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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Eu deitava-me preguiçoso, ouvindo a grita do pátio, como coisa absolutamente alheia à minha vida. Contava as tábuas do teto, porção de traços paralelos que se perdiam num reflexo da tinta. Às vezes lia narrativas de Dumas, que não distraiam. Em outras camas, deitados como eu, de cara para cima, cruzando os botins, alguns colegas fumavam, soprando, devagarinho, colunas de fumo que subiam verticalmente, e rodavam azuis. A um canto, no fim do salão, jogavam três parceiros, bocejantes, acentuando sem entusiasmo as alternativas do azar como uma partida de sonâmbulos. Muita vez na modorra pesada da sesta, as costas aquecidas da posição, fechando-se-me os olhos, ao brilho do sol que adivinhava li fora no terreiro abrasado, eu adormecia. À hora da aula ou do jantar, um companheiro puxava-me.

Estes intervalos de dormência sem sonho, sem idéias, sem definida cisma, eram o meu sossego. Pensar era impacientar-me. Que desejava eu? Sempre o desespero da reclusão colegial e da idade. Vinham-me crises nervosas de movimento, e eu cruzava de passos frenéticos o pátio, sôfrego, acelerando-me cada vez mais, como se quisesse passar adiante do tempo. Nem me interessavam as intrigas do salão. E que intrigas! exatamente a substância do afamado mistério do chalé.

A uma das extremidades do comprido salão, armava-se o biombo do Silvino, grande caixão de pinho a meia altura do teto, com uma porta e uma janela de palmo quadrado, donde saiam emanações de roupas suadas e várias outras, cheiros indecifráveis de pouco asseio; donde saia mais, durante a noite, crescendo, decrescendo, um roncar enorme, fungado de narigudo.

Os rapazes furavam orifícios com verrumas para espiar, e tinham achado a legenda do Silvino. Depois disto, vinha a demografia especial da terceira classe, a distribuição por famílias regulares, ou por aproximações eventuais, conforme os caracteres, sob a divisa comum do nada haver, ou como entendiam outros nada a ver. Louvavam-se os exemplos de fidelidade; comentavam-se as traições; censuravam-se as tentativas de sedução; improvisava-se a teoria do lar e do leito; cantava-se o hino báquico dos caprichos volantes, do entusiasmo passageiro. Chamavam-me a mim o Sérgio do Alves. Fazia-se a critica dos novos sob um ponto de vista inteiramente deles. Apostavam a ver quem seria primeiro, exigiam juramento de segredo, para passar adiante uma história que tinham por sua vez jurado não contar a ninguém. Serviam-se mutuamente em pasto às boas risadas, anedotas espessas, com ou sem aplicação, conforme o pedido e o paladar do ensejo. Toda a crônica obscura do Ateneu redigia-se ali, em termos explícitos e fortes, expurgada dos arrebiques de recato, de inverdade, pelo escrúpulo das comissões investigadoras. O Silvino que se fosse! Não tinha nada com a conversa dos rapazes. Uma das melhores máximas do chalé era esta, característica: — Fica revogado o diretor.

Tudo que na primeira classe e na segunda era extraordinário, ali era normal e corrente. Todas as idades, desde o Cândido até o Sanches.

Das classes inferiores, havia quem fizesse empenho em mudar para a terceira. No ambiente torvo da intriga, insinuava-se o vaivém silencioso das ficções, drama joco-sério dos instintos, em ilusão convencional e grosseira. E investiam-se dos diversos caracteres convictamente os mancebos, explorando o momento efêmero da pele, novidade tenra do semblante, como elemento de artifício, deleitando-se no engano, tomando a peito a caricatura da sensualidade.

Havia o que afetava moderação no capricho, conhecendo o desvio em regra, como o ladrão sabe ser honesto no roubo; com o ar sério, espantadiço das femmes qui sortent; havia os ingênuos, perpetuamente infantis, não fazendo por mal, risonhos de riso solto, com o segredo de adiar a inocência intata através dos positivos extremos; havia os entusiastas da profissão, conscientes, francos, impetuosos, apregoando-se por gosto, que não perdoavam à natureza o erro original da conformação: ah! não ser eu mulher para melhor o ser! Estes faziam grupo à parte, conhecidos publicamente e satisfeitos com isto, protegidos por um favor de simpatia geral, inconfessado mas evidente, beneplácito perverso e amável de tolerância que favorece sempre a corrupção como um aplauso. Eles, os belos efebos! exemplos da graça juvenil e da nobreza da linha. Às vezes traziam pulseiras; ao banho triunfavam, nus, demorando atitudes de ninfa, à beira d’água, em meio da coleção mesquinha de esqueletos sem carnes nas tangas de meia, e carnes sem forma. Havia os decaídos, portadores miseráveis de desprezo honesto, culpados por todos os outros, gastos às vezes antes do consumo, atormentados pela propensão de um lado, pela repulsa de outro, mendigos de compaixão sem esmola, reduzidos ao extremo de conformar-se deploravelmente com a solidão.

(continua...)

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