Por Raul Pompéia (1881)
- Nada! Eu agradeço penetrado de reconhecimento... Eu o admiro; mas tudo é inútil. Não possoacompanhá-lo.
- Pois bem!... Escolha... Prefere que eu recorra ao governador da província. Revelarei tudo...Viremos arrancá-lo pelas armas à desumanidade de seu filho!
- Oh! não abuse jamais da minha revelação! Deixe-me morrer aqui...
E repentinamente, disforme, agitado, com uma voz medonha, concluiu:
- Saiba... Sou um monstro indigno da luz do dia! Há um crime, um crime que devo expiar... um crime infame... horroroso... Veja o chão... Está vendo essas pedras... têm manchas de sangue... as paredes também... Sangue por toda parte!...
Este sangue... é o sangue de meu pai... Eu o assassinei... Queria também como Vildac!!!... Ah! estou a vê-lo... ali! ali! Estende-me as mãos, os braços em sangue... Quer deter-me a fúria... Cai na pedra! Oh! visão horrível! Oh! desespero!...
O velho preso arremessou-se às lájeas, tirando punhados de cabelos brancos, contorcendo-se em convulsões de cólica, sacudindo o rumor tilintante dos elos. Não ousava mais encarar-me...
O terror aniquilou-me.
- Está agora horrorizado, disse o pai de Vildac, de pé, olhando-me atravessado. Adeus!...
E, com uma calma fantástica:
- Fuja de mim! Eu torno a subir para a torre...
Quando mais sereno busquei combinar as idéias e verificar se me iludira uma alucinação, o velho tinha desaparecido.
Ouvi ainda, mas quase imperceptível, na abóbada, o último rumor das correntes.
Clareavam-se as vidraças com a polidez azul das madrugadas de inverno.
Eu fugi do castelo, levando para toda a vida o espanto desta aventura sem nome.
Raul Pompéia
O TAPACURÁ DE CENDI
(Fantasia Trágica)
I
A horda inteira embrenhou-se no espesso dos matagais... Se dava a aragem, a ramaria, abrindo-se, entremostrava, na meia escuridade do coração da mata os corpos nus dos guerreiros, sarapintados de rubras listas de urucu; mais adiante, se uma clareira rasgava o pano de verdura florestal, surgiam cabeceando os selvagens...
O sol cadente lançava-lhe frechas de luz aos feixes, como o velho combatente que não quer descansar no fundo da igaçaba antes de ter esvaziado o carcás. A multidão respondia, agitando alegremente os braços; saudavam em despedida o astro com as canções de guerra; e os hinos misturavam-se de um modo incrível aos derradeiros fogos do dia. O rumor crepitante dos maracás fazia crer que a tribo, em marcha, caminhava ardendo como serpente de fogo.
Depois, tudo se apagava e a vozeria e o chocalhar dos maracás arrefecia um pouco, somava-se com o uníssono vasto e rumoroso da natureza; por fim, na última colina, viam-se rutilar as penas vivamente coloridas dos cocares e das túnicas... E o sol a inundar balsedos e balsedas, sem mais ferir um guerreiro.
A horda andava já para além.
Ouviam-se ainda os sons do maracá, mas como sopros interrompidos que iam falar nas quebradas o adeus àquelas cabanas da aldeia que muitos não tornariam a ver.
II
Cendi ficou chorando...
No cimo de um penhasco, olhava. Todos tinham sumido e ela ficara no mesmo posto.
O vento levantava-lhe os longos cabelos e passava por eles como pela rama franjada da palmeira; o sol riscava-lhe o contorno esplêndido das formas com friso de ouro. O que esperas. Cendi? Louca, eles se foram. Para aquelas bandas vês somente a serra azul... azul. Eles se foram.
E a pobre Cendi desceu da pedra, chorando cada vez mais.
Os espíritos malignos gritavam-lhe aos ouvidos que ela perdera para sempre o seu dileto, o seu noivo.
Rompendo a brenha, ela partia os galhinhos secos e os galhos estalavam como a risada escarninha dos anhangás. Um presságio pesava-lhe no coração, e, com aquele sol que ia a deitar-se, fugir-lhe-ia a última energia para sofrer. A índia deixou-se cair abatida, derreada num velho madeiro que desabara com a última tempestade. Queria meditar; a cabeça pendeu-lhe, a vista foi-lhe pousar na epiderme macia e amorenada dos joelhos. Em torno desses joelhos, como em coroa, circulavam cintos primorosos de penas de guará brancas e róseas.
Dos grandes olhos negros da índia escorriam lágrimas que lhe molhavam os seios e gotejavam depois como o orvalho pelas extremidades dos limões. Cendi fitava aquelas penas, as penas do tapacurá.
- Tapacurá da minha virgindade, soluçou ela, morrerei contigo.
III
Eram ditas estas palavras quando ouviu-se um barulho estranho.
Não fora o trinar da passarinhada, pressentindo a noite, não fora o urro ameaçador da onça, não fora o guizo das cascavéis.
Cendi o conhecia.
- A voz do pajé!! murmurou estremecendo.
Em seguida acrescentou tristemente.
- Venha, venha esse mensageiro de desgraças e anuncie a minha viagem para a morada dosheróis!... Cendi há de ver-te querido Taigaíba! há de ver-te.
Vinha bem próxima a noite. Apenas uma poeira luminosa polvilhava o ocidente. O sol desaparecera. O pajé, mastigando rezas e evocações sinistras, abandonou o antro.
Cendi o viu apresentar-se horripilante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.