Por Lima Barreto (1911)
“buffet”:
— Tupaná penê cotê!
Os caboclos respondiam, amuados como crianças teimosas:
— Quelo bebê! Quelo bebê!
E sacudiam a juba de cima dos olhos, das bordas dos copos e os bebiam às dúzias cheios de cerveja. Gostavam mais de “whisky”.
D. Florinda, porém, não desanimava de levá-los às recepções de Bentes e de Bastos, dar-lhe hábitos civilizados; e ambos, muito republicanos e brasileiros, não se podiam negar a receber tão autênticos e autotônicos representantes da pátria. Os hurons, porém, embriagavam-se lamentavelmente.
A parcial incompreensão dos seus atos e desígnios, levou D. Florinda a criar uma aula pública de guarani. Era seu intuito ensiná-lo aos jornalistas, para que, conversando estes com os tupinambás, ficassem certos do seu adiantamento mental e da ciência que tinham armazenado. Os poderes públicos, graças à influência de Bentes, logo viram a grandeza do intento de D. Florinda e deram-lhe a subvenção.
D. Florinda tinha muitos caboclos e sempre aumentavam conforme a sua fortuna. Dentre todos, porém, ela estimava sobremodo um chamado Tupini. Era um índio alto com uma cabeleira de apóstolo; calçava com dificuldade as botinas, e os seus pés debaixo delas eram só ossos. Tinha as pernas arqueadas e o caiapó bem parecia ser familiar à montaria do cavalo. Tupini veio assistir à lição ao lado de D. Florinda. Começou a professora por asseverar que o guarani era a língua mais antiga, mais bela do mundo; e exemplificou:
— Meus senhores, vejam só esta frase: amané saçu enacá pinaié. Sabem o que quer dizer?
O auditório ficou suspenso e D. Florinda explicou:
— O peixe vive no mar.
— Tá eado — gritou Tupini.
D. Florinda voltou-se para o índio e respondeu em guarani:
— Puxiguera che aicó.
— Tá eado — gritou Tupini.
Os circunstantes entreolhavam-se, esperando pela continuação da lição.
— Não é só nessa frase que a beleza da língua se revela. Temos outra: meu mameara cê necê — que quer dizer: minha noiva é bonita. Tupini disse devagar:
— Tá eado.
— Tupini! Tupini! Não queira emendar-me!... Esta é a língua de outra tribo. Xerêrê corê!
— Tá eado.
Os discípulos foram um a um saindo e a lição não foi adiante naquele dia.
Aproveitando os seus conhecimentos do guarani e a malta de caboclos que tinha, cansada de simples recepções de pessoas importantes no momento, D. Florinda fundou a sociedade destinada a cultuar a memória do almirante Constâncio, tio de Bentes.
Ainda dessa vez, ela ia ao encontro de uma corrente popular. Desde que a fortuna de Bentes começara a brilhar, a lembrança de seu tio veio de novo a certas pessoas já totalmente esquecidas. Nos dias de finados ou no do aniversário da morte de Constâncio, o seu túmulo ficava coberto de cartões de visitas, registro piedoso dos seus amigos, e dos do sobrinho também, sempre lembrados do almirante.
No aniversário do falecimento do almirante Constâncio, D. Florinda, após os trabalhos preliminares e obter auxílio dos poderes públicos organizou o préstito mais votivo e comemorativo dentre os muitos que tem visto o Rio de Janeiro.
As tribos dos Munducurus, Caiapós, Omaguas, Pataxós Kaingangs, Tamoios, Carijós, Charruas, Xavantes e outras apareceram e foram representadas por comissões vestidas a caráter tendo os respectivos estandartes: folhas de palmeiras, de bananeiras, remos de canoas, capivaras empalhadas; e, ao centro, num caminhão, reclinado sob um bananal verdejante, Tupini, de cocar e enduape, arco e flecha ao lado, pernas nuas, coxas nuas, peito nu e braços nus — o rei da floresta brasileira, que marchava para o túmulo do almirante inesquecível.
Músicas militares, de espaço em espaço, tocavam elegias; os lampiões de gás semi acesos, cobertos de crepe, davam um ar fúnebre às ruas; e D. Florinda, com a sua choregiada de caboclos entoava nos intervalos um fúnebre hino tupi.
E jo mi rean
Maenram pico?
E jo tenan
Apu ma nico
Ao acabar a quadra, todos, a uma só voz, repetiam:
Maenran pico?
Maeran pico?
Pela turba passava um estremecimento religioso e trombetas fanhosas e agudas estridulavam sinistramente. E continuavam:
Eguapi napê...
Maenran pico?
Eguapi tenon!
Aguapi ma nico
Mal terminavam de cantar a quadra, o coro repetia em longa e profunda toada:
Maenran pico
Maenran pico
De novo as trombetas guinchavam e o préstito caminhava lentamente, em direção ao cemitério. Houve quem dissesse que o hino de D. Florinda era uma canção erótica de origem paraguaia; entretanto, esse detalhe não foi notado e os adeptos de Bentes muito prezaram tão bela homenagem à memória de seu tio.
Esse aspecto caboclo não foi o único da singular manifestação fúnebre que D. Florinda organizou. Os caboclos, convém dizer, ao cantar — E jo mi rean dançavam, sacudiam a juba e faziam roda ao chegar o coro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.