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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Demais, com os absurdos que Bentes e os seus avançavam, o trabalho de justificá-los forçava de tal forma a inteligência que era bem preciso uma mentalidade totalmente diferente da humanidade para defender as proposições dos partidários do general com alguma vantagem.

As inteligências normais tinham até pudor diante delas mesmas, vexadas em sustentar as tolices que energúmenos berravam e escreviam por conta de Bentes.

Benevenuto vinha a pé com as mãos cruzadas às costas, agarrando a bengala; tinha a cabeça baixa e poucas vezes olhou o mar. No largo da Lapa, esperando o bonde, encontrou Mme. Forfaible e a sua amiguinha.

— Oh! Doutor! Muito bonito! Gostou do préstito?

— Estava bom.

— Gostei muito — continuou Mme. Forfaible. Aquele caboclo estava muito bom... O que é que representa, Maci?

A amiguinha respondeu com presteza:

— O rei da floresta brasileira. Gostei muito das crianças... — Os cantos, Doutor, não reparou? — são muito bonitos.

Benevenuto pensou um instante que todas as nossas festas tendem para o carnaval e que aquelas damas falavam da grotesca panatenéia fúnebre, do préstito em homenagem a um morto, com o mesmo “elan” com que falariam das cavalgadas dos clubes carnavalescos. Mme. Forfaible continuou com volubilidade:

— Deixei Manoel dormindo... Não podia deixar de ver...

— Seu marido ainda está na comissão?

— Está... Mas está vendo se arranja outra coisa...

— Não tem se dado bem?

— Tem... Mas... É preciso coisa melhor...

— Naturalmente.

— Lá na terra dele, falam muito em ele ser presidente do Estado... Eu não gosto muito... Deixar o Rio de Janeiro, ir para o mato...

— Não é mato, minha senhora.

— Qual! Não acredito! Por mais que me digam que aquilo lá tem ruas, tem teatros, famílias, não sei por que não admito. Contudo, se fizerem muito gosto, nós iremos.

Mme. Foirfable e a sua amiguinha tomaram o bonde, Benevenuto acompanhou-as com o olhar, pensando nas causas que tinham determinado esse despertar, em tantos generais e coronéis, exímias capacidades políticas; e também nas que tinham provocado os próceres lembrarem-se deles assim de uma hora para outra.

Encaminhou-se para o seu destino, sempre a pé e vagarosamente.

Chegou à travessa. Entrou. Na sala, a mãe e a filha costuravam. As duas faziam a sua tarefa com resignação e cuidado. De onde em onde, uma delas deitava a cabeça, colocava de certo modo a costura e a examinava com alegria nos olhos. Um instante, Benevenuto julgou que ofendia com seu amor a miséria daquelas mulheres; afastou o pensamento, cumprimentou e entrou. Edgarda já estava lá e livre da “toilette” pública . Abraçaram-se muito e ela teve um gesto de choro. O primo quis afastar-lhe a emoção:

— Vieste cedo...

— Vim, meu amor, vim. Não viste o préstito? Numa e papai foram.

— Vi, mas não os vi lá.

— Foram ao cemitério. Fiquei só e vim.

— Mas que é que tens?

— Nada... Nada...

— Fala!

— Não sei... Um pressentimento...

— Que é?

— Não sei, Benevenuto; não sei. Está me parecendo que vão tomar o lugar de papai e de Numa.

— É possível, mas não compreendo esse teu desgosto Se fossem empregos, se por isso a tua situação financeira fosse abalada, vá; mas continuas no mesmo; que te dá que o teu marido seja ou não deputado?

— É um desaforo! É um desaforo!

— Desaforo como? Essas funções são mesmo transitórias, tu sabes disso, minha filha.

— Mas... O que me aborrece é essa Anita, a mulher de Forfaible!

— Que tem ela?

— Quer fazer o marido governador.

— Ah! Ele é de Sepotuba?

— É... Não sabias?

— Ela acaba de dizer que tem lembrado muito o nome dele para presidir o Estado mas não sabia qual.

— Pois é verdade: são ela e o Salustiano que intrigam. Já o Macieira...

— Sê prudente, Edgarda. O teu orgulho te faz cega e apaixonada, o que vem a ser a mesma coisa. As eleições de governador ainda estão longe... Teu pai não se dá por achado... Faz o Forfaible senador agora, ele se contenta e vocês embrulham o Salustiano.

Sentada na borda da cama, a moça ficou pensando. A sua fisionomia abriuse por fim num sorriso e disse:

— É verdade!... A Anita fica até contente... Tu és uma jóia.

E abraçaram-se e beijaram-se por um tempo perdido no mais absoluto silêncio.

Quando Benevenuto deixou Edgarda o dia ia adiantado e já na rua do Ouvidor estavam de volta os romeiros ao túmulo do almirante Constâncio.

Inácio Costa tinha ainda o seu traje verde e amarelo e na cabeça a esfera azul com estrelas de papel branco. Não trazia mais a terrível lança — “À bala” — mas continuava a distribuir os versos que trazia nas fundas algibeiras da vestimenta.

No Café do Rio, muitos como ele se juntaram, discutindo e sempre proclamando a salvação da República. Parecia que queriam voltar aos cruéis dias do florianismo. Na Avenida, da mesma forma, havia grupos de civis, discutindo com entusiasmo e era de supor que a excitação e a satisfação lhes tivessem vindo do brilho, da imponência e da majestade do préstito de D. Florinda, préstito que mostrou de que maneira Bentes era popular com os dotes do tio morto.

(continua...)

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