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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

- Cendi, disse ele, sem preâmbulos, em tom profético, os guerreiros juncaram o campo debatalha com os seus corpos, e os inimigos se hão de banquetear com eles. Taigaíba perecerá também; tu não podes pertencer-lhe.

- Cala-te! Cala-te, morcego! O sol entrou, e tu saís-te para desgraçar os guerreiros! Vai-te e deixa-me chorar!

- Não fales assim, Cendi!... não maltrates o eleito de Tupã, que é quem me anunciou estesmales.

- Tupã sabe que eu sofro... que eu morro...

- Tupã diz que o tapacurá de Cendi deve cair a meus pés.

Assim falando, na sua toada de profeta, o sacerdote das trevas agitava horrivelmente as asquerosas peles que o cobriam, achegava-se para a bela Cendi com um vagar que afetava de majestoso e era repugnante.

Cendi teve medo. Levantou-se. Correu.

O pajé era velho, mas forte. Correu para ela. Cendi mergulhou-se nas brenhas, gritando. O pajé perseguiu.

Escurecia já e naquela hora as corujas, adejando pausadamente, cortavam o ar à cata das avezinhas retardatárias.

Cendi, és avezinha, foge do pajé.

Cendi correu muito, muito; saltou arisca como uma veada todos os espinheiros que lhe fechavam o caminho, todos os regos que as enxurradas rasgavam fundos no seio da mata. O pajé saltara os espinheiros, saltara os valados. Quando Cendi parou cansada, aí estava o pajé. Horrível!

Cendi estava perdida.

- Cendi, Cendi, rosnou o pajé, ouve a voz de Tupã! Paraste cansada? É Tupã que te prende. Tupã diz que me pertence o tapacurá de Cendi...

A índia, que se agarrara a uma árvore para não cair, ergueu o punho para o céu e cortou a frase ao pajé.

- Tupã mente!

IV

- Vais hoje morrer. Teus lábios ofenderam a Tupã, como a folha de urtiga ofende a mão que atoca. Antes de pratear-se a noite com o luar que vai nascer, deve estar morta Cendi.

A selvagem respondeu:

- Cendi morre sem desabotoar as penas cândidas do seu tapacurá. Quem podia fazê-lo voou para as colinas azuis...

O pajé precipitou-se sobre a índia.

Cendi caiu de joelhos estorcendo-se nas mãos do padre de Tupã; e este, fazendo movimentos vagarosos, cadenciados, lutava tranqüilamente com a resistência de Cendi.

Nas tranças do arvoredo, denegridas pela noite, gritava um passarinho, debatendo-se por certo nas garras de uma coruja.

V

Era treva compacta.

- Cendi, Cendi, onde estás?...

Um índio rebentava a rede espessa de cipós que amarravam uns aos outros os troncos da mata virgem.

- Cendi, Cendi! chamava.

Toda a floresta fazia um amontoado tenebroso. Um grito de doido desespero respondeu ao índio; partiu de lá como se aquelas negruras tivessem voz e falassem.

VI

Nasceu a lua.

Alguns raios começam a furar a folhagem como se a lua quisesse afastar com a mão os raminhos e espiar.

No lugar em que Cendi parara estavam agora o pajé e um guerreiro. Hirtos, cada um ao seu lado da clareira.

- Foi a vontade de Tupã, vociferava o primeiro. Cendi ofendeu a Tupã.

- Embusteiro cala-te! bradou o outro.

- Enganas-te, filho das selvas, eu digo a verdade!

- Não dizes! rugiu o guerreiro.

- Ofendeste também a majestade dos trovões... Prostra-te, Taigaíba!

O guerreiro apertava entre os dedos um pedaço de flecha e sacudia o cocar empenado, prestes a lançar-se sobre o sacerdote do seu culto.

O pajé sorria e a cara parecia-se-lhe com as escâncaras de um inferno medonho.

- Escuta, pajé, disse o índio a modo de sentença, eu suspeitava de ti; as tuas infames sugestões arrastaram os guerreiros ao campo do combate. Eu não acreditei. Ocultei-me. Fiquei. És sábio e não o percebeste; és adivinho e não me descobriste. Pois aqui estou, pajé... Treme, treme, porque o vento não soprará muito por estas balsas antes que estejas por terra!

O pajé ria-se, escancarando as feições diabólicas, remexendo-se as horrendas peles que o adornavam.

O guerreiro, altivo e iroso, media-o desde a pedra encravada no lábio até o grande artelho muito separado...

Avançava. Atirou-se, enfim, ao pajé. Fê-lo dobrar-se para trás, e, quase sem luta, enterrou-lhe no peito o ferro que empunhava.

O pajé repetiu:

- Tupã! Tupã!

E as árvores, ciciando, ficaram a murmurar:

- Tupã... Tupã...

Zombavam do profeta maldito. O guerreiro garganteava, como estertorando:

- Morre e vai-te, pajé!

E o cadáver do pajé foi estatelar-se no chão.

O índio feroz alçou então o braço armado, arrogante. Da ponta do dardo pingaram gotas de sangue sobre o corpo do pajé.

VII

O guerreiro fitava os céus por entre o enredado das folhas. Os olhos fulgurando encaravam duas estrelas que luziam por cima da mata. Dir-se-ia que esperava...

- Aparece, Tupã, que eu quero atravessar-te!...

Este brado varou através dos bosques e foi achoar longínquo.

O arvoredo, ciciando, ficou a repetir: - Atravessar-te!...

As folhas não zombavam já. Tiritavam apavoradas.

O selvagem fitou os céus... Tupã não veio...

- Estás vingada, Cendi!

O passarinho, que piava nas garras da coruja, não se ouvia mais...

O luar passava rasteirinho pela relva e lambia o corpo de Cendi morta... Esse clarão suave enleava-lhe o lindo cadáver num sudário de azul. Os cintos de pureza jaziam desbotoados, perto do corpo.

(continua...)

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