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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Vai escrever crônicas...

— Não sei ainda.

— Não faça notícias; a notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, mas não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista: nem escriba nem camelote. Havemos de vencer, mas, para isto, é necessário que não façamos concessões. O redator não quer saber se temos ideais ou não: quer espremer. Quanto mais suco melhor. O prelo é a moenda e lá se vai o cérebro, aos bocados, para repasto do burguês imbecil e, no dia em que o grande industrial compreende que nada mais pode extrair do desgraçado que lhe caiu nas mãos sonhando com a glória literária, despede-o e lá vai o infeliz bagaço acabar esquecidamente, minado pela tuberculose.

Um homem de talento que se mete em jornais suicida-se. Já se vê que não me refiro aos agitadores da opinião, aos que fazem o fluxo e o refluxo das marés sociais, esses não têm outro campo senão o jornal. Os políticos que escrevem sobre a emoção efêmera do momento não devem fazer livros. O livro fica, o jornal passa e raramente deixa vestígio. O artigo do dia mata o artigo da véspera, a opinião de hoje prevalece, a de ontem morre, mas com o artista consciencioso, não. Demais, meu amigo, egoísmo antes de tudo: o jornal é o redator político, o mais... que vale? Ficase sempre à sombra, por mais que se faça. Não vale a pena. O trabalho de um ano no jornal não vale uma página requintada de um livro de Arte.

— Mas que se há de fazer?

— Escreva livros.

— Para quê, se não há quem os edite?

— Escreva contos, fantasias, crônicas.

— Não pagam. Fazem ainda grande favor quando os publicam.

— Pois, meu amigo, que me venham pedir versos ou prosa de graça. Quer saber? Os culpados da depreciação literária são os próprios literatos: Alencar vendia os seus romances ao Garnier por quatrocentos mil réis. Quantas edições tem O Guarani? Está ainda na primeira e é conhecido em todo o Brasil. O editor fez com o romance o milagre de Tiberíade: multiplicou-o. Se houvesse fiscalização a coisa seria outra.

Chegaram ao largo do Rocio justamente quando caíam as primeiras gotas grossas da chuva. O povo corria, metendo-se pelas casas. Tílburis passavam à disparada e a chuva ruflava, tocada pelo vento áspero, que atirava bátegas das lojas.

— Que tempo! — exclamou Bivar levantando a gola do casaco.

— Para onde vamos nós? Se fôssemos à Maison? Estamos encharcados. — Queres afrontar a rajada?

— Vamos.

— Então vamos.

Encolhidos, rente das casas, saltando sobre os jorros das gárgulas, foram apressadamente até a rua da Carioca e detiveram-se na esquina, indecisos, sem ânimo de atravessar a rua. Já pelas sarjetas rolavam córregos grugrulhando nos ralos dos escoadouros. Relâmpagos flamejavam e os trovões, mais próximos, reboavam num canhoneio incessante.

— Um! Dois!... E Bivar atirou-se, a grandes pernadas, atravessando a rua seguido de Anselmo.

A Maison transbordava. Os dois, escorrendo, relanceavam olhares pesquisadores quando ouviram um "psiu" e logo descobriram Patrocínio, num grupo, a uma das mesas do centro.

— Eh! Cheguem-se ao Ararat.

— Ora! Apanhamos esta carga de água nas costas.

Eram do grupo o Lins, o Neiva, Ruy Vaz, o Duarte e um rapaz alto e claro, de olhos miúdos e espessos bigodes negros, muito reluzentes; largo feltro desabado escondia-lhe a fronte.

— Conhecem o Luiz Moraes? O grande poeta republicano? Anselmo Ribas, Octavio Bivar.

O poeta dos grandes bigodes entendeu a mão aos rapazes e resmungou uma amabilidade. Sentaram-se. Os caixeiros substituíam os copos e as garrafas. Patrocínio estava com a palavra.

— Falávamos do jornal...

— Novos planos?

— Novos e verdadeiros. Dizia eu que se pudesse contar com todos vocês faria o primeiro jornal da América do Sul. Com dois anos de trabalho estávamos todos ricos, fretávamos um vapor e partíamos para a Europa.

— E a abolição, José?

— A abolição está feita. E questão para mais uns meses.

— Pois sim!

— Pois sim? Mas que há de fazer o governo constrangido, como está, pela opinião pública? O Norte já se manifestou e o Sul há de acompanhá-lo. Demais, meu amigo, o escravo já não é um submisso, é um revoltado. Nas fazendas cada negro é um combatente e o êxodo aí vem. Quando começar o abandono da terra, não um a um, mas aos bandos, ostensivamente, em face dos senhores que não hão de querer jogar a vida, que há de fazer o governo? Mandar contra os que defendem um direito sagrado a tropa armada? Não! E ainda que mande: conheço o exército, sei que nenhum soldado se prestará a exercer o ofício miserável de capitão-domato. A abolição é uma questão vencida.

— Deus queira!

— Depois da abolição a república, rosnou Moraes.

— A república! — exclamou o Lins, assombrado.

— E por que não? A república, sim! — afirmou o poeta assomado. Quer você que continuemos com um rei de burla e com uma freira melomaníaca? Está enganado. Pego em armas, se for preciso.

(continua...)

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