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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

De repente, dum lado e doutro, em palpitante revoada, papéis esvoaçaram. Braços levantavam-se, esticavam-se colhendo-os no ar, amarfanhando-os, disputando-os; alguns ficavam em pedaços, mas continuamente, em torvelinho, vinham outros baixando a granel, e no recinto frufrulhava alegremente aquele perene rumor de vôos. Aurélio conseguiu apanhar um dos papéis e, lançando os olhos ao texto, arrevessou:

— Súcia! versos a uma biraia como esta... e assinados, Quem é o animal?

Conheces?

— Não.

— É por infâmias tais que a Poesia tem baixado tanto. Besta!

E, furiosamente, rasgou a papelucho. Eugénie começara a cantar, numa vozinha infantil, com muitos rr e sorrisos.

— Vamos ao nosso whisky?

Paulo não respondeu — estava lívido, imóvel, d'olhos cravados num camarote, insensível a tudo, vivendo apenas para aquela visão. Aurélio seguiu-lhe o olhar e murmurou, com enlevo:

— Bela mulher! Quem é?

O outro não respondeu, estatelado, como de pedra. De repente, recuando sem atender aos protestos dos que lhe ficavam em volta, afastou-se. Aurélio estranhava-o: "Que tens?" Ele encolheu os ombros, sacudiu o braço, nervoso, e distanciou-se da companheiro, mas hesitando, deteve-se, ficou a pensar, d'olhos em terra e, numa resolução, retrocedeu. O poeta seguia-o com o olhar, intrigado.

— Olha, Aurélio, preciso ficar só, deixa-me — é um caso. Se queres alguma coisa...

— Não, filho. Mas que diabo tens? Que foi isso? É com a rapariga?

Depois dum instante, forcejando um sorriso, Paulo afirmou: que era. Aurélio, maravilhado, riu daquela ingenuidade.

— Pois que... com dinheiro no bolso? Ainda estás muito peludo, homem. Aquilo é só abordar. Se queres, apresento-te.

Paulo fitou-o com um grande espanto nos olhos que faiscavam:

— Conheces?

— Não, mas é o mesmo. Isso a gente chega, fala e está pronto. É como um tílburi que se ajusta, que diabo...! Pareces criança. Queres? — Não. Até amanhã.

Vendo-o decidido a deixá-lo, Aurélio reteve-lhe a mão e sussurrou:

— Tens aí uns miúdos?

— Tenho.

— Pouca coisa. Aquela infame batota deixou-me a tinir e estou com um apetite de canja que não te digo nada.

Paula passou-lhe uma nota.

— Obrigado. Então até amanhã e bonne chance!

Romperam aplausos estrondosos e a poeta, esticando-se nas pontas das pés, pôde ainda ver Eugénie, toda inclinada e risonha, a atirar beijos, perdendo-se, aos recuanços, por trás do pano que descia.

Paulo afastou-se caminhando para a larga escada dos camarotes e, já com o pé no primeiro degrau, hesitou pensativo. Estrugiram novas palmas recebendo um equilibrista famoso. "Que é ela, não há dúvida..." foi, escada acima, degrau a degrau, receoso, com o coração oprimido, imaginando escândalos: um ataque, uma desfeita ruidosa, uma gargalhada cínica. E a outra? Quem seria?

Uma rapariguita loura e fina, debruçada à balaustrada, cantarolava, alheia às palavras amuadas de um bonifrate de chapéu branco e polainas. Paulo passou pelo "arrufo" vexado, pisando de leve e, à medida que se aproximava do camarote, mais lhe cresciam os receios. Sentia as pernas frouxas, trêmulas, a boca seca e revoltava-se contra aquela covardia, reagindo, avançando sorrateiramente, a relancear as olhos pelos camarotes, vendo, pelas frestas, bustos graciosos, eretos, plumas petulantes, brilhos de jóias. Chegando ao camarote alvejado, dando com a porta largamente aberta, esteve para voltar.

Correu por todo o teatro o murmúrio de uma emoção malcontida, palmas isoladas vibraram, mas foram instantaneamente abafadas por psius! enérgicos e impôs-se súbito silêncio. Ele adiantou-se e, parando, ficou pregado ao soalho, a olhar, comovido e medroso.

As duas mulheres, entretidas, não davam por ele. Uma gorda, flácida, com as carnes moles esparrimadas e a espocarem, os cabelos ralos, grisalhos, dandolhe um tom cinzento à nuca, era uma sombra que fazia realçar, com mais esplendor, a graça da companheira, delicada e esbelta, de ombros largos, colo farto, cinta delgada, braços roliços, pele alambreada e fina.

Os cabelos, muito negros, reluziam à claridade sob as gazes e as flores do chapéu que lhe tombava sobre os olhos, como um alparluz. e o pescoço, sem uma ruga, dum torneado irrepreensível, subia direito, altivo, da gola de veludo branco.

Era ela, Violante, mais desenvolta, mais forte, em pleno viço, sem a suavidade da graça virginal, mas com o encanto das linhas acentuadas da mulher que desabrochou para o amor.

Tinha-a ali ante os olhos, a dois passos; podia falar-lhe, ouvi-la, conhecer todos os pormenores daquele drama que trazia em pena a pobre velha, àquela hora, talvez, ajoelhada, debulhada em lágrimas a pedir por ela aos santos.

Bravos frenéticos atroaram a sala. Paulo continha o hálito, temendo denunciar a sua presença e ansiava, ao mesmo tempo, por um lance do acaso, que o descobrisse à irmã.

(continua...)

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