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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

Vi-o, magro, anguloso, feio, olhando com ferocidade continua, não se sabia felizmente para quem, porque era estrábico. Por ele começou o meu improvisado informante, e conhecendo que eu andava atrasado a respeito, não me deixou mais: “Se tem empenho, fura; se não tem, babau. Bancas de peixe! O peixe é caro às vezes, mas é sempre peixe de mercado. Olhe o Meireles da filosofia, aquele compridão de barba russa; o empenho é a Ritinha Pernambucana da Rua dos Arcos; o Simas da mesa de geografia, um pançudo apelidado esfera terrestre, mimoseiem-no com um par de galos de briga... o Barros Andrade... comprem-lhe os pontos..., aquele diabo da retórica que me bombeou há dias... falem-lhe nos versos, que não há suíças mais amáveis. O seu diretor é que os compreende. Quando entra aqui é uma onça; o próprio teto branco empalidece; levantam-se, saúdam o soberano! Agora, há homens respeitáveis: o velho Moreira, o simpático Ramiro, de sorriso patriarcal...”

Do topo da escada gritaram para o saguão que ia principiar a chamada dos de português.

Quando subia, vi um movimento enorme de rapazes na rua: um rolo! Silvavam os apitos. Atracavam-se os estudantes com os carroceiros a sopapos de ida e volta, segundo o belo costume do tempo.

Prestavam-se os exames numa grande sala de muitas janelas, de velhos caixilhos em xadrez apertado, vidros grossos, antigos, mal fundidos, oferecendo espessuras desiguais e densidades verdes. Um parapeito de ferro em grade dividia o salão por dois lances; o mais espaçoso para os assistentes. No outro havia duas mesas de exame; a de matemáticas, perto da entrada, a de português, mais adiante, e tão chegadas que se fundiam as respostas de uma com as perguntas da outra, resultando admiráveis efeitos de aplicação das ciências exatas à filologia.

Antes da cerimônia palestrava-se, a meia voz. Um sujeito entrou, deixando cair a bengala. Olharam todos. “Não conhece?” indagou-me o oficioso companheiro.

Um sexagenário, encanecido e helicoidal, cara lambida de padre, cabelos brancos ondeando pelos ombros em bossa, sobrecasaca ilimitada riscando o chão a cada passo. “O Conselheiro Vilela, ou, melhor, o Conselheiro Tieitch, uma instituição! Vai presidir às matemáticas. Preside a tudo, conforme é preciso. Incorruptível! Catão e Bruto somados... Na banca de inglês, há uns anos, reprovava a todos... Como não?! dizia; se erram escandalosamente no tieitch! Muito depois, apanharam-no consultando o Tautphoeus: Que diabo, Barão, é este célebre tieitch em que tanto se erra?...”

Quando no dia do jantar subi para o dormitório com o Egbert, dançava-me no espírito, reduzida a miniatura, a imagem de Ema (era agradável suprimir o D.), pequenina como uma abelha de ouro, vibrante e incerta.

Sonhei: ela sentada na cama, eu no verniz do chão, de joelhos. Mostrava-me a mão, recortada em paro jaspe, unhas de rosa, como pétalas incrustadas. Eu fazia esforços para colher a mão e beijar, a mão fugia; chegava-se um pouco, escapava para mais alto; baixava de novo, fugia mais longe ainda, para o teto, para o céu, e eu a via inatingível na altura, clara, aberta como um astro.

Ela ria do meu desespero, mostrava-me o pé descalço, que a calçasse; não permitia mais. Calçar-lhe apenas o arminho que ali estava, o pequeno sapato, branco, exânime, voltando a sola, sem o conforto cálido do pé que o pisava, que o vivificava. Eu me inclinava, invejoso do arminho, sobre o crivo de seda da meia, milagre de indústria para o qual concorrera cada dia do século industrial com um esforço, tecido impalpável, de fibras vivas, filtrando a transparência branda do sangue, invólucro sutil de um mimo de joelho, de perna, de tornozelo, irremediavelmente desfalcado do espólio glorioso da estatuária pagã. Calçá-la apenas! Mas eu a fazia torcer-se, calçando-a, de dores numa tortura ardente de beijos, exalando eu próprio a alma toda em chama.

Que outra criatura eu era ao despertar! A aparição encantadora extinta; mas eu sofria da reação de trevas que sucede aos deslumbramentos.

Continuava cordialmente com o Egbert. Parecia-me, entretanto, a sua amizade agora uma coisa insuficiente como se houvesse em mim uma selvageria amordaçada de afetos.

Egbert parecia às vezes um intruso. Passeando com ele, que diferença de outrora! produzia-me o efeito de uma terceira pessoa. Eu preferia andar só.

Não sei por que conveniência de acomodação, fui transferido para o dormitório dos maiores. Esta mudança distanciava-me ainda mais do Egbert; passamos a nos encontrar somente à tarde, no campo.

Depois das aulas, subia para o dormitório, aproveitando-me do relaxamento da policia do salão.

O inspetor responsável era o Silvino. Receoso de uma represália dos grandes, o prudente bedel deixava andar.

(continua...)

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