Por Raul Pompéia (1881)
- Cendi, disse ele, sem preâmbulos, em tom profético, os guerreiros juncaram o campo debatalha com os seus corpos, e os inimigos se hão de banquetear com eles. Taigaíba perecerá também; tu não podes pertencer-lhe.
- Cala-te! Cala-te, morcego! O sol entrou, e tu saís-te para desgraçar os guerreiros! Vai-te e deixa-me chorar!
- Não fales assim, Cendi!... não maltrates o eleito de Tupã, que é quem me anunciou estesmales.
- Tupã sabe que eu sofro... que eu morro...
- Tupã diz que o tapacurá de Cendi deve cair a meus pés.
Assim falando, na sua toada de profeta, o sacerdote das trevas agitava horrivelmente as asquerosas peles que o cobriam, achegava-se para a bela Cendi com um vagar que afetava de majestoso e era repugnante.
Cendi teve medo. Levantou-se. Correu.
O pajé era velho, mas forte. Correu para ela. Cendi mergulhou-se nas brenhas, gritando. O pajé perseguiu.
Escurecia já e naquela hora as corujas, adejando pausadamente, cortavam o ar à cata das avezinhas retardatárias.
Cendi, és avezinha, foge do pajé.
Cendi correu muito, muito; saltou arisca como uma veada todos os espinheiros que lhe fechavam o caminho, todos os regos que as enxurradas rasgavam fundos no seio da mata. O pajé saltara os espinheiros, saltara os valados. Quando Cendi parou cansada, aí estava o pajé. Horrível!
Cendi estava perdida.
- Cendi, Cendi, rosnou o pajé, ouve a voz de Tupã! Paraste cansada? É Tupã que te prende. Tupã diz que me pertence o tapacurá de Cendi...
A índia, que se agarrara a uma árvore para não cair, ergueu o punho para o céu e cortou a frase ao pajé.
- Tupã mente!
IV
- Vais hoje morrer. Teus lábios ofenderam a Tupã, como a folha de urtiga ofende a mão que atoca. Antes de pratear-se a noite com o luar que vai nascer, deve estar morta Cendi.
A selvagem respondeu:
- Cendi morre sem desabotoar as penas cândidas do seu tapacurá. Quem podia fazê-lo voou para as colinas azuis...
O pajé precipitou-se sobre a índia.
Cendi caiu de joelhos estorcendo-se nas mãos do padre de Tupã; e este, fazendo movimentos vagarosos, cadenciados, lutava tranqüilamente com a resistência de Cendi.
Nas tranças do arvoredo, denegridas pela noite, gritava um passarinho, debatendo-se por certo nas garras de uma coruja.
V
Era treva compacta.
- Cendi, Cendi, onde estás?...
Um índio rebentava a rede espessa de cipós que amarravam uns aos outros os troncos da mata virgem.
- Cendi, Cendi! chamava.
Toda a floresta fazia um amontoado tenebroso. Um grito de doido desespero respondeu ao índio; partiu de lá como se aquelas negruras tivessem voz e falassem.
VI
Nasceu a lua.
Alguns raios começam a furar a folhagem como se a lua quisesse afastar com a mão os raminhos e espiar.
No lugar em que Cendi parara estavam agora o pajé e um guerreiro. Hirtos, cada um ao seu lado da clareira.
- Foi a vontade de Tupã, vociferava o primeiro. Cendi ofendeu a Tupã.
- Embusteiro cala-te! bradou o outro.
- Enganas-te, filho das selvas, eu digo a verdade!
- Não dizes! rugiu o guerreiro.
- Ofendeste também a majestade dos trovões... Prostra-te, Taigaíba!
O guerreiro apertava entre os dedos um pedaço de flecha e sacudia o cocar empenado, prestes a lançar-se sobre o sacerdote do seu culto.
O pajé sorria e a cara parecia-se-lhe com as escâncaras de um inferno medonho.
- Escuta, pajé, disse o índio a modo de sentença, eu suspeitava de ti; as tuas infames sugestões arrastaram os guerreiros ao campo do combate. Eu não acreditei. Ocultei-me. Fiquei. És sábio e não o percebeste; és adivinho e não me descobriste. Pois aqui estou, pajé... Treme, treme, porque o vento não soprará muito por estas balsas antes que estejas por terra!
O pajé ria-se, escancarando as feições diabólicas, remexendo-se as horrendas peles que o adornavam.
O guerreiro, altivo e iroso, media-o desde a pedra encravada no lábio até o grande artelho muito separado...
Avançava. Atirou-se, enfim, ao pajé. Fê-lo dobrar-se para trás, e, quase sem luta, enterrou-lhe no peito o ferro que empunhava.
O pajé repetiu:
- Tupã! Tupã!
E as árvores, ciciando, ficaram a murmurar:
- Tupã... Tupã...
Zombavam do profeta maldito. O guerreiro garganteava, como estertorando:
- Morre e vai-te, pajé!
E o cadáver do pajé foi estatelar-se no chão.
O índio feroz alçou então o braço armado, arrogante. Da ponta do dardo pingaram gotas de sangue sobre o corpo do pajé.
VII
O guerreiro fitava os céus por entre o enredado das folhas. Os olhos fulgurando encaravam duas estrelas que luziam por cima da mata. Dir-se-ia que esperava...
- Aparece, Tupã, que eu quero atravessar-te!...
Este brado varou através dos bosques e foi achoar longínquo.
O arvoredo, ciciando, ficou a repetir: - Atravessar-te!...
As folhas não zombavam já. Tiritavam apavoradas.
O selvagem fitou os céus... Tupã não veio...
- Estás vingada, Cendi!
O passarinho, que piava nas garras da coruja, não se ouvia mais...
O luar passava rasteirinho pela relva e lambia o corpo de Cendi morta... Esse clarão suave enleava-lhe o lindo cadáver num sudário de azul. Os cintos de pureza jaziam desbotoados, perto do corpo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.