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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

Num artigo de José há imagens para vinte artigos. Ele não trabalha com as dinamizações: é um nababo de matéria-prima. Basta isto: a campanha abolicionista... Pois é um diabo que, há não sei quantos anos, escreve sobre este tema: o senhor e o escravo — sempre com uma imagem nova e magnífica de esplendor. Fere todos os assuntos: entende de câmbio, discute a política internacional e as filosofias, é católico e faz conferências sobre budismo; farmacêutico, trava polêmicas sobre mecânica com os engenheiros, dá planos estratégicos, escreve romances, sermões, panegíricos, libelos, é eleitor e tem voz de barítono. Não é um homem, é uma complicação genial. Para mim ele é quem há de personificar a época tremenda que atravessamos. Desse caos negro é que há de sair a luz. Se o José não tivesse nascido no Brasil, se tivesse nascido em Paris, por exemplo, seria uma celebridade universal. É um bruto! Garçom, outro grogue! Você não bebe? Fortúnio estava triste, de olhos baixos. Queres mais um grogue?

— Não. Vou comer uma empada.

— Ainda não almoçaste?

— Almocei ontem.

— Por que não disseste, homem? Eu tenho aqui.

— Também eu, disse Anselmo.

— Então jantarei. Antes, porém, vou tirar este peso da consciência; e meteu os dedos pela gaforinha.

— Vamos juntos, convidou Anselmo.

— Ao mesmo cabeleireiro! — exclamou o Neiva. Vocês entulham o salão.

— Uma empada, disse Fortúnio, em segredo, a um dos caixeiros.

— Vais comer empadas agora? Olha que perdes o apetite.

— Quem me dera! Ainda que o perdesse ele havia de voltar na manhã seguinte, como o anel de Polícrates. Depois, eu tenho um vermute magnífico.

— Qual?

— A fome. Quem tem fome tem apetite. — Bem, vamos sair. Que é do José?

Patrocínio havia desaparecido. O Neiva levantou-se justamente quando o caixeiro entregava a Fortúnio uma empadinha espetada num palito.

— Agora tenham paciência; deixem-me comer em paz.

Os dois esperaram e, logo que o poeta mastigou o último bocado, encaminharam-se para a porta: Fortúnio, sempre ereto, como se tivesse o rei na barriga, quando tinha apenas um grogue e uma empadinha de tostão. O Neiva despediu-se.

— Perdão. Não te esqueças do meu almoço de amanhã, disse o poeta.

— É verdade. Passou-lhe disfarçadamente uma nota e seguiu.

— Até logo!

— Até logo.

— Vais ao teatro?

— Pois onde hei de ir?

— A qual?

— A todos.

— Então encontramo-nos.

— Com certeza.

— Até logo!

— E nós agora? Vamos cortar as tranças.

— Sim, vamos. Temos ali na rua Gonçalves Dias.

— Não, nada de ostentação. Vamos à rua 7. Há um cabeleireiro que faz abatimento quando se corta em porção, como nós. O diabo é que eu fico sem travesseiro. Enfim! E encaminharam-se para a rua 7.

Jantaram juntos, no Renaissance, e, às sete horas da tarde, Fortúnio seguiu para a rua de Riachuelo despedindo-se de Anselmo que ficou na cidade, dissipando em livros, na rua de S. José, o dinheiro que lhe havia dado o Patrocínio.

CAPÍTULO XIII

Foi nessa noite que, por intermédio do Freitas, um satírico baiano, ele conheceu Octavio Bivar. Desciam a rua do Ouvidor quando encontraram o poeta diante de uma vitrina admirando os braceletes que faiscavam nos escrínios de veludo. O Freitas atirou-lhe uma palmada ao ombro. O poeta voltou-se repentinamente, espantado, dando, porém, com o amigo, tranqüilizou-se:

— Que fazes aí?

— Admiro. E tu, como vais?

— Bem. Conheces aqui o Anselmo?

— De nome.

— Este é o Bivar, o homem que ouve estrelas. Vamos tomar alguma coisa.

— Podemos ir.

— No Deroche.

— Não, aquilo é impossível; não se pode estar à vontade. Vamos ao Gambrinus, é uma bodega honesta e desconhecida ainda.

— Na rua 7? — Sim.

Dirigiram-se pausadamente para a cervejaria e, logo que se abancaram, o Freitas atirou-se aos tremoços pedindo ao poeta que recitasse alguma coisa. Bivar desculpou-se: andava atropelado, não tinha tempo para escrever um verso, uma vida de cão, perseguido por um senhorio inclemente. Podia recitar qualquer coisa antiga...

— Pois sim. O Julgamento de Frinéia, por exemplo. Conheces, Anselmo?

— Não.

— Uma coisinha, disse o poeta, pigarreando.

Voltou a cadeira, fincou o cotovelo na mesa, lançou um olhar pela casa e, com os dedos enfeixados, disse solenemente, em tom profundo, balançando o corpo:

Mnezarete — a divina e pálida Frinéia — Comparece ante a austera e rígida assembléia

Do Areópago supremo. A Grécia inteira admira

Aquela formosura original, que inspira E dá vida ao genial cinzel de Praxiteles,

De Hiperides à voz e à palheta de Apeles.

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(continua...)

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