Por Coelho Neto (1906)
Messias ia dar à bola quando um rapaz moreno, elegante, apareceu protestando contra a pressa. "Que, ao menos, lhe dessem tempo para fazer jogo. Que diabo! Limpassem-no, mas não com tanta ganância. Assim era demais."
— Sempre se espera pela pior figura, murmurou Messias.
— Quem sabe se eu havia de vir para aqui com os pés encharcados, sem tomar uma coisa? A culpa não é minha. Boa noite, meus senhores. E que cognac infame! Passem-me uma coleção. E a primeira bola? — e, espalhando montinhos de fichas, perguntava: Se haviam jogado durante o dia? Como se portara o zero? Quem ganhara?
O tapete estava coberto, mas o jogo crescia na terceira dúzia. Messias impeliu a roleta e a bola, atirada de resvalo, pôs-se a circular; foram depois saltinhos nas baias, aos estalidos. O deputado ainda aventurou dois cartões; o velho, a tremer, deixou umas fichas no 4. Houve um momento de contida atenção — todo o rumor cessara, posto que a bola ainda rolasse. De repente, a uma leve pancada, Messias anunciou:
"Jogo feito!" Aurélio fitou-o, Paulo ergueu-se na cadeira, à espera do número.
— 11.
E o rateau foi raspando fichas e cartões, numa confusão de cores, com um estralar de rocalha. Só o deputado levantou cinqüenta e dois cartões. Paulo insistiu nos seus números e Aurélio afirmou que vira o onze, vira-o, mas não jogava no pequeno.
— 3.
Narciso pôs-se a tossir e reclamou cognac. O número estava quase franco, apenas o companheiro do velho tinha lá uma ficha. Ele próprio acusou o lucro:
— 35 brancas, aqui.
— Sim senhor, seu Barroso, lá vão.
Ao quinto golpe, insistindo o pequeno, Aurélio levantou-se resmungando:
"Que não tinha vergonha. Se tivesse vergonha, nunca mais jogava um vintém. Vivia a engordar banqueiros." Deu uma volta pela sala, rondando Messias; logo porém, que a bola começou a girar, lá tornou ao seu posto. Paulo, sem uma ficha, brincava com os cartões, receoso.
— Não jogas? indagou o sinfonista.
— Estou sem palpite.
— Pois olha, eu é porque fiquei a tinir, senão atirava agora tudo no grande. Paulo tomou um cartão, ia-o levando para a segunda dúzia; ouvindo, porém, o trepidar da bola, numa inspiração, às pressas, nervosamente, espalhou os cinco cartões em vários números da última dezena e recuou, a esmoer o cigarro apagado, d'olhos no tapete. "Jogo feito!" O coração batia-lhe em sobressalto, faltava-lhe o ar e, quando Messias cantou "33!" ele sentiu um abalo de vertigem e respirou.
— 35 cartões, declarou um dos ficheiros.
— Eu disse! — afirmou Aurélio, esfregando as mãos triunfante. Era fatal!
E quando Paulo recebeu o maço de cartões, já resolvido a jogar forte, o sinfonista, roçando por ele, pediu-lhe "alguma coisa pelo palpite..." Paulo amuou. O outro insistiu, humilde.
— Eu não gosto de emprestar cartões, Aurélio; isso traz caiporismo.
— Ó filho, pois tu, um homem de espírito, acreditas em baboseiras! — Baboseiras, não: tenho visto. Enfim...
Passou-lhe dois cartões, e foi o bastante para que desistisse de jogar forte. Pediu uma coleção de fichas. Deu o 31. Trincou o beiço. Teve ímpeto de atirar um murro à cara ossuda e radiante de Aurélio, que levantara 105 fichas. Ele tinha apenas quatro fichas no número — um dos seus números! — e teria aventurado um cartão, talvez dois, se não fosse aquele pedido, que o encabulara.
Intimamente injuriava o glorioso autor do Incréu. Era aquilo sempre, não podia ver um conhecido ganhar. Que diabo! E trêmulo, frenético, bebendo as fichas, ia-as dispondo em ordem, carinhosamente. Junqueira, que estava de azar, volta e meia atirava uma cédula aos ficheiros. O deputado, rindo, atribuía a sua "macaca" à Leontine.
— Sempre que vou à casa do diabo da mulher é isto.
Paulo começava a aquecer-se. Pediu um kummel, disposto a fazer loucura. Não valia a pena estar ali a perder tempo com fichinhas: ou tudo nada; o melhor era atirar de uma vez, e, vendo a calma do Junqueira, que acamava cartões, cercando, com insistência, o 20, arrojou-se carregando no 29 e cobrindo corajosamente os demais números da última dezena.
— 7!
Narciso resmungou uma torpeza, e Barroso, sem tirar o cigarro da boca, mostrou três fichas. Paulo desabafou vendo os seus cartões, as suas fichas rolarem no monte, raspados pelo rateou:
— Estás vendo? Que te disse eu? Justamente quando a sorte começava, vieste com os tais pedidos...
— Ora qual!
— Pois sim, mas nunca me peças dinheiro quando eu estiver jogando. — E tu não me pedes?
Paulo cresceu para o poeta, de olhos chispantes:
— Nunca! Nunca pedi, nem peço! — Ora, não pedes...
Ainda resmungaram. O sinfonista, sorrindo, brincava com as fichas, deixando-as cair d'alto por entre os dedos apinhados. Paulo insistiu no grande, mas quando a roleta amorteceu, Messias, sorrindo, chasqueou:
— Não fale mal da Leontine, doutor... — e declarou com lentidão, arrastando a voz: 17.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.