Por Raul Pompéia (1881)
O médico, que acompanhava extasiado a estranha dissertação do louco, concentrou-se por momentos, e disse-lhe:
- Esteja tranqüilo, meu amigo, não pense mais nisto; eu vou extirpar-lhe o coração... vou curá-lo. S. Paulo, junho de 1883.
Raul Pompéia
O MODELO DO ANJO
I
Estava aberta a exposição.
O bonito frontispício da Academia de Belas-Artes arregalava as janelas, como grandes olhos satisfeitos, e, com fome pantagruélica, ia devorando a multidão que se lhe enfiava pelo pórtico. A fachada despia-se de sua melancolia de pedra, e parecia abrir-se num vasto sorriso. E as flâmulas e bandeiras fincadas nas cornijas, com que atiravam das suas dobras multicores punhados de alegria sobre os que entravam.
Na área semicircular que existe diante do edifício apertava-se o povo, arquejando aos calores da mais límpida soalheira. Ali suava a impaciência, debatendo-se aos empurrões.
Acabava de ser franqueado ao público o ingresso no edifício.
O imperador, que assistira à abertura da exposição acompanhado dos visitantes de convite especial, tinha já ido embora, feita a sua visita às salas de trabalhos. Chegara a vez de todos. Todos queriam entrar.
Um homem, entretanto, se conservava à distância, e estava parado junto de uma das paredes do conservatório, olhando para o povo.
Era notável pela alvura dos cabelos e das longas barbas, que um sol das três horas varava de cintilações de cascata. Trajava de preto, calça e sobrecasaca, numa correção excepcional. Apesar de encanecido, este homem tinha a pele fresca e pouco enrugada. Não podia ser muito velho. Era simpático e de uma elegância esquisita. A cabeleira ia-lhe aos ombros em duas ondulações reluzentes; as barbas caíam-lhe abandonadas artisticamente à natureza. Tinha uma das mãos no peito, em atitude napoleônica, e a outra segurando ao longo do corpo uma bengala de junco, castoada de prata. Semeava olhares por aquela multidão sufocando-se para entrar no templo das artes. Um sorriso vago passeava-lhe nos lábios:
- Que entusiasmo! murmurou, não me é possível entrar hoje...
Estas palavras, ditas distraidamente, foram ouvidas pelas pessoas mais próximas, que viram-no depois retirar-se andando compassadamente, e desaparecer no Rocio.
O interessante personagem encaminhou-se para a rua do Ouvidor. No adro de S. Francisco de Paula um moço que passava, saudou-o, tirando o chapéu:
- Sr. comendador!...
Pouco mais adiante um homem parou-lhe em frente.
Era Vítor Meireles.
O nosso comendador fez um gracioso cumprimento ao pintor, que, sem preâmbulos, perguntoulhe:
- Então, caro mio, como vai a sua Visão?
- Apenas desenhada...
- Olhe, Giacometo, afianço-lhe que vai ficar um quadro sublime... Já se pode ver pelo croquis... Aquele pequenino túmulo coberto de rosas, meio na sombra!... O jorro de luz celeste que cai da direita, vai dar ao quadro um brilho encantador... As roupinhas transparentes da menina e a túnica abundante e leve do anjo que arrebata a criança através da luz, prestam-se para um ensamble majestoso, não falando nas lindas combinações de reflexos que virão por .... Oh! eu imagino!.. O seu quadro vai fazer barulho... Vamos ver aqui no Rio um painel religioso digno da Renascença...
- Ora, Vítor!...
Qual ora!... Eu não o conheço e você não me conhece?... Quer ouvir o que eu digo?... Entusiasmo e perseverança, que você terá um sucesso...
- Qual! Não espero grande cousa..
- Verá... E depois mande-o à Itália, para experimentar...
- Que homem para dizer cousas bonitas!... Verdade é que você me está animando... Eu hei detrabalhar com gosto, fique certo... Olhe... além do croquis do schizzo que você viu... já executei estudos especiais das figuras... já fiz na tela o desenho do conjunto... Encontrei, porém, uma dificuldade. Falta-me um modelo... Quero dar ao meu anjo um rosto que seja ao mesmo tempo um reflexo deste mundo e do outro; um meio termo entre o idealismo do sobrenatural e a realidade terrena, que faça sentir que o anjo é do céu, mas acha-se na terra; em suma, a fusão da beleza etérea com a beleza que se apalpa. Quero um rosto que preste para receber os toques do meu ideal, uma carinha própria...
- Uma carinha de matar a gente, observou, rindo, Vítor Meireles...
- E não encontro...
- Não é fácil... não é fácil...
- Bem o vejo... Na Itália fora menos difícil. Há muita mocinha para modelo... Aqui está-se comonum deserto... muita moça bonita... modelo... nenhum! Ninguém quer ser...
- Eu tenho um... talvez...
- Bonita?
- Admirável... da cabeça aos pés...
- Que idade?
- Vinte e três anos.
- É muito velha... Em todo o caso, se ela quiser...
- Pagando-se bem, ela quer.
- Se quiser e servir... Onde mora ela?
- Rua... número...
- Hei de vê-la... Preciso ver tudo... Ando sequioso como um conquistador...
- Tem motivos.
Algumas palavras mais trocaram os pintores; depois, cada um foi para sua banda.
O comendador, ou Giacometo, como o chamara Vítor Meireles, entrou na rua do Ouvidor e desceu até à dos Ourives, examinando com interesse o semblante das jovens transeuntes.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.