Por Raul Pompéia (1888)
Franco, sobretudo, estava de um contentamento nunca visto. Casualmente em liberdade, por não ter havido leitura das notas, fazia da circunstância uma pirraça contra o Silvino: “Eu é que sou o mau”, repetia andando à roda, “eu é que sou o bandalho, a peste do colégio!... O mau sou eu só!...” Silvino foi gradualmente perdendo a paciência. Atirou-se por fim ao Franco, desesperado, lançou-o à terra, meteu-lhe os pés. Alguns rapazes protestaram com gritos, Silvino ameaçou. Fogosos da exaltação desordeira do passeio da véspera, que por momentos dominara o terror do processo, reuniram-se em massa contra o Silvino. O inspetor salvou a força moral refugiando-se no alto da escada e fazendo de cima trejeitos enérgicos com a carteira e o lápis.
À tardinha, em nome do diretor, foram convocados a castigo os cabeças do motim.
Eu no meio. Fomos alinhados vinte e tantos no corredor que partia do refeitório. Na qualidade de presos políticos, vitimas de generosa sedição, não nos vexava a penitência. Uns conversavam gracejando, outros sentavam-se no soalho. Junto de mim ficava um armário dos aparelhos escolares, revestindo-se a vidraça de uma tela protetora de metal. Através do arame, na última luz vespertina, eu espiava lá dentro os queridos planetas de vago brilho, como a noite encarcerada ainda.
Por trás do armário, havia uma porta. Conversavam do outro lado, na sala das visitas, Aristarco e o guarda-livros. Chegavam-me palavras perdidas “... De boa família dois, um descrédito! Vão pensar... Expulsar não é corrigir... Isto é o menos; não há gratuitos?... Sim, sim. Quanto a mim... desagradável sempre riscar... borra a escrita... Em suma... mocidade...”
Acabavam de acender a iluminação do Ateneu.
Decididamente, era um dia nefasto. Do corredor, ouvimos enorme barulho no pátio. Recomeçavam as vaias. Protegidos pela noite, mostravam-se mais alvoroçados os rapazes. Era um tumulto indescritível, vozear de populaça em revolta, silvos, brados, injúrias, em que os gritos estrídulos dos pequenos destacavam-se como arestas da massa confusa de clamores.
Os inspetores chegaram aterrados a procurar o diretor, mostrando a cara salpicada de verrugas vermelhas. Adivinhei. Era a revolução da goiabada! Uma velha queixa.
A comida do Ateneu não era péssima.
O razoável para algumas centenas de tolinhos. Possuía mesmo o condimento indispensado das moscas, um regalo. Mas aborrecia a impertinência insistida de certos pratos. Uma epidemia, por exemplo, de fígados guisados, o ano todo! Ultimamente, havia três meses, a goiabada mole de bananas, manufatura econômica do despenseiro.
Aristarco empalideceu de despeito. Visava-o diretamente a desaforada insurreição. E isto no mesmo dia em que fizera espetáculo da justiça tremenda. Não quis, entretanto, arriscar o prestigio. Vimo-lo no corredor, incerto, sem sangue, mandando que voltassem os bedéis a acalmar.
Torturava-o ainda em cima o ser ou não ser das expulsões. Expulsar... expulsar... falir talvez. O código, em letra gótica, na moldura preta, li estava imperioso e formal como a Lei, prescrevendo a desligação também contra os chefes da revolta... Moralidade, disciplina, tudo ao mesmo tempo... Era demais! era demais!... Entrava-lhe a justiça pelos bolsos como um desastre. O melhor a fazer era chimpar um murro no vidro amaldiçoado, rasgar ao vento a letra de patacoadas, aquela porqueira gótica de justiça!
Quando informaram qual o motivo das assuadas, saiu-lhe um peso do coração! “Ah! Tinham motivo... Mas aquilo era patota do despenseiro... Pedras que lhe atirassem seria pouco... Mas não tinha culpa... Era indústria secreta a goiabada de bananas!...”
A sineta, chamando à ceia, pacificou os ânimos. Espalhou-se que Aristarco rendia-se à revolta e ia falar.
À mesma porta em que aparecera formidável de manhã, surgiu-nos transformado, manso, liso como a própria cordura e a lealdade; altivo, contudo, quanto comportava a submissão.
“Mas por quê, meus amigos, não formularam uma representação? A representação é o motim reduzido à expressão ordeira e papeliforme! Qual a necessidade da representação por assuadas? Têm todos razão... Perdôo a todos... Mas eu sou tão enganado como os senhores... Até hoje estava convencido de que a goiabada era de goiaba... A verba consagrada é para a legitima de Campos... Nesta casa não há misérias!... Quando alguma coisa faltar, reclamem que aqui estou eu para as providências, vosso Mestre, vosso pai!... Legitimo cascão de Campos... Aqui têm as latas... Mais latas!... leiam o rótulo... Como podia eu suspeitar...”
Enquanto o diretor falava, ia-lhe um copeiro amontoando em torno quanta lata vazia encontrou na copa. Grandes caixas redondas de folha, espelhantes como luas, com o letreiro em barra. Aristarco mirava-se nos luminosos documentos da sua inteireza. “Legitimo cascão! legitimo cascão, meus senhores!” garantia, tamborilando com os nós dos dedos numa tampa.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.