Por Coelho Neto (1890)
Ora, Luiz... ia a dizer o Neiva, contrariando o poeta; ele, porém, atirou um murro à mesa e, erguendo-se, com os bigodes arrepiados, os olhos fuzilantes, bufou:
— Pego em armas e em você também, pelo cós das calças, está ouvindo? Em você mesmo!
Ruy Vaz interveio:
— Que é isto? Já vocês começam.
O Neiva levantou-se, distribuiu apertos de mão:
— Boa noite... boa noite. E encaminhou-se para a porta.
— Pois não! Este senhor entende que há de sempre impor a sua opinião. Onde ele está ninguém mais fala. Pego em armas! Que tem ele com isso? E se me aparecer pela frente, quando estiver defendendo os direitos do Homem, prego-lhe uma bala no fígado.
— Mas Luiz...
— No fígado, já disse. Em política e em Arte sou intransigente. Mas o Neiva voltou:
— Se não estivesse chovendo tanto eu mostrava. Sentou-se.
— Mostrava... mostrava o quê? Homem, você não me aborreça.
— Mas quê é isto, gente...
— Ó Luiz, pelo amor de Deus, deixa-me em paz.
— Pois é isto! Não me contrarie. Tome a sua cerveja muito quieto e deixeme cá com as minhas idéias. Eu sou pior que Cimourdain. Estendeu o braço sobre a mesa e, com uma voz cavernosa, disse: — Prestigio a lei! Mas esta gente não estuda. Fala-se em evolução e ficam todos embasbacados. Leiam Spencer.
Mas o Patrocínio conseguiu desviar a conversa para a literatura, e, à meia noite, tendo cessado a chuva, quando se levantaram, o Neiva, muito misterioso, de braço com o Moraes, oferecia-se para levantar uma barricada na rua do Ouvidor, esquina do largo de S. Francisco e o poeta respondia:
— E lá me hás de achar com as armas na mão.
— Correto! Então está feito?
— Está feito, por que não? E pôs-se a cuspinhar.
— Para a vida e para a morte!
— Para a vida e para a morte!
E despediram-se. Anselmo seguiu só para o hotel, pensando nas palavras de Bivar: "Não faça notícias, a notícia embota."
Uma lua sinistra rolava entre grossas nuvens e as goteiras pingavam lentamente.
CAPÍTULO XIV
Anselmo estreou na imprensa com um piedoso artigo sobre os velhos negros. Antes de o mandar para a tipografia quis ouvir a opinião do Patrocínio. O jornalista, às últimas frases do escrito patético, atirou-se ao escritor aos beijos, sagrando-o em presença do vesgo que redigia o noticiário, cujas notas um magro repórter ia cavar nas delegacias trazendo-as esparsas pela camisa, nos punhos, no peito porque, com a precipitação, nem tempo lhe sobrava para procurar papel. Anselmo esperou, com ânsia, o jornal e, quando o primeiro rolo apareceu no escritório, avançou, sôfrego, para o balcão, tomou uma folha e saiu triunfante indo para o Pascoal ler aos do grupo, os "períodos dourados".
Justamente nesse tempo a campanha abolicionista chegara à sua maior intensidade. À luz do sol, nas ruas, concitava-se à revolta. Para os lados da Gávea, em frente ao mar livre, no Leblon, havia um quilombo mantido pela Confederação Abolicionista e, no escritório da Gazeta da Tarde, que era o grande homizio de Chan, negros e negras, sentados melancolicamente, fumavam esperando que lhes dessem destino. Eram constantes os conciliábulos, falava-se em furtos de escravos; e gente de todas as castas prova os redatores denunciando crimes de escravagistas despeitados. A polícia punha em campo os seus esbirros mais sagazes mais atrevidos capoeiras para desfazerem as reuniões e interromperem as conferências espavorindo o povo.
Patrocínio, convidando outros chefes da propaganda, resolveu um grande comício no Politeama, à noite. Todos os jornais abolicionistas anunciaram e, no dia aprazado, à tarde, um homem misterioso apareceu na redação para prevenir o intrépido jornalista: "que uma grande malta estava assalariada para invadir o teatro no momento em que o primeiro orador aparecesse na tribuna".
Patrocínio transmitiu o aviso aos companheiros e à noite, com estandartes, seguiram todas as sociedades abolicionistas para rua do Lavradio.
O imenso barracão regurgitava quando assomou à tribuna Quintino Bocaiúva, calmo, dirigindo-se ao povo em frase sóbria e ponderada. Repentinamente, porém, uma grita, à porta, alvoroçou o auditório. Eram os capoeiras comandados por Benjamin.
Aos gritos da malta respondeu o povo com assuada tremenda. Anselmo estava em um dos camarotes da entrada e, num ímpeto, tomou uma cadeira arremessando-a no meio da farândola. Foi o sinal da luta. O povo avançou em coluna e começou o combate.
Navalhas reluziam, tiros estrondavam, cadeiras entrebatiam-se, partindo-se no ar, violentamente arremessadas. Em pouco os destroços formaram alta barricada por trás da qual o povo continuava a defender-se heroicamente. Anselmo, já rouco, bradava contra a infâmia. De repente, empunhando um pé de cadeira, atirou-se arrojadamente do camarote caindo no meio do grupo a desancar, apouco. Vários populares seguiram-lhe o exemplo temerário e, na estreita passagem, travou-se uma luta tremenda sendo os capoeiras repelidos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.