Por Coelho Neto (1906)
Houve um largo suspiro de desabafo — o número estava carregado. O doutor tinha dois cartões em pleno, Junqueira tinha outros tantos, e alguns a cavalo e no esguicho; Barroso tinha duas fichas. E murmurava-se: "Era tempo... É número que não falha. Demora, mas sempre vem..."
O sereno Junqueira não se perturbara e continuava a fumar, sem uma ruga na face, sem mais brilho nos olhos, imutável. Paulo começava a desanimar — cem mil-réis já lá estavam nas cordas. Decididamente devia fazer como Junqueira — jogo forte e metódico, escolhendo um número, firmando-se nele — quando desse recuperava o perdido, e ainda lucrava, e, com uma repetição, estourava a banca. Aquilo sim, pensava, maravilhado e invejando, enquanto pagavam ao Junqueira a atrevida parada; aquilo é que era jogar, o mais... histórias!
O tempo da banca estava a expirar quando entraram outros pontos. O melhor era aguardar a outra banca, com o Faustino à bola. Messias era um "mãode-ferro", ninguém escapava. Logo, porém, que a roleta recomeçou a girar, sem calma para manter o protesto, pediu fichas, concentrou-se no 29; pouco a pouco porém, irresistivelmente, foi, cobrindo números ao acaso, seguindo as mãos que andavam, aos esbarros, deixando fichas, arranjando cartões. Ainda o pequeno.
Retirou-se afogueado, sempre com a idéia fatal de que a sua sorte fora desviada pelo sinfonista. O seu olhar faiscava de ódio, tremiam-lhe as mãos, e todo ele escaldava, como em febre. Messias anunciou, em voz rolante, a "última bola!". Narciso pediu fichas para "aquele infamíssimo zero" e, acumulando-o, injuriava-o.
— Vê lá agora, bandido! Juro que nunca mais estrago uma ficha neste miserável, se ele não sair desta vez. Há três dias que acompanho este monstro... — É capaz de dar agora.
Alguns seguiram o Narciso. Paulo, para não comprar fichas, amarfanhou uma nota e lá a deixou. Deu o 8. Narciso rugiu, e o velho Barroso, cuspindo a ponta do cigarro, acusou — cinco fichas, a sua maior parada da noite.
— O senhor foi o herói, Sr. Barroso, aclamou o deputado.
— É, estava com alguma sorte.
— Se tivesse jogado com mais largueza...
— Tinha perdido, doutor. Este jogo só assim, a brincar; é como dá.
Conheço-o muito. Em me alargando um bocado, são favas contadas. — Fichas a troco.
Paulo contou o dinheiro e achou duzentos e quarenta mil-réis. Aurélio, junto ao Messias, acompanhava, com avidez, o troco que os ficheiros faziam — só o velho Barroso ganhara quantia apreciável. Junqueira, interpelado pelo Narciso sobre o prejuízo, deu d'ombros com indiferença; o deputado pôs-se a passear resmungando uma cançoneta. A esperança do estudante passou-se para a segunda banca — faria jogo mais ousado, longe do Aurélio, que o encaiporava, sempre a dar-lhe conselhos, a discutir, a comentar-lhe as paradas, sapeando, com os cotovelos fincados na mesa, o rosto esmagado entre as mãos lívidas. Foi à buvette, engoliu sofregamente um grog, receoso de perder a primeira bola.
Os pontos fumavam, beberricavam apressados cognacs, todos ansiosos. O próprio Junqueira que, entre uma e outra banca, costumava estirar-se um pouco na chaise longue, saboreando o seu whisky a pequenos goles, deixou-se ficar na sala da roleta, olhos no tapete, como a querer sondá-lo, penetrar a razão da sua longa e pertinaz desfortuna.
Messias continuava a bancar — lá estava repoltreado, pilheriando.
Já os ficheiros iam e vinham, açodados, deixando coleções aqui, ali. Um ar turvo, denso, tresandando acremente a fumo, pesava na sala. Paulo rejeitou as "pérolas", preferiu as sangue de boi. A sua primeira parada foi de um arrojo atrevido. Aurélio aplaudiu com entusiasmo:
— Assim, homem. Assim é que se joga. Nada de piabagem. Ele implorou: — Pelo amor de Deus! não fales.
Narciso, injuriando o zero, cercava o 17. Mas quando a bola começou a saltar nas baias, não se conteve e, num arranque, esmurrou o seu azar com seis fichas. Deu o 36. Aurélio saltou na cadeira de olhos esbugalhados, e, meneando com a cabeça, num espanto, pôs-se a repetir:
— Sim, senhor...! Sim, senhor...! assombrado com a sorte do estudante, que sorria, feliz, sem ânimo de tocar na rima de fichas que deixara sobre o número. O ficheiro contou: 23, e logo anunciou — 805.
— Homem, agora tiraste o pé do lodo.
— Já era tempo...!
— Boa tacada! — e saiu, circulando a mesa, a repetir: Boa tacada! Boa tacada! — Mas, tomando ao seu posto, segredou ao estudante, retorcendo nervosamente o bigode: Estás de sorte, atira-te!
Às l0 1/2, anunciando-se a última bola, Paulo contou 260 cartões. Aurélio rondava-o d'olhos compridos.
— Fichas a troco... — disse morosamente o Messias, desligando um maço de notas.
Paulo recebeu o bolo — dois contos e seiscentos, aparentando indiferença, mas os dedos tremiam-lhe e uma palidez cadavérica cobria-lhe o rosto. Messias felicitou-o pelo "tiro"; ele sorriu.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.