Por Coelho Neto (1890)
Raul, que acompanhara toda a cena sem intervir, sussurrou humildemente:
— Comigo não foi.
— Ó senhores, pelo amor de Deus, que mais querem vocês? Estou aborrecido, mas é disto! E, avançando impetuosamente para a porta, mostrou, num gesto largo, a paisagem quieta, ao sol, e as cabras que iam lentamente com as crias ao longo da estrada deserta e sem sombra. Isto é que me enfastia, é esta coisa reles... Preciso sair daqui, senão estouro. É hediondo tudo isto. Hediondo!
O silvo de uma locomotiva atravessou os ares mornos. Anselmo tomou o chapéu:
— Adeus.
— Então até logo.
— Até logo.
— Não vais zangado?
— Não vou, homem.
— Palavra?
— Palavra. Adeus, Raul! E, tomando a bengala, como a casa distasse muitos metros da estação, deitou a correr pela estrada poente ao sol dourado e quente da manhã gloriosa.
CAPÍTULO XII
Chegando à cidade, ao influxo da grande vida, resfolegou desafogadamente. Saía como de um balseiro ganhando a corrente impetuosa de caudaloso rio que o levava para o além, no curso formidável e irredutível das suas águas e seguiu com a multidão, no enxame fervilhante dos que se encaminhavam pressurosos para o trabalho, à luz alegre de um sol vivo de janeiro.
Para chegar mais depressa ao seu destino, tomou o primeiro bonde que descia, cheio. Estava desconfiado, tímido como se entrasse em país estranho. Parecia-lhe que comentavam a sua pessoa e pôs-se a evitar os olhares, vexado. Devia ser por causa do cabelo muito crescido, que lhe chegava ao colarinho. Passou a mão pela nuca disfarçadamente, mas ninguém lhe prestava atenção E o bonde rodava rápido.
No largo de S. Francisco a multidão atarantou-o. Esperou que o povo escoasse e seguiu atordoado para a rua do Ouvidor. No escritório da Gazeta da Tarde, perguntando por Patrocínio, Um homenzinho magro, de olhos miúdos, fez um aceno preguiçoso com a cabeça como a dizer-lhe que subisse.
Empurrou a porta gradeada e passou, subindo à redação. Um rapaz alto, vesgo, caído sobre a larga mesa central, consultava uma coleção de jornais, outro revia notas, de pé diante de uma secretária. Ambos voltaram-se ouvindo-lhe os passos.
— Senhor José do Patrocínio?
— Está ocupado, disse o vesgo. Quer alguma coisa da redação?
— Desejava falar com ele mesmo.
— Está escrevendo o artigo. Em todo o caso entre... É ali ao fundo, uma salinha.
Agradeceu e encaminhou-se. Subiu dois degraus que levavam à salinha indicada e deteve-se surpreso. O jornalista estava diante de uma pequena mesa, terminando o almoço. No chão jazia uma lata aberta e, sobre a mesa, ao lado dos pratos, a pasta, os livros, um maço de tiras, cigarros. Dando com Anselmo, o jornalista passou rapidamente o guardanapo nos beiços e, sorrindo, estendeu-lhe a mão.
— Ah! Meu amigo, desculpe-me. Estou hoje nos meus dias de trabalho, nem tempo me sobra para almoçar... depois, nos hotéis perde-se tanto tempo! Mandei vir isto e aqui, neste refúgio onde me escondo dos cacetes, fiz o meu almoço. Derreouse na cadeira de mola: Cesário! Traze daí uma cadeira. Então, que há de novo?
Como vamos de versos?
— Não faço versos.
— Ah! Pois não... Pensa que não leio? Sei dividir o meu tempo, meu amigo, também nem só de política vive o homem, sentenciou. Também leio. Com licença.
Levantou-se, impaciente, foi à sala da redação e voltou com uma cadeira. Isto aqui é assim. O meu criado sou eu. Sente-se. Ofereceu cigarros e, muito amável, cruzando as pernas, tornou, desmanchando um cigarro:
— Então...? Que há de novo?
— Vim pedir-lhe um lugar na redação da Gazeta, se for possível.
— Se for possível...? — exclamou.
— Posso escrever umas crônicas ligeiras, um ou outro artigo...
— Quê! Um ou outro...?! Você vem mas é substituir-me, isto sim!... Eu mesmo preciso de um homem que me descanse porque, com essa história do artigo diário, nem tempo me sobra para cuidar dos interesses da folha. Chego de casa às oito da manhã e aqui fico até às duas da tarde enchendo tiras e aturando um mundo de importunos. Agora com você aqui a coisa vai ser outra... olá! Escrevo o artigo, entrego-te a folha e vou cuidar da vida. Inclinou-se e, atraindo Anselmo, disse-lhe, como em segredo: Isto é jornal para dar uma fortuna, mas eu não posso fazer nada, estou preso... Tendo, porém, um homem que queira trabalhar comigo, que queira trabalhar...! — repetiu arregalando o. olhos e concluiu: fazemos fortuna! Você quer trabalhar?
— Quero.
— Pois vamos fazer uma folha. Quando começas?
— Amanhã.
— Está feito. Onde estás morando?
— Em Cascadura.
— Que é isso, homem de Deus!?
— Que quer? Tenho lutado com as maiores dificuldades. Estou lá com amigos.
— Não, mas precisas descer.
— Vou ver um cômodo.
— E a questão do dinheiro? Anselmo sorriu dando de ombros. Não, é essencial — um homem de talento como você precisa de dinheiro. Eu, com o bolso vazio, sou incapaz de escrever uma linha. Isto de fingir indiferença pelo dinheiro é esnobismo. Por enquanto não te posso dar muito, mas... duzentos mil réis, servem? — Perfeitamente. — Vê lá!
— Perfeitamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.