Por Raul Pompéia (1888)
Levava-os a jantar em sua casa, uma honra! à mesma toalha com a Princesa Melica, dos olhos grandes.
Quis o bom fado que obtivéssemos, os dois amigos, a prezada nota, e, registre-se perene! examinados pelo Professor Courroux, o tremendo Catão das bolas pretas, terror universal dos bichos!
O diretor recebeu-me da Instrução com um abraço contrafeito de estilo; percebi que ainda escorria a fístula dos ressentimentos. Convidado Egbert, força era que o fosse eu também, e o fui, de mi vontade, por fórmula. Cumpria-me forjar pretexto e recusar o convite, mas atraia-me certo número de curiosidades, por exemplo: ver como comia a Melica, uma coisa de subido interesse.
Lembro-me, entretanto, que havia f ores sobre a mesa, que estava a queimar a sopa; não reparei sequer se esteve presente a filha rio diretor.
Uma atenção absorveu-me exclusiva e única. D. Ema reconheceu-me: era aquele pequeno das madeixas compridas! Conversou muito comigo. Um fiapo branco pousava-me ao ombro do uniforme; a boa senhora tomou-o finamente entre os dedos, soltou-o e mostrou-me, sorrindo, o fio levíssimo a cair lentamente no ar calmo... Estava desenvolvido! Que diferença do que era há dois anos. Tinha idéia de haver estado comigo rapidamente, no dia da exposição artística...
— Um peraltinha! Interrompeu Aristarco, entre mordaz e condescendente, de uma janela a cujo vão conversava com o Professor Crisóstomo.
Eu quis inventar uma boa réplica sem grosseria, mas a senhora me prendia a mão nas dela, maternalmente, suavemente, de tal modo que me prendia a vivacidade também, prendia-me todo, como se eu existisse apenas naquela mão retida.
Depois da interrupção de Aristarco, não sei mais nada precisamente do que se passou na tarde.
Miragem sedutora de branco, fartos cabelos negros colhidos para o alto com infinita graça, uma rosa nos cabelos, vermelha como são vermelhos os lábios e os corações, vermelha como um grito de triunfo. Nada mais. Ramalhetes à mesa, um caldo ardente, e sempre a obsessão adorável do branco e a rosa vermelha.
Estava a meu lado, pertinho, deslumbrante, o vestuário de neve. Serviam-me alguns pratos, muitas carícias; eu devorava as carícias; Não ousava erguer a vista. Uma vez ensaiei. Havia sobre mim dois olhos perturbadores, vertendo a noite. Parece que me olhava também, não tenho certeza, do outro lado, por entre as flores, o Professor Crisóstomo.
Empossado no seu grande orgulho, que mesmo em casa fazia valer, Aristarco presidia: tão alto, porém, e tão longe, que dir-se-ia um ausente.
De volta ao Ateneu, senti-me grande. Crescia-me o peito indefinidamente, como se me estivesse a fazer homem por dilatação. Sentia-me elevado, vinte anos de estatura, um milagre. Examinei então os sapatos, a ver se haviam crescido os calcanhares. Nenhum dos sintomas estranhos constatei. Mas uma coisa apenas:
olhava agora para Egbert como para uma recordação e para o dia de ontem. Daí começou a esfriar o entusiasmo da nossa fraternidade.
CAPÍTULO X
Bem diferente esta exaltação deliciosa do abatimento espavorido da véspera, da manhã mesmo, na secretaria da Instrução Pública. A expectativa mortal das chamadas; uma insignificância: o terror acadêmico! que nos sobressalta, que nos deprime como o que há de mais grave. E por ocasião das provas de francês já não era estreante.
A estréia do primeiro exame foi de fazer febre. Três dias antes pulavam-me as palpitações; o apetite desapareceu; o sono depois do apetite; na manhã do ato, as noções mais elementares da matéria com o apetite e com o sono. Memoria in albis.
O professor Mânlio animava; a animação, lembrando o perigo, assustava mais. Esmagava-me por antecipação o peso enorme da bastilha da Rua dos Ourives, como os tribunais ferozes, sem apelo; a terrível campainha penetrante da abertura da solenidade, os reposteiros plúmbeos de espesso verde, sopesando as armas imperiais, as formidáveis paredes de alvenaria secular. Que barbaridade aquela conspiração toda contra mim, contra um, de todos aqueles perfis rebarbativos, contínuos, o Matoso, o Neves Leão, as comissões, qual mais poderosa e carrancuda; o Conselho da Instrução no fundo, coisa desconhecida, mitológica, entrevista como as pinturas religiosas das abóbadas sombrias, onde as vozes da nave engrossam de ressonância, emprestando a força moral à justiça das comissões, com o prestigio da elevação e do inacessível; mais alto que tudo, o Ministro do império, o Executivo, o Estado, a Ordem Social, aparato enorme contra uma criança.
Entrava-se pela Rua da Assembléia, para o saguão ladrilhado.
Ali estive não sei que tempo, como um condenado em oratório. Em redor de mim, morriam de palidez outros infelizes, esperando a chamada. Um, o mais velho de todos, cadavérico, ar de Cristo, tinha a barba rente, pretíssima, como um queixo de ébano adaptado a uma cara de marfim velho.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.