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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

Além desse aspecto, houve outros que não iam sendo mencionados. Havia associações de estivadores, de operários, de funcionários, de militares, de senhoras que tomaram parte com seus estandartes de seda, além dos clubes e cordões carnavalescos. Inácio da Costa acompanhou o préstito a cavalo, um cavalo do regimento policial. Ele vestido particularmente de verde e amarelo e o cavalo ajaezado com florões desses crótons que antigamente chamavam —

“Independência”.

Trazia, à guisa de lança, um estandarte em que se lia na bandeirola: “À bala”.

Formou-se essa espécie de marcha solene, sob as vistas atentas da polícia; e desfilou vagarosa, ao som das músicas, cânticos e trombetas, pela Avenida em fora. Na cauda, como representação do Futuro, condicionado pelo Passado e contido no Presente, grupos de crianças que, no descanso do préstito, faziam “roda” e cantavam candidamente:

Ciranda, cirandinha!

Vamos todos cirandar! Vamos dar a meia volta, Volta e meia vamos dar!

O alto simbolismo filosófico e patriótico do préstito foi muito gabado pelas pessoas simpáticas à causa de Bentes, sobretudo pelo Diário Mercantil, que viu no fato um ressurgimento do sentimento republicano e nacional. Foi gratuito.

O Rio de Janeiro todo moveu-se para ver o préstito fúnebre; mas era curioso que muitos não o vissem compungidos e não encontrassem nada nele que lhes lembrasse a homenagem que pretendia prestar.

Inácio Costa, com o seu — “À bala” — apoiado em um dos estribos, do alto da sela, olhava com severidade patriótica para as moças que se espantavam com seu vestuário bicolor; e, só na altura do Catete, pode desfazer a carranca, quando cumprimentou sorridente Benevenuto, que via aquele desfile com um assombro de idiota chumbado no rosto.

Pelas bordas do préstito, alguns entusiastas e mais membros da sociedade distribuíam em retângulos de papel os seguintes versos:

AO ALMIRANTE CONSTÂNCIO Esta é a ditosa pátria minha amada

Camões. Canto III XXI

Oh! Pátria! Lugar em que nascemos.

Onde temos amor e amizades!

Escuta o nosso preito de saudades Daquele que faz que nos juntemos!

Nele as vontades portentosas

Dos fortes patriotas se juntaram

E com resplendor nele brilharam do passado as lembranças majestosas. Que o seu nome seja sempre santo Sob o lindo manto do cruzeiro.

Ele que foi grande pregoeiro Da República — termo sacrossanto!

Inácio Costa

Benevenuto leu e releu os maravilhosos versos de Inácio Costa e pasmou. Será possível que aquilo tudo se estivesse passando no Rio de Janeiro? Como é que tanta gente tinha de uma hora para outra mudado tão inteiramente de mentalidade?

O préstito continuava a passar lentamente. D. Florinda com a sua choregiada entoava a canção equívoca do Paraguai e as trombetas, a longos intervalos, faziam: Fué! fon! Fué! fon!

Xandu passou no desfile, sentado sobre o selote de uma “charrua-tílburi”, que governava com a naturalidade e elegância de quem guia um “tonneau” num parque de luxo. Um popular cochichou a outro:

— Por que. ao menos, ele não consertou as rodas?

As rodas cambaias da “charrua”, tão necessárias ao seu serviço normal, intrigavam os habitantes da cidade, estranhos aos trabalhos agrícolas. O préstito lá se foi... Menran pico... fué! fon!... Maenran pico...fué! fon!

Benevenuto deixou o Catete e dirigiu-se vagarosamente ao encontro de Edgarda. Ela lhe havia escrito cheia de desolação. A situação se obscurecia e pedialhe o seu auxílio com mais insistência. Verdadeiramente amava-a, tinha necessidade dela na sua vida e no seu pensamento; mas, sempre lhe foi difícil compreender por que razão íntima Edgarda teimava em fazer figurar o marido como um orador ilustrado. Por meio do marido, parecia, ela dava expansão à sua necessidade de domínio; era ingênuo, porém, fazê-lo. porquanto Numa com a sua irremediável preguiça mental nem ao menos os autores que citava lia e deles compreendia alguma coisa. A sua atonia de inteligência requeria uma artificial alimentação intelectual e esta ainda não havia sido inventada.

Benevenuto era moço de trinta e poucos anos, alto e tinha o olhar miúdo e penetrante. O seu parentesco com a esposa de Numa era por parte da mãe dele, de forma que, por temperamento e pelo sangue, era completamente estranho às competências políticas dos Cogominhos.

Pudera bem ter-se casado com a prima; teria evitado aquele amor às furtadelas; mas não só, quando solteira, passou por junto dela e não a notou, como também percebia que, se o houvesse feito, não teria por ela a ternura de hoje. Não seria a mesma; o casamento tirou-lhe ou lhe deu alguma coisa, e isso que lhe tirou ou lhe deu, é que o atraía para ela.

De há muito quisera dizer-lhe que Numa não podia por muito tempo representar o papel; que era necessário que ficasse na fama; que não forçasse a sagacidade dos outros? Mas vieram essas atrapalhações políticas e o orador do bando de Neves tinha que se manifestar de quando em quando.

(continua...)

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