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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Doutor, defenda-se por escrito. Publique no meu relatório, a sair, as linhas gerais do seu plano, mas não divulgue o seu segredo para que não nos furtem a glória. Depois de ter feito isso, a fim de deixar o agudo do momento político, vá viajar pelo Brasil em comissão que lhe encarregarei.

Bogoloff obedeceu à recomendação do seu ministro e apresentou sem demora a defesa escrita dos seus aperfeiçoados projetos zootécnicos. Xandu publicou-o e a ciência nacional respeitou o valor do russo e teve como certos os seus propósitos.

Ficou Bogoloff encarregado de visitar os Estados, de estudar-lhes a pecuária; e de ver se em algum deles já não se procedia espontaneamente conforme as idéias técnicas do diretor.

Como não tivesse Bogoloff predileção por este ou aquele Estado, pôs dentro da copa do chapéu vinte pedaços de papel com o nome deles e mandou que um dos seus contínuos tirasse um dos tais pedaços. Caiu-lhe por sorte justamente o Estado das Palmeiras, para onde partiu em breve.

Esse Estado, como se sabe, não é dos maiores do Brasil, nem dos menores; é dos médios. Tem uma população de cerca de um milhão de habitantes e uma lavoura de cana de açúcar que se arrasta através de dolorosas crises como a indústria de que ela é base.

A sua capital, a cidade de Tatui, tem uns cinqüenta mil habitantes e é uma desgraciosa cidade de casas baixas, quase sem calçamento, sem esgotos e com uma péssima iluminação pública.

Espanta logo a quem chega, com a quantidade de mendigos e pobres que possui, além da grande porção de gente que exerce ofícios miseráveis, como baleiros, carregadores, vendedores de água, pois não a há encanada.

Possui uma linha de bondes preguiçosos, servida por um único veículo, que só parte dos pontos quando está a meio de passageiros.

Quando o viajante se afasta da zona urbana, o espetáculo é mais miserável ainda. Só há palhoças de sapé, cercadas de pobres roças desanimadas; pelos caminhos encontram-se mulheres públicas meio rotas. carregando as esteiras em que realizam os seus tristes amores.

Pelo tempo que Bogoloff partiu, construía-se um teatro majestoso, num estilo compósito e abracadabrante.

Palmeiras já estava “salvo” pois tinha à sua frente o coronel Contreiras, filho do venerando José Maria. Essa sua filiação foi um dos grandes títulos eleitorais; e ninguém mais se lembrava desse homem, de sorte que na rua perguntavam:

— Quem é esse Contreiras?

— É filho do venerando Zé Maria.

— Quem é esse Zé Maria? — Não me lembro bem.

Não se atemorizou Bogoloff em visitar o Estado governado por estadista tão conhecido. Partiu o russo para aquela parte do Brasil, a bordo de um vapor do Lloyd, em fins de ano. De há muito o governo queria “salvar” essa companhia e o remédio já tinha sido achado por Xandu — o seu presidente era um general.

O paquete estava com a partida marcada para 26 de dezembro; como o governo, porém, queria número na Câmara e temia que muitos deputados fugissem nele para os Estados, adiou-a para o dia 30. Bogoloff embarcou ao meio-dia, pois os anúncios diziam que o navio levantava ferros às quatro horas.

Havia congressistas passageiros e, tendo as sessões da Câmara se prolongado até tarde, o vapor só deixou as amarras às nove horas da noite.

Foi, portanto, vendo a cidade iluminada, a se mirar nas águas negras da baia, que o russo atravessou a barra em demanda ao Estado das Palmeiras.

Navegava num mar calmo sob um céu negro em que as estrelas faiscavam como diamantes nas trevas.

A linha da costa era de longe em longe marcada por fracas luzernas à altura das águas. As águas estavam negras e o mar tinha de noite menos atração e aparentava mais segurança. A luz manifestava toda a sua fascinação e esclarece os perigos e as suas perfídias.

De quando em quando, o jorro luminoso do farol da Rasa cobria um instante o navio. Não havia quase fosforescência e as hélices escachoavam ritmicamente.

Bogoloff, no salão, travara conversa com um tenente que, com uma juvenil atitude de superioridade, não o amedrontava. O russo, habituado a tudo isso, vencera pouco a pouco as desdenhosas respostas do rapaz. Ao fim de algum tempo, ele mesmo perguntou:

— Para onde o senhor vai?

— Para Tatui.

— Vou também. Vou tratar de minha eleição a deputado.

Admirou-se o russo que aquele menino, simples tenente, já quisesse ser deputado e julgou-se obrigado a explicar.

— Vou em comissão do meu ministro.

— Conheço muito o seu ministro. O Xandu é muito operoso. Já mesmo fizlhe um elogio. Conhece Contreiras?

— Não.

— Dou-me muito com ele; é meu amigo.

— Grande político, não é?

— Grande! Fui eu mesmo quem lhe levantou a candidatura. Dei o tombo no Macieira. Contreiras, meu caro senhor, é um Marco Aurélio. Nunca aceitou gratificações de fornecedores.

(continua...)

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