Por Raul Pompéia (1888)
Qual a espécie de cumplicidade que se atribuía? Não quis saber; fosse o mais torpe dos réus, era o meu amigo: tudo que sofresse, muito culpado embora, era, no meu conceito, uma provação da fatalidade. E fazia-me estremecer a idéia de que iam maltratar criatura tão mansa, tão complacente, tão amável, feita de sensibilidade e brandura, contra quem o mal seria sempre uma injustiça, que eu prezaria com todos os defeitos, com todas as máculas, na facilidade de perdão das cegueiras sentimentais, estranhezas da preferência, que envolve tudo, no ser querido, a frase límpida do olhar ou o cheiro acre, mesmo impuro, da carne.
Quando nos tornamos a ver, nenhum teve para o outro a mínima palavra; ficamos a um banco, lado a lado, em expansivo silêncio. E nunca, depois, nem por alusão distante, nos referimos ao caso. Coincidência instintiva de um respeito recíproco, ódio talvez comum de uma recordação ominosa.
Desde o mês de julho do ano anterior, cursava os estudos elementares das línguas, alegrando-me a aquisição do vocábulo estrangeiro, comércio com a linguagem dos grandes povos, como se provasse a goles a civilização, como se bebesse a realidade do movimento humano nos países remotos que os cosmoramas pintam, em que vagamente acreditávamos como se acredita em romances.
Seguiu-se a maçada dos intermináveis temas.
Nas aulas superiores, a facilidade adquirida amenizava o trabalho. As páginas sorriam de literatura, com o sorriso conhecido dos objetos familiares.
Os professores eram bons e moderados. O de francês, M. Delille, nome de poeta aplicado a um urso, honrado urso, inofensivo e benévolo; saudoso do terceiro império, cujo desastre o deportara para a vida de aventuras além-mar; barbado como um colchão de crinas, por um vigor de cabelo denso, luxuriante, ruivo queimado no lugar da boca, mais longe preto, através do qual passavam-nos simultaneamente baforadas expressivas de cachaça e regras de Halbout. O professor de inglês, Dr. Velho Júnior, nome de contradição ainda, o melhor dos homens; zeloso, explicador detalhado, sem exaltar-se nunca, calvo como a ocasião, mas que excelente ocasião de se estimar e querer bem!
A companhia do Egbert ultimava a situação e o estudo era uma festa.
O Professor Venâncio lecionava também inglês; escapei-lhe às garras, felizmente: uma fera! chatinho sob o diretor, terrível sobre os discípulos; a um deles arremessou-o contra um registro de gás, quebrando-lhe os dentes. Mânlio, além das primeiras letras, regia a cadeira especial de português.
Graças ao estudo do outro ano, alcancei sofrivelmente o meu atestado de vernaculismo, garantido pela competência oficial; graças também às tinturas do latim, em que me iniciara o padre-mestre Frei Ambrósio, respeitável, de nariz entupido, gesticulando com o Alcobaça, rezando a artinha com a entonação oca e funda das missas contadas, consumidor de rapé por um convento, culpado, assim, de cheirar-me ainda hoje a Paulo Cordeiro o magnífico idioma do qui, quoe, quod, e produzir-me espirros uma simples reminiscência de Salústio.
Era costume no Ateneu licenciar-se um pouco do regimento da casa a estudante de certa ordem, que estivesse em véspera de exame. Saia-se então para o jardim com os livros e a comodidade do trabalho a bel-prazer. Companheiros sempre, aproveitávamos, eu e o Egbert, com toda vontade, a regalia consuetudinária. Antes da data memorável do francês, muito passeamos pelas avenidas de sombra Chateaubriand, Corneille, Racine, Molière. O teatro clássico dava para grandes efeitos de declamação. Quanta tragédia perdida sobre as folhas secas! Quanto gesto nobre desperdiçado! Quantas soberbas falas confiadas à viração leviana e passageira!
Um era Augusto, outro Cina; um Nearco, outro Poliúto; um Horácio, outro
Curiácio, D. Diogo e o Cid, Joas e Joad, Nero e Burro, Filinto e Alceste, Tartufo e Cleanto. O arvoredo era um cenário deveras. Dialogávamos, com toda a força das encarnações dramáticas, a bravura cavalheiresca, o civismo romano, as apreensões de rei ameaçado, o heroísmo da fé, os arrufos da misantropia, as sinuosidades do hipócrita. Uma estátua de deusa anônima, de louça esfolada, verde de velhice, constituía o auditório, auditório atento fixamente, comedido, sem demasias de aplauso nem reprovação, mas constante e infatigável.
Para o desempenho dos papéis femininos havia dificuldades; cada um queria a parte mais enérgica do recitativo. Tirava-se a sorte; e, segundo o acaso, um de nós ou o outro enfiava sem cerimônia as saias de qualquer dama e ia perfeita a toilette do sentimento, noivado de Chimène, desespero de Camila, luto de Paulina, ambição de Agripina, soberania de Ester, astúcia de Elmira, dubiedade de Celiméne. Outro papel custoso de distribuir era o de Burro, papel honesto, entretanto, e altamente simpático. Ninguém o queria fazer, o virtuoso conselheiro de Nero.
Melhor que a prerrogativa do estudo livre era uma espécie de prêmio, não catalogado nos estatutos, com que Aristarco gentilmente obsequiava os distintos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.