Por Raul Pompéia (1881)
O singular personagem, com um andar difícil, doloroso, acercou-se do braseiro, tiritando. Estendeu os braços para o fogo. Tinha frio o espectro.
- Ah! exclamou, este calor!... Há que tempo... há que tempo não me aqueço!...
A voz cavernosa tremia-lhe como um gorjeio de sensualidade inexprimível, debilíssima voz que parecia vir da terra ou de longe, do fundo de um século.
D'onde chegava, com efeito, aquele desgraçado? Ao meu primeiro abalo de temor sucedera a compaixão.
Vi-o olhar para o lado d'onde surgira sentidamente e longamente. Olhou depois para o chão, entregando-se a uma dor profunda. Ajoelhou-se e bateu muitas vezes com a fronte no ladrilho, soluçando como um louco.
- Meu Deus! meu Deus! repetia com angústia.
A um movimento que fiz no leito, houve um estalido. O velho ergueu-se.
- Quem está aí? gritou assustado. Há alguém nessa cama?
Respondi sentando-me e arredando bruscamente o cortinado:
- E quem me fala?
A minha presença foi de um efeito incrível.
Convulso, estrangulado pelos soluços, asfixiado pelas lágrimas, o velho ficou muito tempo impossibilitado de falar. Pediu-me com um gesto que esperasse. Faltava-lhe a voz.
- Sou, disse afinal, o mais desgraçado dos homens, o mais desgraçado... Nada mais devia dizer.Mas é tão bom falar.. Há tanto tempo que não vejo ninguém... Ah! eu devia calar-me; mas é tão grande a ventura de falar a um dos meus semelhantes!...
Não é possível caracterizar o sentimento, a miséria daquelas palavras naquela voz hesitante e longínqua.
- Nada tema, disse-me. Venha sentar-se ao pé do fogo... Compadeça-se de mim, de ummiserável. Seria um alívio ouvir-me os infortúnios.
Sem hesitação fui sentar-me à lareira, bem perto do velho. Esta prova de confiança comoveu-o. Tomou-me as mãos e cobriu-as de pranto ardente.
- Homem de coração... Por que veio dormir nesta sala onde ninguém habita?... E que rumoresforam os desta manhã e desta noite?... Que músicas?... Que novidade houve hoje no castelo?...
Quando informei que fora o casamento da filha de Vildac, o velho ergueu os braços.
- Então Vildac tem uma filha?! E hoje casou?!... Grande Deus! fazei-a feliz para sempre e... quesempre o seu: pobre coração ignore o crime!...
Saiba agora quem sou... Eu sou o pai de Vildac!... do bárbaro Vildac... Mas terei direito de queixar-me? Ah! Não me cabe a mim acusá-lo...
- Como! exclamei com espanto. Como, pois?!... Vildac é seu filho e o monstro o conservapreso?... Sem falar a ninguém... carregado de ferros?!
- A cobiça! a cobiça! Ah! não sabe o que pode a cobiça... Nunca houve sentimentos no coraçãoselvagem do meu desgraçado filho! Insensível à amizade, foi surdo até à voz da natureza. Para tomar-me a fortuna, carregou-me de ferros...
Foi um dia visitar um dos nossos vizinhos que perdera o pai. Achou-o no meio dos vassalos, muito atarefado a receber o produto das rendas e das safras. Um pensamento diabólico apoderou-se-lhe da vontade. Fechou-me o rosto. Notei-lhe uma transformação sombria. Um mês mais tarde, alguns homens mascarados agarraram-me brutalmente, à noite, e seminu trancaram-me na torre.
No outro dia, os sinos dobraram, por minha morte. Aqui, do meu cárcere, ouvi os cânticos fúnebres, as preces, ai de mim que pediam ao céu o descanso de minha alma...
Ah! Como me penetraram de tristeza aquelas cerimônias!... Ao menos os outros mortos não ouvem... De então por diante, eu não existia mais... E há vinte anos represento a triste comédia... Só não sei para que algemas... Os mortos não fogem...
- Não! disse eu possuído de indignação, não há de ser assim!
O velho prisioneiro interrompeu-me:
- Não desejo fugir... Quisera apenas dizer a meu filho duas palavras... Os que trazem a comidaconsideram-me um criminoso condenado a acabar nesta torre... E assim deve ser.
- Não! Há de deixar o cárcere... Fui destinado pelo céu... hei de salvá-lo... Partamos... Todosdormem... Serei o seu amparo, a sua defesa...
- Ah! meu bom senhor, mudaram-se muito os meus princípios e as minhas idéias nestasoledade em que vivo. Tudo é opinião... Agora, que me conformei com o que a situação tem de mais cruel, para que trocar por outra? Que iria eu fazer pelo mundo?... Está lançada a sorte...
- Reflita! reflita bem! O dia vai romper... Não sobra o tempo... Venha! vamos!...
- Comove-me este zelo, mas tão poucos dias tenho para viver... a liberdade já não tenta... Demais gozá-la fora desonrar o nome de meu filho...
- Ele é que se desonrou!...
- Mas essa inocente, que dorme agora nos braços do esposo... Eu iria cobri-la de infâmia... Ah! quanto preferia eu apertá-la ao peito, cobri-la de lágrimas. Por desgraça minha não hei de vê-la nunca!... Adeus, generoso amigo... Vai amanhecer... Podiam ver-nos... Eu volto à prisão.
- Impossível! protestei, detendo-o. Não posso consentir. A reclusão enfraqueceu-vos o cérebro...
Eu darei ânimo... Mais tarde veremos se convém dar-se a conhecer... Saiamos primeiro... Ninguém saberá; ocultarei ao mundo o crime de Vildac... Medo de quê?!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.