Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Bem, eu mesmo vou escrever a notícia da tua entrada para Gazeta. Tu tens talento... Eu não me engano. Lembras-te daquela noite no Príncipe Imperial?

— Dois dias depois da minha chegada de S. Paulo.

— Que discurso!

— Qual! Foi uma explosão de entusiasmo.

— Sim, uma explosão... Foi o melhor discurso da noite. Fiquei assombrado, tanto que perguntei ao Sena quem eras e foi quem me apresentou. Não te lembras?

— Lembro-me.

— Então? Tens muito talento. Vais fazer um carreirão. O diabo é a Cascadura...

— Mudo-me.

Um rapaz apareceu à porta e Patrocínio, encarando-o, perguntou:

— Que é?

— O artigo...

— Tem muita pressa? Pois eu não tenho. Quando estiver pronto irá. Olhe, leve daqui esta louça e diga lá ao Silva que não me mande mais bifes como o que veio hoje. Tornou a Anselmo:

— Então amanhã...?

— Amanhã. A que horas...?

— Às nove. Basta que estejas aqui às nove.

— Muito bem. Então até amanhã. Levantou-se e o jornalista, lançando-lhe os olhos à cabeça, perguntou: Você fez algum voto?

Anselmo, compreendendo, disse:

— De pobreza.

— Que diabo! Parece que trazes contigo todas as matas dos subúrbios. Corta esse cabelo. Estás sem dinheiro, não é? Anselmo sorriu. Ah! Queres fazer cerimônia comigo? Estás arranjado. Tirou do bolso uma nota e entregou-a a Anselmo sem olhar. Estamos então combinados: amanhã...

— Às nove.

— Vou escrever a notícia e, com um forte aperto de mão:

— Vamos fazer uma fortuna!

— Até amanhã.

— Até amanhã. Olha o cabelo.

— Vou já ao cabeleireiro. E, com o coração aos pulos, Anselmo desceu as escadas.

Fora, deteve-se algum tempo à porta, indeciso, vendo a gente subir e descer na faina do trabalho ou lentamente, lançando olhares curiosos às vitrinas, com grandes pausas, os desocupados que faziam a sua volta elegante, com ostentação e garbo. Depois lançou-se à rua, seguindo para um cabeleireiro. À entrada, porém vendo a sala cheia, recuou tímido. Não tinha ânimo de sentar-se diante de tanta gente, com uma viçosa cabeleira de nabi.

"Não, corto lá em cima..." disse descendo as escadas. Logo à porta encontrou o Neiva com um rapaz moreno, ereto, muito grave num terno que tinha todas as cores do íris e um chapéu branco que começava a ser cinzento, gravata azul, salpicada de ouro, em grande laço fofo que se derramava, com escândalo, sobre o peito, bengalão, ou antes, cajado e sapatos fuscos. O ar era o de um diplomata, mas o terno... O Neiva abriu os braços exclamando:

— Salve! Onde tens andado, homem de Deus?! Que é feito de ti? Amélia anda inconsolável. Creio até que já se cobriu com um crepe.

Anselmo contou a sua odisséia e o moreno, sempre firme como um poste, enrolando um cigarro, perguntou:

— É o senhor Anselmo Ribas?

— Sim, senhor.

— Não se conhecem?! — exclamou o Neiva.

— Não.

— Ora! Pois então vamos ali ao Cailtau, quero fazer a apresentação em regra.

Caminharam e, ao chegarem à escura confeitaria, o Neiva, batendo em uma das mesas, encomendou três grogues. Sentou-se e, alongando o pescoço, rompeu a rir com grande espanto dos dois rapazes.

— Que é? — perguntou o moreno.

— Que diabo têm vocês na cabeça?

O moreno estava nas mesmas condições em que se achava Anselmo: as cabeleiras desafiavam-se.

— Eu só corto os cabelos no dia em que me empregar, porque então poderei comprar um travesseiro.

— Pois eu vou cortar hoje a minha grenha, porque estou colocado. Podem dispor de mim na Gazeta da Tarde.

— E de mim urbi et orbi, disse o moreno.

— Mas, que diabo, ainda não fiz a apresentação. Este senhor que aqui está, açafroado e firme nos seus princípios, é Fortúnio, de Maceió, poeta lírico em disponibilidade. Morria de tédio na província quando, vendo um paquete prestes a levantar ferro para o Rio, resolveu meter-se a bordo. Como sabe de cor todos os versos que tem escrito, como Bias, não se preocupou com a bagagem. Na Bahia comprou duas laranjas e, a bordo, nem ele sabe como (proteção de Apollo Musagetes), nunca lhe pediram contas. Fez-se amigo de todos e, chegando ao Faroux no bote de uma família, encaminhou-se para a rua do Ouvidor com as duas laranjas.

— Que eram lindas! — exclamou o moreno.

— E vendeu-as no O braço de ouro por mil réis.

— E com esse dinheiro comecei a minha vida.

— E onde foste morar? — perguntou o Neiva.

— Na rua do Regente, com uns amigos de Alagoas.

— E ainda mora lá? — perguntou Anselmo.

— Não, agora não moro. As casas custam um horror.

— O senhor tem um soneto...?

— O Lenço. Já sei que vem falar do verso:

Pando, enfunado, côncavo de beijos...

— Justamente.

— É isso!... Tenho publicado não sei quantos sonetos e só me falam desse...

— É belo!

— E o senhor? Que faz? Quando pretende publicar o seu volume? — Quando Deus quiser.

Falavam quando Patrocínio apareceu afogueado, rindo. Dando com os rapazes, arrastou uma cadeira e sentou-se à mesa, respirando cansado:

— Ah! E você ainda não deitou abaixo a floresta! — disse vendo os cabelos de Anselmo.

— Parte, tornou o Neiva, o cabeleireiro disse que Roma não se fez em um dia. Ele volta amanhã para concluir a derrubada.

Patrocínio sorveu um gole e, depondo o copo, disse recostando-se molemente:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5960616263...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →