Por Raul Pompéia (1881)
Por que não? O que lhe faltava era simplesmente uma pessoa que se quisesse deixar retratar em uma grande tela. Não se tratava exatamente de um modelo vivo... Que dúvida haveria...
Refletindo mais, lembrou-se da dificuldade em que se veria, caso um exame de perto lhe mostrasse que a moça não prestava. Com que cara havia de dizer:
- V. Exa. não serve para meu anjo...
Giacometo desistiu.
Desistir não é desanimar. E o pintor procurava... Visitou os arrabaldes, as ilhas da baía, fez mesmo algumas viagenzinhas... Entretanto, quando alguém que sabia da sua empresa perguntava-lhe:
- E o anjo?
- Não achei ainda!... respondia.
III
Por esse tempo abriu-se a exposição de Belas Artes. Giacometo mandara alguns quadros. Para ver que figura fazia o seu trabalho, no meio do dos demais expositores, Cano Giacometo foi visitá-la. No primeiro dia não pôde entrar. Três dias depois voltou à carga. Não havia a mesma afluência do primeiro dia. O pintor entrou...
Passou rapidamente os olhos pelas pinturas expostas na saleta fronteira à entrada, nessa onde se vê uma estátua de Pedro II, muito branca, de espada pendente à esquerda, fitando tranqüilo um cavaleiro de bronze, que galopa nos ares ao longe e acena-lhe com um rolo de papel.
Seguiu depois pelo corredor que leva à pinacoteca, e, na porta da primeira sala à direita parou. Tinha avistado um dos seus quadros.
Giacometo foi vê-lo de perto.
Entretanto, a vista encontrou-lhe uma grande tela pendurada à esquerda.
Um assunto delicado. Representava uma bela rapariguinha de quatorze ou quinze anos, braços e ombros nus, debruçada numa janela, tentando quebrar com os dedos o pedúnculo de uma rosa. A janela ou trapeira era do tamanho da moldura, de sorte que a figura parecia inclinar-se para fora do painel. Tinha uma execução magistral esse trabalho.
Giacometo sentiu-se preso pelo quadro. Esqueceu completamente os sentidos. Era o maravilhoso semblante da rapariguinha que quebrava o pedúnculo e ria para o espectador...
O pintor consultou o catálogo que lhe haviam oferecido na porta do edifício. Rezava assim:
- Sessenta e quatro. Cópia do natural; trabalho do Sr F.C. Rua da Ajuda n. ...
Que felicidade! F. C. era um pintor seu vizinho, que o tinha em muita consideração e se mostrava seu amigo...
Giacometo contemplou por mais algum tempo o belo quadro, e depois, esquecendo completamente a exposição, retirou-se apressado.
Um conhecido, que o viu andando muito precipitado, perguntou-lhe:
- Onde vai tão apressado, comendador?
- Já tenho o anjo! respondeu ele, sem saber se falava a uma pessoa que tivesse notícia de suaempresa.
Em poucos minutos chegava à rua da Ajuda e batia à porta de F.C.
Veio recebê-lo uma espécie de criada, raquítica, sem sangue e sem carne, metida em uma saia cheia de rugas verticais, que escapava-se-lhe dos ossudos quadris como de dous cabides. Parecia bem moça. Tinha, porém, o rosto escalavrado, o que duplicava-lhe a idade.
- O Sr. F. C. está em casa? perguntou Giacometo.
- Sim, senhor...
- Quero falar-lhe.
- Entre...
E a magra porteira, retirando-se pata um lado, deu caminho ao pintor.
Giacometo encaminhou-se logo para o atelier de F.C. e foi surpreendê-lo em trabalho.
- Oh! meu grande Giacometo, o que significa esta visita? Você custa tanto a aparecer...
- Sabe?... Venho aqui por causa do meu anjo...
- Ainda o teu anjo...
- É exato... Com certeza os do céu não custaram tanto trabalho a quem os fez...
- Mas em que posso eu servir-lhe...
- Vai dar-me o modelo...
- Como?!
- É muito simples... Quem é o autor do quadro n. 64 da exposição?...
- Oh!... Mas você não é homem de copiar...
- Sei... sei... O que eu quero não é o seu lindo quadro; é o precioso modelo que lhe serviu...Deve ser uma perfeição.
- É impossível achar-se cousa que mais satisfaça... É quase o meu sonho... Com algum fulgormais na fisionomia... está feito o meu anjo... Diga-me quem foi o seu modelo... Juro-lhe que qualquer despesa que haja de fazer não me amedronta...
Um sorriso amargo, inexplicável, traçou-se no rosto de F.C.
- Ai, meu caro Giacometo, eu vou apresentar-te o meu modelo... É minha sobrinha, uma órfãque minha mulher acolheu... Está comigo há meses... Talvez você a tenha visto...
- Nunca! protestou fortemente Carlo... O meu anjo não passaria despercebido!
- Pobre anjo!...
- Não o compreendo...
- Vai compreender... Espere um pouco...
F. C. afastou-se da tela diante da qual conversava com Giacometo, e, oferecendo-lhe uma cadeira, desapareceu no interior da casa.
Instantes após, voltava, impelindo delicadamente pelos ombros a mesma pessoa que recebera o nosso comendador.
- Aqui está o modelo... disse em tom de tristeza.
- O modelo? perguntou Giacometo de um modo estranho.F. C. afirmou com a cabeça.
A pobre mocinha curvava a cabeça com um acanhamento doloroso.
Esta cena foi de efeito fulminante para Carlo Giacometo. O desgraçado fixava na moça um olhar de louco.
- Ah! meu bom Carlo, as bexigas podem arruinar um modelo...
O artista da Visão deixou pender a cabeça e cobriu o rosto com a mão...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.