Por Lima Barreto (1915)
Bustamante coçou a cabeça desesperado e refletiu:
- Eu não sei o que tem essa gente... É um desertar sem nome... Falta-lhes patriotismo!
- Fazem muito bem... Ora! disse o almirante.
Caldas andava aborrecido, pessimista. O seu processo ia mal e até agora o governo não lhe tinha dado cousa alguma. O seu patriotismo se enfraquecia com o diluir-se da esperança de ser algum dia vice-almirante. É verdade que o governo ainda não organizara a sua esquadra; entretanto, pelo rumor que corria, ele não comandaria nem uma divisão. Uma iniqüidade! Era velho um pouco, é verdade; mas, por não ter nunca comandado, nessa matéria ele podia despender toda uma energia moça.
- O almirante não deve falar assim... A pátria está logo abaixo da humanidade.
- Meu caro tenente, o senhor é moço... Eu sei o que são essas cousas...
- Não se deve desesperar... Não trabalhamos para nós, mas para os outros e para os vindouros, continuou Fontes persuasivo.
- Que tenho eu com eles? fez agastado Caldas.
Bustamente, o general e Quaresma assistiam à pequena discussão calados e os dous primeiros um tanto sorridentes com a fúria de Caldas, que não se cansava de dançar a perna e alisar os longos favoritos brancos. O tenente respondeu:
- Muito, almirante. Nós todos devemos trabalhar para que surjam épocas melhores, de ordem, de felicidade e evolução moral.
- Nunca houve e nunca haverá! disse de um jato Caldas.
- Eu também penso assim, acrescentou Albernaz.
- Isto há de sempre ser o mesmo, aduziu ceticamente Bustamante.
O major nada disse; parecia desinteressado da conversa. Fontes, em face daquelas contestações, ao contrário dos seus congêneres de seita, não se agastou. Ele era magro e chupado, moreno carregado e a oval do seu rosto estava amassada aqui e ali.
Com a sua voz arrastada e nasal, agitando a mão direita no jeito favorito dos sermonários, depois de ouvir todos, falou com unção:
- Houve já um esboço: a Idade Média.
Ninguém ali lhe podia contestar. Quaresma só sabia história do Brasil e os outros nenhuma. E a sua afirmação fez calar todos, embora no íntimo duvidosos. É uma curiosa Idade Média, essa de elevação moral, que a gente não sabe onde fica, em que ano? Se a gente diz: “No tempo de Clotário, ele próprio, com suas mãos, atacou fogo na palhoça em que encerrava o seu filho Crame mais a mulher deste e filhos” - o positivista objeta: “Ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente da igreja.” “São Luís”, diremos logo nós, “quis executar um senhor feudal porque mandou enforcar três crianças que tinham morto um coelho nas suas matas.” Objeta o fiel: “Você não sabe que a nossa Idade Média vai até o aparecimento da Divina Comédia? São Luís já era a decadência”... Citam-se as epidemias de moléstias nervosas, a miséria dos campônios, as ladroagens à mão armada dos barões, as alucinações do milênio, as cruéis matanças que Carlos Magno fez aos saxões; eles respondem: uma hora que ainda não estava perfeitamente estabelecido o ascendente moral da igreja; outra que ele já tinha desaparecido.
Nada disso foi objetado ao positivista e a conversa resvalou para a revolta. O almirante criticava severamente o governo.
Não tinha plano algum, levava a dar tiros à toa; na sua opinião, já devia ter feito todo o esforço para ocupar a ilha das Cobras, embora isso custasse rios de sangue. Bustamente não tinha opinião assentada; mas Quaresma e Fontes julgavam que não: seria uma aventura arriscada e de uma improficuidade patente. Albernaz ainda não tinha dado o seu aviso, e veio a fazê-lo assim:
- Mas nós reconhecemos Humaitá, e por pouco!
- Entretanto, não a tomaram, disse Fontes. As condições naturais eram outras e assim mesmo o reconhecimento foi perfeitamente inútil... O senhor sabe, esteve lá!
- Isto é... Adoeci e vim um pouco antes para o Brasil, mas o Camisão disse-me que foi arriscado. Quaresma voltara ao silêncio. Ele procurava ver Ismênia. Fontes lhe tinha inteirado do seu estado e o major se sentia por qualquer cousa preso à moléstia da moça. Viu todos: Dona Maricota, sempre ativa e diligente; Lalá, a arrancar, com o olhar, o noivo da conversa interminável, e as outras que vinham, de quando em quando, da sala de visitas à sala de jantar onde ele estava. Por fim, não se conteve, perguntou. Soube que estava em casa da irmã casada e ia pior, cada vez mais abismada na sua mania, enfraquecendo-se de corpo. O general contou tudo com franqueza a Quaresma e quando acabou de narrar aquela sua desgraça íntima, disse com um longo suspiro:
- Não sei, Quaresma... Não sei.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.