Por Coelho Neto (1890)
Só então apareceu a polícia azafamada, atirando os cavalos sobre o povo. Houve protestos, ameaças: por fim, na platéia, uma voz bradou possantemente: "Abaixo o rapa-côco! Morra o escravocrata!" E um clamor tormentoso de duas mil vozes furentes atroou "Morra!" Mas vários "psius" silvaram. Voltaram-se todos para a tribuna: Quintino Bocaiúva, calmo, ereto, alisava a barba. Palmas estrepitaram e, o orador, retomando serenamente o fio do discurso, continuou a demonstrar que a causa dos escravizados, que todo o Brasil adotara, havia de vencer, embora a polícia, pactuada com os fazendeiros, procurasse, por meios criminosos, sustar a marcha vitoriosa da idéia. Seguiu-se com a palavra José do Patrocínio que lançou um repto à monarquia: "Ou cede à vontade do povo ou cai. Citou Quinet, reproduzindo a imagem do oceano que se vai impondo a pouco e pouco, subindo degrau a degrau, ameaçador e sinistro e, terminando, anunciou, para muito breve, a Redenção da Pátria Brasileira."
À saída, como circulasse o boato de que a malta estava à porta armada, para desfeitear os oradores, o povo reuniu-se e desfilou arregimentado, levantando vivas aos heróis da noite.
Anselmo, com as roupas retalhadas, sem chapéu, vociferava e, diante do edifício da Polícia, levantou um — morra! desesperado que, por felicidade, não lhe saiu da garganta, tão rouco estava.
Na redação, onde ficaram um momento repousando, Patrocínio e outros chefes abolicionistas, comentaram a bravura do escritor: "Não o julgavam tão valente..." Anselmo estava alucinado: "Queria ir à Polícia! Queria encontrar o Benjamin para quebrar-lhe a cara." E fulo, suado, esbaforido, com os olhos coruscantes, brandindo a bengala lascada, rugia:
— Parto-lhe a cara! Se é homem também eu sou! Parto-lhe a cara! Num salto ágil quis ganhar a porta. Detiveram-no a tempo, ele, então, aos arrancos, falando para o povo que enchia o escritório, contou os seus feitos abolicionistas.
— Também acoitei escravos! Estão aqui oito que mandei de S. Paulo... e hei de acoitar. Canalhas! Parecia louco.
— A escravidão é um roubo! — esgoelou um velhote agitando o guardachuva.
— Apoiado! — bradaram todos e o velho, inspirado, pôs-se a esganiçar do meio da turba, espichando a cabeça, sacudindo em uma das mãos a cartola e na outra o guarda-chuva:
— Patrocínio, teu nome há de ficar gravado no Panteon da História do Brasil. Tu és a nossa esperança... Não desanima, Patrocínio, meu velho, e, no dia em que for necessário um homem para combater a teu lado, conta comigo! O Januário, Patrocínio... O Januário calafate! O guarda-chuva e a cartola dançavam acima cabeças e o velhote, frenético, energúmeno, já rouco, urrava: Conta comigo... E estertorou: "Viva José do Patrocínio... gente!" Todos bradaram. "Oôôôh!" Mas a reunião começava a tornar-se inconveniente. Gritos sediciosos rompiam por vezes: "Morra o carrasco!... Viva a República!" Patrocínio dirigiu-se povo pedindo calma. Vários vivas atroaram e a multidão foi escoando até que recaiu o silêncio. A patrulha passeava rua abaixo, rua acima.
— Menino, você é uma fúria!
Anselmo procurava compor o casaco estraçalhado.
— O diabo é que não tenho outro casaco e perdi o chapéu.
— Não tens outro casaco?
— Não.
— Quem não tem roupa não se mete em camisa de onze varas, disseram.
— Oh! És tu, Lins?
— Sou eu. Venho oferecer-te o meu braço forte.
Num rápido olhar Anselmo compreendeu que o poeta não estava em estado de lhe oferecer socorro.
— Amanhã mando levar um casaco à tua casa, disse o Patrocínio.
— E um chapéu, ajuntou Anselmo.
— Queres tomar um tílburi?
— Acho melhor.
— Toma. Tenho aqui pouco, mas chega. Não estás ferido?
— Não.
— Então vai.
— Até amanhã. Olha o casaco. — Não há dúvida.
À porta, o Lins, agarrado ao braço de Anselmo, oscilava, risonho e baboso, oferecendo-lhe o braço forte:
— Estou danado! Sou capaz de agarrar um permanente por uma perna e bumba! Abaixo do cavalo! Não imaginas! Quando eu tinha quinze anos derrubava touros a murro. Estou danado! Perdeste o chapéu?
— Perdi.
— Queres o meu?
— O teu? E tu...?
— Eu? Já estou de touca, não faz mal. Rompeu a rir, às guinadas, pendurado ao braço de Anselmo. É isto: não posso comer feijoada, fico logo assim.
— Foi então a feijoada que te pôs nesse estado...?
— Foram os pertences. Vendo, porém, que Anselmo encaminhava-se para o meio do largo, fez um esforço e deteve-o: Onde vais?
— Vou tomar um tílburi.
— Qual tílburi! Vamos tomar outra coisa: um conhaque, por exemplo.
— Não, não posso. Olha como estou. Queres que me vejam assim roto?
— Que tem? Há razões gloriosas. Eu hoje estou danado! Vou dormir contigo. Há espaço na tua cama?
— Pois não.
— Então vou. Não posso dormir no meu quarto: é cada mosquito que parece um frango. Quando ouço a zoada vou devagarinho com a mão, agarro o bicho pelas pernas e zúquite! Dou com ele na parede e esborracho-o. Vamos tomar alguma coisa.
— Não, Lins; estou fatigado. Vamos ver se o cocheiro nos leva no mesmo
tílburi.
— Eu não peso nada. Posso ir ao colo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.