Por Coelho Neto (1890)
Os olhos imensos do poeta saltavam à flor do rosto e rolavam num êxtase divino. Soerguia-se, como que uma força misteriosa o levantava, por vezes, e a sua voz, cava e lenta, tinha um quer que fosse de profética como se viesse de um ádito oracular. O Freitas, embevecido, dava com a cabeça, cerrava os olhos e mastigava tremoços. Anselmo fitava o poeta com admiração. Ao fundo da casa dois homens, em mangas de camisa, falavam alto. O Freitas não se conteve, voltou-se com um "psiu!" e os homens começaram a sussurrar — só a voz do poeta rolava, profunda e grave, num turbilhão de rimas sonorosas.
— Admirável! — exclamou o Freitas quando o poeta, com um gesto largo, repetiu as palavras de Hiperides, arrancando dos ombros da hetera a túnica que lhe encobria o corpo maravilhoso:
"Pois condenai-a agora!"
Não ficaram, por certo, mais maravilhados do que os dois rapazes, os velhos austeros do Areópago.
— Soberbo! — exclamou o Freitas reclamando mais cerveja. Anselmo ficou algum tempo a olhar o poeta, sem dizer palavra, arroubado.
— Agora, o senhor: recite-nos alguma coisa.
— Isto não faz versos, disse, com desprezo, o Freitas. É só prosa chilra.
— Faz muito bem. A prosa; se não tem a nobreza do verso, é mais ampla; o pensamento move-se livremente no período sem os apertos da métrica, sem a preocupação monótono da rima. A prosa! A excelsa prosa! Não imagina como eu amo a prosa, acho-a até mais difícil do que o verso. A prosa marmórea de um Flaubert, de um Saint-Victor... oh!
— Preferes, então, a prosa ao verso?
— Prefiro.
— E por que não fazes, de preferência, prosa?
— Hei de fazê-la.
— Ora, qual!
— Hás de ver.
— Tu és poeta e hás de ser sempre poeta, quer queiras, quer não.
— De acordo, mas poesia não quer dizer rima, poeta não é o que faz estrofes. Há por aí muito animal que faz versos impecáveis e que tem tanto de poeta como eu tenho de cantor de árias. A estrofe é um excipiente, é um meio de expressão, é a plástica. O sentimento é tudo.
— A propósito de poetas: disseram-me que assassinaste aquele poeta que andava contigo?
— Que assassinei...!?
— Sim...
— Perdão... Eu conto o caso. Esse poeta, que era o meu algoz, foi jantar comigo e comeu desbragadamente. Só havia um prato, mas abundante: bacalhau. O homem empanturrou-se e, à sobremesa, que constou de uma penca de bananas, recitou-me o famoso soneto: Dor! que termina por um terceto abracadabrante:
Africana sem fim a marchar sem chapéu
Cheia de mágoa e dor a mãe tonitruosa
Uiva como uma cobra através do escarcéu...
Quando ouvi tais coisas tive ímpetos de o esganar, confesso, mas contiveme, fui prudente. O homem, porém, depois do jantar, acompanhou-me e quis dormir comigo. Foi. Às duas da manhã acordou ávido, pedindo água. Eu, que estava morto de sono, disse-lhe que não tinha água no quarto. Ele uivou: "Que morria!" Para livrar-me do monstro, disse-lhe, então: Vai ao banheiro, abre-o e bebe no chuveiro... Disse e voltei-me para a parede recaindo no sono. De manhã o homenzinho estava a estourar: arfava, urrava, vociferava:
Africana sem fim a marchar sem chapéu...
Foi transportado para a casa da família em carro e curou-se. Ainda, depois disso, ouvi o soneto tremendo. Ele morreu depois, de uma febre. Era hediondo! Levantaram-se. A noite negra ameaçava.
— Parece que vem muita chuva. Parece.
— Vou já para casa, adeus! Vocês ficam ainda por aqui, não?
— Ficamos, disse Anselmo. Com uma noite destas não me atrevo a ir para a Cascadura.
— Está em Cascadura?
— Estou, mas desço amanhã. Não posso morar tão longe trabalhando em um jornal da tarde. Entrei para a Gazeta.
— Ah!
— Bem, adeus, rapazes! — disse o Freitas.
— Adeus! E nós?
— Vamos dar uma volta por aí. Adoro esta cidade à noite.
Seguiram lentamente. Fulvos relâmpagos fremiam encandecendo o céu. Raros transeuntes, pressentindo a tempestade, apressavam o andar. De espaço a espaço uma rija lufada levantava colunas de poeira; batiam janelas e rumores longínquos de trovões rolavam surdamente.
— Em que jornal trabalha? — perguntou Anselmo rompendo o silêncio.
— Eu? Não trabalho em jornais. Considero a imprensa uma indústria intelectual. Entra a gente para o jornalismo com um bando de idéias originais e retalha-as para o varejo do dia a dia. Quando vejo um poeta ou um prosador a fazer notícias, tenho piedade. Que diria você se encontrasse o Dalou, o grande Dalou, em casa de um marmorista da rua da Ajuda, com um gorro de papel à cabeça, talhando, no mármore industrial, anjos funéreos para as sepulturas de Catumbi? É ignóbil! O jornalismo está para a Arte como um desses anjos bojudos de cemitérios estão para o Laocoonte. Eu, se me metesse a fazer notícias, enlouquecia. Sinto-me incapaz, a local aterra-me. Tentei, uma vez, redigir a mais simples das notícias: um caso banal de polícia. Pois, meu amigo, saiu-me um substancioso artigo político. Quem pode compor um período perfeito numa sala de redação, interrompendo-se, de instante a instante, para acudir à reclamação de um sujeito que pede providências contra a falta d'água? É hediondo!
— Pois eu vou trabalhar na Gazeta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.