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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Era uma revoltada. Tinha, para impor-se, a mocidade e a beleza — que importava o resto? A sociedade só despreza a miséria — as desonras que vexam são a fome, a nudez e as moléstias; o dinheiro tem sempre o seu prestigio, ninguém lhe pede a origem... e ela nadava em ouro.

Resolveu visitá-la na manhã seguinte para conhecer todos os pormenores daquele romance. E gozava, imaginando a vida solta da irmã, sempre em festas, deslumbrando com a sua formosura, disputada pelos argentários, amante de influências, podendo até protegê-lo, impô-lo à fortuna.

Sentia uma ponta de orgulho comparando-a às outras mulheres fanadas que a remiravam com despeitada inveja. "Vai longe!" murmurou num bocejo, estrincando os dedos.

Lembrou-se, porém, do dinheiro que guardara na gaveta. Saltou da cama, tomou-o e, espalhando-a na mesa, com volúpia de avaro, pôs-se a contá-lo separando as notas pelas respectivas valores. E imaginava compras: um farto fornecimento para a despensa, roupa, livros, o resgate das jóias.

A vida pareceu-lhe de facilidade suave. "Agora sim, a questão era ter um pequeno capital para começar..." E pensou em Ritinha.

A mulata havia de ceder porque, afinal, a vida de expedientes de Mamede não lhe garantia a tranqüilidade. Quando ela o visse com dinheiro não relutaria. Repôs os maços na gaveta, bem acamados, deu volta à chave, deitou-se, soprou a vela e, na escuridão silenciosa, ainda pensou na fortuna, em amores, no futuro que se anunciava propício.

Já as carroças rodavam pesadamente quando adormeceu ouvindo o rumor grave, soturno das ondas aos rebolões na praia.

Acordou tarde e logo, deixando o gozo macio, a preguiçosa moleza tépida da cama, pôs-se de pé, com pressa e dirigiu-se ao banheiro. Dona Júlia falava à Felícia aconselhando-a e, quando ele reapareceu, esfregando a cabeça, a reclamar a café, ela disse-lhe que a negra se havia despedido.

— Por quê? Deve-se-lhe alguma coisa?

— Só as dias que estão correndo. Mas não é por dinheiro: Felícia está com a cabeça virada, vê coisas... Andou toda a noite pela casa resmungando. Diz que é o filho. Desde que viemos para aqui é isto. Não pode ver o mar. Se vai à rua fica um tempo enorme, às vezes volta sem as compras, perde o dinheiro. Tenho pena, coitada! mas o melhor é deixá-la ir.

— E quem há de fazer o serviço? Ela que fique até eu arranjar outra. Ponho hoje um anúncio. Mas quem sabe se não é bebida, mamãe?

— Ela não bebe. Está assim por causa do filho. De mais a mais foi meter-se com o espiritismo, ficou perdida de todo.

— Ah! então... Pois hoje mesmo eu ponho um anúncio, descanse.

E caminhou para o quarto.

Quando saiu esteve um momento à porta, hesitando entre ir à casa da irmã e descer à cidade. Era muita cedo. Tomou o bonde resolvido a fazer o sortimento. Foi uma prodigalidade. Queria tudo em abundância e do melhor — conservas, doces finos, vinhos, licores, queijos. Feitas as compras exigiu que lhas mandassem imediatamente a casa. Depois encaminhou-se para o hotel, almoçou desatento, com o espírito muito longe, preocupado com a visita que ia fazer.

Depois de haver percorrido lentamente a Rua do Ouvidor, parando diante das vitrinas a olhar as jóias cintilantes, os bibelots graciosos, os manequins esbeltos, resolveu-se a tomar um tílburi e mandou tocar para Botafogo.

A casa, de aspecto nobre, com todas as janelas fechadas, ficava ao lado de um jardim sombrio, de sinuosos caminhos areados de saibro escuro. Duas alvas figuras de mármore destacavam-se na sombra das ramagens. Hesitou um momento, impressionado com o silêncio, receando encontrar o "homem".

Despediu o tílburi e ficou parado ao portão a olhar, tímido, indeciso. Não aparecia ninguém; no interior, um silêncio de abandono. Seria ali? decidiu-se, por fim, a apertar a botão da campainha. Uma criada loura, de avental, apareceu à varanda, debruçou-se olhando por entre a folhagem da ipoméia que formava uma verde e florida empanada. Vendo-o, desceu ligeiramente e os seus passos vinham crepitando no saibro lucilante. Ele lembrou-se da recomendação da irmã e perguntou:

— Mademoiselle Diana?

A criada mirou-o dos pés à cabeça, e murmurou em tom de receio:

— Está; mas ainda não desceu. Pode dar-me o seu nome? — Paulo, ela sabe.

Imediatamente a criada abriu o portão e, sorrindo, afastou-se dando-lhe passagem. Ele seguiu-a à varanda, entrou numa saleta luxuosa, que um alto tapete forrava. Pesados reposteiros coavam a luz filtrando suave claridade confidencial.

Duas cegonhas de bronze flanqueavam a otomana de damasco amarelo, vivamente ensangüentado a flores de púrpura. Pelas paredes, floridas a ouro, sobre aveludado fundo carmesim, acumulavam-se retratos, grandes quadros pendiam mostrando paisagens tristes — campos de trigo esfumados pela crepúsculo e gados que recolhiam e uma gravura idílica em que havia uma redouça, entre flores, unindo um jovem casal amoroso no mesmo balouço. O silêncio era absoluto como se tudo dormisse naquela casa. A criada reapareceu em passos surdos, como uma sombra.

— Pode subir. A senhora espera-o lá em cima.

(continua...)

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