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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

— Deixa lá, Aurélio, há de chegar o teu dia. O diabo é essa asma que te arrasa. Mas não importa! Hás de ainda de passar aqui pelo Rocio num andor, com uma coroa como a de Camões, e nós lá estaremos à janela, com flores. Hás de ter o teu dia... Mas vê lá essa tosse, isso é que não vai bem.

Os ficheiros riram com estardalhaço e os olhos do Messias apertaram-se ainda mais. Aurélio, com a pilhéria do andor, ficou apoplético e bramiu:

"Não rissem. Lá isso de andor era uma história, mas a baboseira havia de acabar, a Arte Nova aí vinha, sonora e rica, luminosa e forte, veriam! O povo havia de convencer-se de que tudo aquilo não valia os bocejos que provocava e a verdadeira, a pura Arte seria largamente indenizada." E confessou que não desanimava, que havia de trabalhar sempre, com fé: tinha no fundo da gaveta dois poemas e outro romance, além do Incréu, cuja tese era a emancipação da mulher, com um protesto contra o celibato clerical.

— Hás de ter a tua estátua, Aurélio; afirmou Messias estalando os dedos.

— Não me preocupo com banalidades — retorquiu o poeta, abafando um acesso de tosse. E já se dispunha a dar um "pálido esboço" da sua grande tese feminista, quando Junqueira apareceu com um homem gordo, de óculos escuros, ferozmente carrancudo e barbado.

Messias, esquecendo o grande artista, levantou-se risonho, muito amável com o Junqueira que murmurava contra o tempo insípido. O gordo reclamou, com pressa, um cálice de cognac que um dos ficheiros logo serviu, açodado e sorrindo.

Era deputado por um dos Estados do Norte. Na Câmara encaramujava-se num silêncio obstinado, contentando-se em dar o seu voto de grande peso nos destinos da Nação. Fora, alijando a gravidade legislativa, era homem alegre e de aventuras — tinha amores, freqüentava assiduamente os cassinos e, uma vez por outra, palpitando, subia sorrateiramente à batota para fazer medrar uns restos escassos do subsídio, e era à mesa dos chopes ou com os cotovelos no pano verde que lançava as suas opiniões sobre a crise financeira, propugnando a necessidade da revisão e duma esquadra que vigiasse os mares.

Paulo, com a chegada do Junqueira e do deputado, animou-se, certo de que o jogo começaria logo, tão impaciente estava por aplicar os planos que imaginara. Aurélio convidou-o para uma partida ao bilhar, logo, porém, Messias anunciou "que iam começar". Paulo aventurou timidamente:

— Mas não há pontos.

— Como não? Para começarmos há o senhor, o Junqueira, o doutor e aqui o nosso Aurélio, que também joga. Não arriscas um pouco, poeta?

— Sim, um pouco, — murmurou complacente, atirando uma tacada.

Os ficheiros passaram à sala da roleta e Messias, no seu andar de palmípede, lá os foi seguindo, vagarosamente.

Chegavam outros pontos subindo as escadas com rumor. Por uma janelinha, ao fundo da sala do jogo, aberta sobre o telhado, esfuziava um vento áspero. Messias fechou-a declarando, com a sua voz macia e imperturbável: "Que chovia a potes". Em torno da roleta empilhavam-se fichas de várias cores e ao lado de Messias acastelavam-se maços de cartões.

Enquanto esperava, Paulo, indo e vindo, consultava-se: Se devia começar jogando forte, fazendo paradas atrevidas que, em dois ou três golpes, o levantassem; se devia insistir no joguinho manhoso, sem comprometer-se, até conseguir um bom lucro para atirar-se, então, afoitamente. Acercou-se de Messias, que já assumira o seu lugar à banca e, com a mão no bolso, acariciava as notas, olhando, ora as fichas, ora os cartões, indeciso, quando os dois outros pontos entraram, vociferando contra a noite estúpida.

Não os conhecia; logo, porém, notou que eram íntimos pela liberdade com que tratavam o banqueiro. Um deles, já velho, abrindo a bojuda carteira, pediu cem fichas; o companheiro contentou-se com a metade. Junqueira e o deputado pediram cartões. Aurélio esgueirou-se sorrateiramente com a coleção das vermelhas e foi sentar-se à cabeceira da mesa para esperar no grande. Na sala do bilhar havia mais gente e Messias voltava-se de quando em quando para espiar; por fim fez soar a campainha que retiniu longamente. De fora bradavam: "Já vamos!"

— É o Narciso, está no cognac, — disse Messias escolhendo uma bola.

Um dos ficheiros foi à lousa marcar o tempo da banca: 8 e 40. A roleta girava, macia e silenciosa. Paulo estendeu uma nota de cem mil-réis.

— Uma coleção.

— Tudo?

— Metade.

— Quer o troco em cartões?

— É indiferente.

— Para a terceira dúzia, não? Eu levo.

E o ficheiro, empilhando as fichas de madrepérola sobre cinco cartões, deixou-as à cabeceira da mesa. Aurélio, que calculava, levantou a cabeça:

— Vens jogar cá em cima?

— Sem dúvida. Sou fiel aos meus números.

— Deus queira que estejas com a sorte de ontem.

Junqueira e o deputado iam ladrilhando a cartões a segunda dúzia. O velho espalhava salteadamente, acompanhando um setor e o companheiro, muito atento, com o cigarro amolecido nos beiços, hesitante, passeava uma ficha de casa em casa, como se jogasse as damas.

(continua...)

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