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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Leiam a Gazeta amanhã: Sansão faz a sua estréia.

Fortúnio, placidamente, alisando as calças, perguntou:

— Queres um soneto, José?

— Não, não quero... Este idiota...! Pois então eu rejeito versos teus?

— Não sei.

— Dá cá o soneto, deixa-te de luxos.

— Vou escrevê-lo, espera. E, chamando o caixeiro, pediu uma folha de papel, pena e tinta. Enquanto escrevia, Patrocínio dirigiu-se ao Neiva:

— Se esses rapazes quisessem, que esplêndido jornal podíamos nós agora fazer, heim? Imagina! Tu, com a direção da reportagem; este, com a crônica literária; Fortúnio com a crônica mundana e eu com o artigo e o noticiário.

— O noticiário! Tu? Estás louco! — exclamou o Neiva.

— Como louco?

— Pois és lá homem para fazer notícias, José?!

— Como não? Para mim são as duas coisas sérias do jornal: o noticiário e a gerência. O artigo de fundo não é mais do que uma grande notícia desenvolvida.

— De acordo, mas queres encher o jornal com artigos de fundo?

— Não, mas quero a notícia feita com talento. É preciso que a local emocione. O público tem necessidade de choques violentos. O melhor jornal é o que mais comove, isto é: o que explora, com mais habilidade, o emocional. Queres ver? Lê o mesmo fato em dois jornais. Aqui a coisa resumida e seca: "Estando ontem a trabalhar no andaime do prédio em construção à rua tal, número tantos, perdendo o equilíbrio veio abaixo o pedreiro fulano, morrendo instantaneamente. O cadáver foi recolhido ao necrotério." Está aí tudo — o desastre, as conseqüências do desastre, o destino que teve a vítima. Pensas que isso basta ao leitor? Estás enganado. A notícia, para agradar, deve ser escrita nestes termos. E, inclinando-se sobre a mesa, Patrocínio, passando o dedo pelo mármore, como se escrevesse, exclamou: GRANDE DESASTRE! em letras garrafais... Agora o caso, com todos os temperos:

"Quando, ao romper da manhã de ontem, fulano de tal, homem laborioso e honesto, que só via Deus no céu e a família na terra, saiu de casa contente pensando nos filhinhos que haviam ficado adormecidos, mal podia suspeitar, o infeliz, que nunca mais tornaria àquele lar e aos carinhos dos seus, porque a morte insidiosa já o esperava no próprio posto do trabalho. A fatalidade..." — por aí além, em tom patético. A descrição da queda com uma onomatopéia para o bater do corpo na calçada, o esfacelamento do crânio, os miolos salpicando os paus do andaime, os olhos esbugalhados. Depois o necrotério, a chegada da viúva com os filhinhos, o enterro, o luto e a miséria no lar. Finalmente, em remate, um comentário sobre a fatalidade. Não imaginas como uma coisa dessas impressiona.

Fortúnio, que terminara o soneto, entregou-o a Patrocínio que o leu alto, com entusiasmo, estendendo a mão espalmada ao poeta:

— Obrigado! Mas continuando: o jornal substitui a berma do Pnix e a arena; se nele são discutidas as grandes questões sociais, nele também devem aparecer as grandes cenas vibrantes. O povo é bárbaro e, como não tem mais as lutas sangrentas, satisfaz-se com as descrições trágicas: o assassínio de um homem, num canto de estrada, sendo descrito com talento, agita mais a massa do que a notícia seca da derrota de um exército. Mas os meninos não querem compreender assim, entendem que o noticiário é humilhante e fazem cara quando se lhes pede uma notícia. Pois serei eu o noticiarista. Deixem-me com a gerência e com o noticiário que, em menos de um ano, ponho aí um jornal como o New York Herald. Queres tomar conta da reportagem?

— Tomo.

— Palavra?

— Palavra, homem!

Mas um sujeito aproximou-se e chamou o jornalista à parte. Estiveram algum tempo conversando, de pé. De repente o Neiva bramiu:

— Então, José!

— Já vou, espera um instante. Olha que essa despesa está paga.

O Neiva voltou-se para Anselmo:

— Então vais trabalhar com o Zé do pato?

— Vou.

— Fazes bem. Ele é o hierofanta. Considero-o o primeiro homem do Brasil.

Sei que há outros mais eruditos: ele, porém, é o mais fecundo, é o de maior cérebro. Dá-me a impressão de uma selva virgem. É um espírito onde apenas trabalhou rudemente o machado do lenhador. Os artigos dos outros que por aí há são bem feitos alguns, outros detestáveis, sem bom senso e sem gramática, mas eu refiro-me apenas aos que podem resistir à análise; têm forma, mas não emocionam como os deste bruto. Posso chamar-lhe bruto porque Esquimó chamava a Demóstenes — o monstro. Mas é isto: os outros artigos são como a colheita de um campo intensivamente cultivado, são paveias; os do José, não: são como imensos jequitibás que vêm possantemente arrastados do fundo da selva virgem. São colossos cheios de seiva que passam fragorosamente, mas, dentre a folhagem verde, saem gorjeios de ninhos que vêm presos aos ramos e pios de aves que voam acompanhando a árvore que era, por assim dizer, a sua cidade. É a minha impressão.

(continua...)

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