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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Parecia um condenado. As lágrimas passavam-se por entre os dedos e iam desaparecer-lhe na longa barba.

No dia seguinte, o visconde que fizera a Giacometo encomenda da Visão recebeu uma cartinha:

"Meu caro Sr. visconde. - Com profundo pesar declaro a V. Exa. que não me é possível de modo algum satisfazer a sua honrosa incumbência...

"Etc. - Cano Giacometo."

O visconde recorreu a outro.

Raul Pompéia

OS PARRICIDAS

De um livro de M. Fornari, Professor

de Filosofia Hermética de Milão.

Atufado no grande leito, grande e suntuoso como um catafalco, do sombrio aposento, eu revia, na indecisão imaginativa que precede o sono, os incidentes da festa, meditando a legenda de mistério que envolvia o castelo, que o fazia negro, mais do que os anos, sobre os alcantis da encosta.

A câmara a que me tinham conduzido ficava situada num dos ângulos mais afastados do edifício. Era uma espécie de cela enorme de abadia, paredes de pedra, ladrílhada de pedra e cheia da atmosfera especial dos lugares fechados e baixos. Do teto, construído em abóbada de um mosaico colossal de madeira, pendia fixamente uma lâmpada de ferro. Apagada. Os clarões da lareira divagavam pelas imensas paredes, escuras de umidade, adamascadas de mofo, e, batendo por baixo as vergas de talha dos portais, formavam sinistras esculturas e lances de sombra que subiam obliquamente.

As cortinas do leito defendiam-me em parte da grandeza lúgubre do dormitório; mas era impossível que não sofressem as idéias do influxo daquela encenação.

Pelo menos a isso quis atribuir a impertinência de pesadelo com que me perseguia uma lembrança.

Correram, entretanto, animadíssimas as bodas e parecia voltar para sempre a alegria à vivenda principesca, por tanto tempo adormecida no encerramento secular e no silêncio, abrindo então as janelas incendiadas de luz, acima da massa de arvoredo da planície, esturgindo ao clamor festivo das músicas e dos brindes.

Pelos salões, a jovem noiva distribuía-se, feita a graça, o encanto, o movimento do prazer de todos. O noivo, o altivo de Sainville, distinto, correto, era apontado ao passar, e passava sobre um tapete de comentários amáveis. E bem certo merecia a sorte venturosa de possuir o coração e o futuro da criatura adorável que desposara.

Uma cousa, porém, observei que envenenava para mim a cordialidade das expansões: a expressão do rosto de Vildac, o senhor do castelo e pai da noiva. Mau humor talvez de hipocondria; era, contudo, insuportável aquele retraimento da testa, crispada de pequeninas rugas verticais, geralmente fixas, às vezes móveis como víboras, aquele olhar, relâmpago acerbo fuzilando a espaços, percorrendo a casa como a brisa da meia-noite nas festas macabras. Dir-se-ia odiar a alegria, aquele homem. A própria filha, a cândida noiva, não escapava à irradiação do olhar satânico detido mesmo sobre ela freqüentemente, como um auspício de maldições.

Bailava-me ainda no espírito o turbilhão dos pares sob os lustres, vertigem de cores e pedraria iluminada; mas a impressão dominante na memória era o olhar, aquele olhar duro e cruel.

As condições do aposento, vasto, onde os reflexos do fogão perdiam-se como fantasmas, frio, que mal podiam aquecer os toros em brasa, frio da umidade das lájeas, crescendo do chão, transpirando das paredes, ilimitado para cima com o teto de trevas d'onde a lâmpada saía como solta no ar, o pavor templário que eu sentia fora dos cortinados fazia avultar a indisposição nervosa que me criara a maneira fisiognomônica do estranho hóspede.

Pesava-me felizmente o sono e breve repousaria da obsessão incômoda.

Esquecia-me já a acompanhar visões mais raras, mais calmas, extintas e difusas, que me falavam ao ouvido a voz carinhosa da noiva, que desmanchavam coroas brancas, coando sorrisos num véu, que desfilavam silenciosas, parecendo-me ver a procissão austera dos antigos habitadores do solar, velhos fidalgos mortos, um depois de outro lívidos e majestosos, um depois de outro, infinitamente, cada vez mais vagos.

Ia adormecer, quando um rumor despertou-me. Excitação nervosa sem dúvida, julguei.

Não. Era por cima do leito, dentro da abóbada de madeira. Acentuava-se sensivelmente. Prestei ouvidos com a respiração suspensa.

Exatamente sobre o teto de meu aposento ficava a torre grande do castelo.

O rumor cresceu. Descia no interior da muralha de pedra. Era como passos por uma escada e um barulho de ferros ao mesmo tempo.

Instantes depois percebia mover-se uma porta. O ruído dos passos e dos ferros tornou-se distinto. Violenta horripilação sacudiu-me os membros. Levei instintivamente a mão à espada que deixara à cabeceira e esperei a visita.

A nesga do cortinado deixava-me ver. Naquele momento, acendiam-se pequeninas chamas na lareira perto da cama. Eu via adiantar-se um grande velho, descabelado, curvo, de barbas abundantes, sobre a nudez do peito espantosamente magro; o estômago fugia-lhe sob as costelas como um buraco, um andrajo inqualificável pendia-lhe dos rins. Trazia correntes nos pulsos e nos tornozelos. Pensei nas almas penadas.

(continua...)

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