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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

"O coração produz, na família, o enamorado, um tolo; na sociedade, o herói, outro tolo; na literatura, o sentimental, outro tolo; na filosofia, o melancólico, mais um tolo...

"Enamorado, herói, sentimental, melancólico, tudo gira numa vertigem de ridículo, debaixo do grande olho positivo, que ri, como quem vê arder a barba do vizinho, e vai deduzindo em silêncio as gordas e proveitosas normas da experiência.

- "Savoir vivre!...

"O coração é o pai do ridículo pungente. Há quem ache graça no idiotismo e na asneira. Isto é o ridículo banal e fútil.

"Ridículo miserável, profundo, é o das vítimas do coração. É o ridículo propriamente dito; é o ridículo humano.

"Pôr um termo a este mal parece-me um dever elementar da ciência. Sabe-se que a origem do mal aí está palpitando, por entre a quarta costela e a quinta.

"A medicina reflita...

"Tanto mais que não é só o fato objetivo do ridículo que condena o coração. É, ainda mais, o fato subjetivo dos sofrimentos rudes que causa a víscera a quem a traz, cada vez que dá em espetáculo às gargalhadas positivas uma fraqueza e uma tolice da criatura humana.

"Não há nada mais salutar do que o riso. Entre outras vantagens, tem a grande vantagem de não ser a lágrima.

"O riso é a mais agradável manifestação do positivo.

"Quem solta a gargalhada, tem a superioridade de não ser o palhaço.

"Riamos, com os diabos!... Vale mais mofar do que ser mofado.

"No circo da vida, a gargalhada ocupa as arquibancadas anfiteatrais. No meio, faz caretas e macaquices o grotesco, o ridículo, o náufrago da víscera.

"O homem que ri, está fora do picadeiro. Cuidado com a víscera, que ainda leva-te para dentro!...

"É preciso, portanto, que se resolva um meio de abolir o risco de rolar da arquibancada.

"É o que eu procuro.

"Quem sabe bem rir, não cria tropeços à própria liberdade.

"Há uma cousa que chama-se o amor, e uma cousa que apelida-se o ódio. A liberdade positiva tem os pulsos ligados por essas duas algemas. Descubram a outra ponta da cadeia, que hão de encontrá-la soldada ao maldito fole do sangue.

"O amor faz a fidelidade, a dedicação, o cativeiro voluntário e outras cousas que a linguagem, com o seu modo astucioso de resolver as dificuldades, denomina virtudes; faz também, transformando-se por movimentos reflexos, ou paralelos de espírito, o que se chama a indignação, a revolta, o ciúme, a vingança, o ódio, enfim; e certas cousinhas que ainda a linguagem, sem grandes argumentos, especializa com o rótulo de vícios.

"Tudo isso é uma série de algemas, que prendem duma ou doutra sorte. Apaixonado significa acorrentado. Quem ama, prende-se; quem odeia, prende-se. Só é livre quem ri.

"Por isso é que o riso é salutar e raro.

"A gargalhada é essencialmente filha do cérebro. É livre como o sátiro do bosque.

"Viva a gargalhada!

"Quem dá vaias, não as leva.

"É a grande garantia da gargalhada. Contra esta garantia existe a víscera-fole. Risque-se a víscera, em nome da liberdade, ou ao menos em nome da seriedade positiva da vida.

"Dizem que Molière é a comédia... Eu não penso assim. Moliêre escreveu o drama dos idiotas, encenou a parvoice fútil. Para mim, a comédia, a comédia real veio de Inglaterra com aquele pobre Romeu, que passava noutes a cantar serenatas embaixo da varanda da namorada, entoando com os galos; ou ia de madrugada subir por escadas de corda, sem pensar no papel que faria, se a polícia o agarrasse como um gatuno.

"Cômico, para mim, é o furibundo barba-azul do Otelo, que seria um tanto mais brando, se temesse o código. Cômicas são todas essas caricaturas de malucos, engendradas pelo poeta psicólogo inglês.

"A comédia de Shakespeare é na verdade triste. Mas é triste, porque é real; e é triste somente para quem não sabe rir dessa cousa tola chamada paixão.

"Comparados Romeu e D. Juan, o nosso Romeu não passa de um principiante, que não entende do riscado, e que ainda suspira, à luz de alvoradas, como a gata ao cio.

"É que D. Juan sabe rir.

"Certo é também que na comédia de Shakespeare há sangue; mas isso não obscurece o grotesco.

"Triboulet, que começa por fazer rir, acaba por fazer chorar.

"De mais, o sangue da comédia inglesa é a última conseqüência da ridícula soberania do fole circulatório. É requinte sui generis do desfruto.

"Quando aquela gente suicida-se, ou cai assassinada e mesmo quando assassina, ouve-se o bom senso positivo, burguês e prático dizer: - pobres diabos!

"O positivo é que é o verdadeiro. É preciso conciliar-se tudo com ele.

"As nevroses constituem a praga da humanidade.

- Guerra às nevroses!

"A cidadela das nevroses é a famosa víscera.

"Arrasemos a cidadela!

"Sim, meu caro doutor, já é tempo de lançar-se mão aos freios da estafada cavalgadura de D. Quixote, que vai desastradamente passeando a gesticulação ossuda do seu entusiasmo cavalheiresco, por entre a vaia das gerações!

"Já é tempo de suspender-se este espetáculo do cavalheiro da Mancha, eternamente bom, mas eternamente tolo!..."

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(continua...)

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