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#Romances#Literatura Brasileira

O Ateneu

Por Raul Pompéia (1888)

De repente abre-se uma porta. De dentro, do escuro, saia uma voz, uma lista de nomes: um, outro, outro... ainda não era o meu... Afinal! Não houve nem tempo para um desmaio. Empurraram-me; a porta fechou-se; sem consciência dos passos, achei-me numa sala grande, silente, sombria, de teto baixo, de vigas pintadas, que fazia dobrar-se a cabeça instintivamente. Uma parede vidraçada em toda a altura, de vidros opacos de fumaça, cor de pergaminho, coava para o interior um crepúsculo fatigado, amarelento, que pregava máscaras de icterícia às fisionomias.

Entre as vidraças e os lugares que eram destinados aos examinandos, ficava a mesa examinadora: à direita um velho calvo, baixinho, de alouradas cãs, rodeando a calva em franja de dragonas, barba da cor dos cabelos, reclinava-se ao espaldar da poltrona e lia um pequeno volume com o esforço dos míopes, esfregando as páginas ao rosto. A esquerda, um homem de trinta anos, barba rareada por toda a face, pálpebras inclusive, óculos escuros, cabelo seco, caracolando. A claridade, batendo pelas costas, denegria-lhe confusamente as feições. O terceiro, presidente da comissão, não se via bem, encoberto pela urna verde de frisos amarelos.

Distribuiu-se o papel rubricado. Um dos examinadores levantou-se, apanhou com um movimento circular um punhado de pontos e lançou-os à urna. A urna de folha cantava irônica sob o cair dos números, sonoramente.

Tirou-se o ponto; momento de angústia ainda .

Depois: estrofe dos Lusíadas! Estávamos livres da expectativa. Não me preocupou mais a dificuldade do ponto.

Depois do ditado, como em relaxamento de cansaço do espírito, esqueci o inventário natural dos conhecimentos que a prova reclamava. Pus-me a pensar nas primeiras leituras de Camões, no Sanches, nos banhos da natação, na maneira de rir de Ângela, no criado assassinado, no processo do assassino, que fora julgado havia pouco... Três pancadinhas que senti no calcanhar, chamaram-me das distrações.

Voltei-me: era o meu vizinho da mesa de trás, o queixo de ébano que pedia socorro. “Valha-me que estou perdido, não atino com a ordem direta!”

O ruído desta frase balbuciada, sibilou bem forte para atrair a atenção da mesa. Atirei-lhe a oração principal, mas tive medo de acudir inteiramente. Além disso, precisava cuidar do próprio interesse. Deixei o pobre Cristo de marfim entregue ao desespero de uma lauda deserta. De vez em quando, o infeliz espetava-me as costas com a caneta.

Para a prova oral fui mais animado. A nota da escrita era tranqüilizadora.

Os exames orais eram todos nas salas de cima. Entrava-se pela Rua dos Ourives. Os examinandos estavam em geral mais calmos. Além destes, enchia-se o saguão da escada com a turbamulta dos assistentes, confusão de fardetas, fraques surrados, sobrecasacas, todas as idades, todos os colégios representados, além dos estudantes avulsos de aulas particulares, em cujo número confundiam-se caras suspeitas de farroupilhas, exemplares definidos de vagabundagem.

O Ateneu era invejado. Vitimas do uniforme, os discípulos de Aristarco passeavam entre os grupos dos colégios rivais, sofrendo dichotes, com uma paciência recomendada de boa educação.

Fumava-se. No ambiente sem luz pairava fixo o nevoeiro dos hálitos e um cheiro de sarro intolerável; emplastravam-se de cusparadas as paredes; passeava-se arrastando os pés na areia do ladrilho; ressoavam grandes gargalhadas de ship-chandler; chasqueava-se a palavrões. Alguns rapazes de sorrisos frouxos, sem expressão, maneiras reles, arrebitavam para o alto, com as costas da mão, chapéus de palha suja, e passeavam gingando. Os mais distintos devam caminho, repuxando um canto desdenhoso de lábios, perfilando mais a elegância.

Um rebuliço extraordinário agitou a multidão. Acabava-se de descobrir na cal, coberta de epigramas e rabiscos, uma nova inscrição de muito espírito: versalhada satírica contra o Professor Courroux, da mesa de francês, rimando em u, sempre em u, de cima a baixo, com uma fertilidade pasmosa de epítetos.

Nem de propósito! na mesma ocasião entrava e lançava-se precipitadamente pela escada o terrível professor. “Não o conhece? Lá vai!” indicou-me um companheiro mais próximo.

— Não o conhecia...

(continua...)

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