Por Lima Barreto (1909)
— Vocês não imaginam... As coisas estão feias! Estive na Gamboa e na Saúde... Os estivadores dizem que não se calçam nem a ponta de espada. Não falam noutra coisa. Vi um carroceiro dizer para outro que lhe ia na frente guiando pachorrentamente: Olá hé! Estás bom para andares calçado que nem um doutor! Por aí vocês avaliam... Creio que há “turumbamba”!
— Agora, aqui para nós, aduzia Floc, a coisa é necessária... Causa má impressão ver essa gente descalça... Isso só nos países atrasados! Eu nunca vi isso na Europa...
— Ora, deixa-te disso, Floc! observou Gregoróvitch que entrara. No Norte, é justo, o clima, o gelo; mas no Sul, em Nápoles, na Grécia, vê-se muito...
— Isso não é Europa.
— Engraçado! Com que liberdade modificas a geografia... E em Londres?
— Que tem Londres?
— Que tem! Não há cidade do mundo em que a multidão seja mais andrajosa, mais repugnante...
— Andam de casaco e sapatos! gritou triunfantemente Floc.
— Que casaco! Que sapatos! Naturalmente que hão de procurar coberturas para o frio, mas onde vão buscá-las? Ao lixo e é um disparate! Se queres uma multidão catita, arranja meios de serem todos remediados. Vocês querem fazer disto um Paris em que se chegue sem gastar a importância da passagem ao mesmo tempo ganhando dinheiro, e esquecem de que o deserto cerca a cidade, não há lavoura, não há trabalho enfim...
Quase todos previam um motim; julgavam-no certo pelas observações que tinham feito.
O doutor Ricardo entrou seguido de Aires d'Ávila. O diretor vinha satisfeito. Cumprimentou sorrindo e foi ao gabinete escrever. Aires d'Ávila fez algumas considerações sobre o projeto e pediu ao Floc noticias de uma cantora nova. Loberant, por esse tempo, gritou:
— Isaías, vem cá! Leva-me esta carta ao Senador F. Olha, recomendou-me ao sair, entrega em mão dele, estás ouvindo!
No momento em que começava a descer a escada ouvi que dizia alto:
— Esses f... hão de ver se valho ou não valho alguma coisa! Súcia!
Embaixo o gerente, em colete, sentado diante da grande mesa, contava harpagonescamente uma chusma de níqueis que ia dividindo em colunas, alinhando-as depois para o lado esquerdo à proporção que contava.
O mês de maio tinha começado naquele ano com particular doçura. Eu que já tinha mais de dois anos de Rio de Janeiro, nunca o vi tão formoso, tão primaveril e nunca assisti a manhãs tão lindas e azuis. Fazia uma temperatura carinhosa e eu olhava as nuvens, as montanhas e as árvores sob uma luz aveludada. A terra era todo um estojo macio e tépido, feita especialmente para viver do nosso corpo. Os boatos da redação e a tempestade que eu mesmo sentia preparar-se, em nada diminuíam a minha sensação de bem-estar físico. Aquele começo de mês foi para mim de grande sossego e de muito egoísmo. Embora minha mãe tivesse afinal morrido havia alguns meses, eu não tinha sentido senão uma leve e ligeira dor. Depois de empregado no jornal, pouco lhe escrevi. Sabia-a muito doente, arrastando a vida com esforço. Não me preocupava... Os ditos de Floc, as pilhérias de Losque, as sentenças do sábio Oliveira, tinham feito chegar a mim uma espécie de vergonha pelo meu nascimento, e esse vexame me veio diminuir em muito a amizade e a ternura com que sempre envolvi a sua lembrança. Sentia-me separado dela. Conquanto não concordasse em ser ela a espécie de besta de carga e máquina de prazer que as sentenças daqueles idiotas a abrangiam no seu pensamento de lorpas, entretanto eu, seu filho, julgava-me a meus próprios olhos muito diverso dela, saído de outra estirpe, de outro sangue e de outra carne. Ainda não tinham coordenado todos os elementos que mais tarde vieram encher-me de profundo desgosto e a minha inteligência e a minha sensibilidade não tinham ainda organizado bem e disposto convenientemente o grande stock de observações e de emoções que eu vinha fazendo e sentindo dia a dia. Vinham uma a uma, invadindo-me a personalidade insidiosamente para saturar-me mais tarde até ao aborrecimento e ao desgosto de viver. Vivia, então, satisfeito, gozando a temperatura, com almoço e jantar, ignobilmente esquecido do que sonhara e desejara. Houve mesmo um dia em que quis avaliar ainda o que sabia. Tentei repetir a lista dos Césares — não sabia; quis resolver um problema de regra de três composta, não sabia; tentei escrever a fórmula da área da esfera, não sabia. E notei essa ruína dos meus primeiros estudos cheio de indiferença, sem desgosto, lembrando-me daquilo tudo como impressões de uma festa a que fora e a que não devia voltar mais. Nada me afastava da delícia de almoçar e jantar por sessenta mil-réis mensais.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.