. Estou convencido... Deus é como um pai que azorraga o seu filho querido a ver se ele recebe as mortificações como carícias. Rico pai! – E acrescentou com amargura: – Ah! meu Frei João, receio muito que as superstições venham a desabar o catolicismo que deve a sua existência à vitória que alcançou sobre as mentiras da idolatria com as armas da verdade. Ego sum veritas.

Frei João ia fulminar segunda vez a argumentação do padre Osório, quando os outros missionários chegavam, para assistirem ao jantar de despedida em casa da brasileira.

Fechara-se a missão; os padres iam dali para Barcelos; mas Frei João, empenhado em desendemoninhar a pobre Marta, hospedou-se na quinta da Revolta, em cuja capela celebrava missa e confessava as suas filhas espirituais insaciáveis do pão dos anjos, que digeriam numa vadiagem dorminhoca, amesendadas nos adros das igrejas e nos soalheiros, catando as próprias pulgas e as vidas alheias.

Frei João andava apercebido com todos os utensílios infestos ao Diabo. Resolvido a dar-lhe batalha, armou a energúmena das mais provadas armas nos seus triunfos sobre o Inferno. Lançou-lhe ao pescoço um santo lenho, um breve da Marca, a verónica de S.. Bento, o Símbolo de Santo Atanásio, cruzinhas de Jerusalém, verónica com a cabeça de Santo Anastácio, relíquias de vários santos, umas esquírolas de ossos grudadas em farrapinhos, orações manuscritas da lavra do varatojano, metidas em saquinhos surrados da transpiração de outras obsessas.

Marta devia jejuar, como preparatório. Parece que o Demónio se compraz de habitar estômagos confortados na quentura do bolo alimentício. O exorcista jejuava também conforme o preceito dos praxistas, e aconselhava ao Feliciano que jejuasse, em harmonia com o texto de Jesus que dissera pela boca de S. Mateus que : Hoc genus demioniorum in nullo potest exire nisi oratione a jejuino. O Feliciano dizia que sim, que jejuava; mas, às escondidas do frade, comia bifes de presunto com ovos; começava a revelar ideias egoístas, um cuidado da sua alimentação e do seu repouso, certo desprezo cínico pela parte que o Diabo tomara na sua família.

Frei João de Borba da Montanha expendeu ao vigário de Caldelas os fortes sintomas que Marta apresentava de estar possessa. Eram muitos, e bastava-lhe citar os seguintes:

Ouvir a voz de José Dias que a chamava, no sonho e na vigília. E mostrava o texto: quando patiens audit quasdam voces se vocantes. Porque aborrecia a carne e o pão, e tinha grande fastio. O Osório lembrava-lhe que seriam enojos peculiares da gravidez; mas o varatojano confundia-o com o latim. Quando quis non potuit gustare panem aut cantem. Ela digeria com muita dificuldade os alimentos. Era obra do Diabo, porque o livro dizia – bem vê – mostrava Frei João ao padre Osório: Quando quis sanus cibum digerere non potest in stomacho. Chorava e não dizia por que chorava. Diabrura com toda a certeza: – Quando lacrymas plorat et nescit quid ploret. Havia um artigo que acentuava as mais fortes presunções da obsessão íncuba de Marta. Parece que ela no confessionário se acusava de repugnâncias, de concessões violentadas, de resistências às carícias do esposo: e talvez revelasse que a imagem de José Dias intervinha nessas lutas da alcova. É o que se depreende do Sinal décimo terceiro que Frei João mostrava com o dedo no seu Brognolo, e vai em latim, como lá está, para que poucas pessoas possam alegar inteligência: – Quando vir uxori et uxor viro apropinquare non potest, quia videt aliud corpus intermedium, aut sibi videtur esse.

– Aqui é onde bate o ponto! – dizia Frei João martelando com o dedo indicador na página indecente.

– Mas não será essa visão o intróito de uma alienação mental? – perguntava o de Caldelas. – Não vê, padre João, que esta rapariga está abatida por uma grande amargura que prende com actos da sua vida passada? Não a vê tão caída, tão melancólica...

– Os melancólicos são os mais vexados pelo Demónio – replicou o egresso. – Veja Galeno e Avicena, que aqui vêm citados. – E folheou o Brognolo, até encontrar o texto triunfal.

– Aqui tem; leia, verão que a demência pode ser obra do Demónio.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...6566676869...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →