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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

Uma mulher percorria vagarosamente o jardim em passos sutis, sacudindo o leque. Olhou-a; os olhares encontraram-se. Era alta, robusta, loura, dum louro claro e quente que fulgurava. Esteve para chamá-la, oferecer-lhe qualquer coisa, tomarlhe a noite. Mas a mulher passou, indolente, deixando na ar a toada suavíssima dum doce canto, uma canção do seu país, talvez.

Não se resolvia, indeciso, hesitando entre recolher-se a casa e ficar na cidade, pernoitando em companhia duma daquelas andejas que enxameavam o jardim, imiscuindo-se nos grupos, sentindo o fim da noite vazia.

Passavam rindo, chalrando, d'olhos aguçados, à caça de homens, procurando ajoujar-se a qualquer; umas, desenxabidas, desanimadas, outras trêfegas, de uma alegria canalha, empurrando-se, travando dos braços dos rapazes, fazendo voltas de dança ao estridor clangoroso das metais da banda, encostando-se às mesas, reclamando bebidas, propondo ceias, ou evitando, às rabanadas, os beliscões lúbricos da rapazio.

Paulo fugiu à multidão e seguiu, ruminando idéias extravagantes, incerto da seu destino naquela noite. Achou-se, com surpresa, parado junto à escada, a olhar para a varanda. Teve um movimento de repulsa, raspando a asfalto com a guardachuva. "Agora espero. Quero vê-la sair. Hei de ver quem é a sujeita."

Passou-lhe pela mente a figura da Junqueira; depois desenhou-se a do Messias, d'olhos finos, em dois talhos, as pés enormes, esparrimados. Ele falara dum compromisso no Recreio, uma pessoa que a esperava. Não, não podia ser... — Então, encolhendo as ombros com indiferença, afastou-se, em andar vagaroso, medindo os passos. "Ora!" Achando-se na aléia da entrada, em súbita resolução apressou o andar e saiu.

À porta cambistas cercaram-no, pedindo a senha. Carros reluziam estacionados na rua escura; doceiros apregoavam e, na taverna da esquina, um ror de homens cercava o balcão, bebendo em estridente algazarra.

Foi-se, rua abaixa. "Ora! que se arranje!" Deteve-se surpreendido, olhando uma aguazinha que rebrilhava entre as pedras da rua.

"Só, hein?! Sozinha pela Prata... é coragem! E nós aqui, como idiotas, perdendo tempo, amofinando-nos. Eu bem dizia. E mamãe a orar..." Serenou, porém, a um pensamento iníquo e a frase que o exprimia saiu-lhe da boca docemente, regozadamente: "Mas está bonita!..." Foi-se.

À porta da Maison Moderne sorriu descobrindo Messias e Junqueira, muito juntos, encapotados. Saudou-os e entrou.

À luz intensa da sala teve um deslumbramento, e, abancando a uma das mesas mais discretas, sacou do bolso um maço de notas, escolheu uma de cem e esperou a caixeiro. "Água de Seltz..." Recebendo o troco, separou uns miúdos para o tílburi. "Até que enfim!" exclamou pondo-se de pé e, acendendo um cigarro, caminhou vagarosamente a porta.

A noite desanuviara-se. A lua, num recorte esguio, luzia no céu ponteado de estrelas.

— Vamos ter amanhã um dia magnífico! — disse alguém tocando-lhe no ombro; voltou-se e viu Narciso todo atrapalhado com um embrulho e o capote.

— Oh!... boa noite. É verdade.

— Esteve na Recreio?

— Um instante.

— Um casão, com certeza?

— À cunha! — Pudera!

Já à porta, perguntou risonho:

— E os versos do Aurélio... Que tais? Não foram distribuídos?

— Sim, espalharam uns versos; um soneto, creio... Mas a assinatura é doutro.

— História! São da Aurélio. Fê-los ontem, depois da jantar, a pedido do Messias. Um tipo! Bem, boa noite.

Paulo não conteve o riso, lembrando-se da revolta do poeta. Ficou um momento à porta olhando o céu. Súbito meteu-se num tílburi, que estacionava junto ao passeio e mandou tocar para a Lapa.

Uma densa multidão esgorjou da Rua do Espírito Santo espraiando-se no largo — era a gente que saía do Recreio. O cocheiro teve de suster o animal para deixar passar o povo e Paulo, olhando a turba que se espalhava, com uma pressa de fuga, via apenas um vulto que se afastava subindo da terra, ganhando o espaço em leve ascensão, como um anjo que remontasse serenamente.

Com o arranco do animal que partia foi de encontro ao fundo do tílburi. O cocheiro resmungou contra a "súcia". Ele conservou-se calado, imóvel, a rever a visão, que era ela, Violante, cujo perfume o cercava como se todo o ar estivesse impregnado. Dilatou-se-lhe o peito e um suspiro saiu-lhe, largo e vagaroso: "Mas como está bonita!" E sorriu deliciado recostando-se abandonadamente.

CAPÍTULO XVI

Toda a noite, noite imensa e morosa, rebolcando-se na cama a esmagar os travesseiros ou espichado, a olhar o teto, à luz trêmula da vela, fumando seguidos cigarros, Paulo pensou em Violante com simpatia. Afinal, que podia ela esperar?

Pobre, casando não passaria da vida insípida que levam todas as mulheres, na monotonia enfadonha dos afazeres domésticos, mal-amanhada, envelhecendo, mortificando-se no trabalho insano, arrastando a fecundidade penosa, sempre rodeada de filhos, talvez brutalizada pelo marido, sofrendo privações entre as quatro paredes duma casa.

Assim, não — era livre, tinha todo o gozo, podia saciar-se à larga, sem preocupar-se com a sociedade com a qual rompera abertamente.

(continua...)

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