Por Coelho Neto (1906)
Os pontos espalhavam-se comentando o jogo extravagante da noite, e Junqueira, sacudindo os braços, espichou-se na chaise longue abandonadamente, trauteando uma ária de opereta. O deputado propôs um "lansquenetezínho honesto" até meia-noite. Paulo declarou superiormente — "que topava", mas os outros negaram-se; até o Messias, sempre pronto, escusou-se alegando um compromisso sério: "Alguém que o esperava no Recreio".
— Homem, aquilo hoje deve estar magnífico, declarou Narciso, levantandose e tomando o sobretudo.
— Com esta noite? qual! resmungou o deputado.
— Não é o benefício da Eugénie?
— Sim, é...
— Então, meu amigo, está cheio.
Messias, que abrira o postigo, anunciou uma noite magnífica, estrelada e com lua. A notícia abalou o Junqueira que, molemente, estirando os braços, deixou a chaise longue.
— Pois vou também dar uma vista d'olhos. Tenho um camarote. Queres vir, Narciso?
— Não, estou esbarrondado; vou meter-me na cama. Boa noite.
Outros despediram-se; e Paulo, não sem pena, foi tomar o chapéu. Aurélio esperava-o na sala do bilhar, friorento, esfregando as mãos, muito encolhido no seu casaco cor de pinhão.
— Onde vais?
— Ao Recreio. Queres ir? — Vamos lá.
Procurou a bengala e, lançando por uma janela os olhos ao céu, ainda acastelado de nuvens, picado de estrelas, com uma lua triste, que parecia correr, fugir, declamou:
Lune, quel esprit sombre
romene au bout d'un fil,
Dans l'ombre,
Ta face et ton profil?
CAPÍTULO XV
No jardim do Recreio, ainda úmido, com poças d'água rebrilhando, a banda dos bombeiros estrondava requebrados tangos. Frias lufadas balançavam as lanternas, enfunavam as bandeiras, retorciam as flâmulas que faziam uma aléia triunfal à entrada e circulavam a pátio, subindo às negras folhagens das árvores raquíticas como estranhos frutos d'oiro e farrapos espadanando, alongando-se no ar, coleando, tufando.
A multidão, refluindo, em levas densas, do recinto iluminado e quente, fervilhava galrando. O mulherio alegre, em esgargalada e provocadora ostentação de carnes, saracoteava, abaixo e acima, às gargalhadas estridentes, roçando pelos rapazes com afetada lascívia.
Explodiam garrafas, tiniam copos, os caixeiros acudiam com pressa estonteada, aos berros, às rijas bengaladas que estrondavam nas mesas, aos tinidos das garrafas, às palmas estraladas com que os chamavam de todos os lados. E a murmúrio arrastado e incessante dos passos dava a impressão dum grande vento a vergar frondes, a torvelinhar folhagens.
Eugénie, conhecedora do seu "mundo", atraíra à sua festa, como engodo, todo o parasitismo galante. Fora, à gandaia, circulava a miuçalha, a fina flor impunha-se nos camarotes fazendo, em lento passeio, a volta da varanda ou em palestra junto à balaustrada.
O botequim transbordava e por toda a parte era um sussurro de festa, uma alegria estróina, risadas, gritinhos ou, modestamente, em algum recanto mais calmo, em penumbra, um casal em colóquio, sorvendo licores — ela a fazer-se ingênua, tímida, d'olhos baixos; ele todo inclinado, meigo, segredando com doçura.
Quando Paulo e Aurélio chegaram, a orquestra atacava, com fragor, uma sinfonia e o jardim esvaziava-se, todos corriam para o recinto ou iam tomar lugar à volta da balaustrada que circula a platéia, com curiosidade de ouvir a Eugénie, que devia abrir a segunda parte. Os floristas levantavam as varas apinhadas de ramos, oferecendo-os; de longe em longe, à mesa de indiferentes, rolhas espocavam ou era um cão, tosado á feição leonina, que se punha a ganir, de rojo pelo chão, aos rebolos.
Os dois rapazes deram volta, olhando friamente. Aurélio notou o grande número de cocottes:
— Como está isto! Nem uma família... Enoja! Fez um momo e cuspiu.
Paulo, sem responder, varava a multidão, levando, de vez em vez, a mão ao peito para apalpar, sentir o dinheiro no bolso interior do casaco abotoado. Aurélio queixou-se do frio. "Estava picante..." e propôs uma dose de whisky e Seltz, ali fora, longe daquele tumulto sórdido que tresandava. Mas o pano ia subir.
Fez-se um movimento de atenção; as curiosos apertavam-se, oprimiam-se, espichavam-se, d'olhos alongados, à espera da beneficiada. Subitamente a pano enrugou-se, subiu. Houve uma explosão de palmas, voaram ramos e flores soltas ao palco e, sorrindo, com os dedos apinhados em beijos, viva, duma graça desembaraçada de efebo, muito escorreita num costume de jóquei, Eugénie desfazia-se em galanteios, comovida, atendendo a toda a sala, avançando, recuando, o busto curvado, pisando ligeiramente, com as botas muito lustrosas, o boné junto ao seio, a cabeleira loura toda arrufada em cachos.
O regente ergueu-se no estrado e ofereceu-lhe uma corbeille cheia de fitas esvoaçantes, com um casal de inquietos pombos brancos batendo as asas entre rosas. De novo as palmas estrondaram, e das torrinhas, num delírio, aos berros, o nome da cocotte era aclamado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.