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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1673)

Cristãos, e senhores meus, se quereis morrer bem (como é certo que quereis) não deixeis o morrer para a morte: morrei em vida; não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama: morrei na saúde, e em pé. E se quiserdes para esta grande empresa um corpo, ou hieroglífico natural, não notado por Plínio ou Marco Varro, senão por autor divino e canônico, eu vo-lo darei. Foi notar S. Judas Tadeu naquela sua admirável epístola, que as árvores morrem duas vezes: Arbores autumnales, infrutuosae, bis mortuae.9 A primeira vez, morrem as árvores em pé, a segunda deitadas; a primeira, quando se secam; a segunda, quando caem. Platão disse que os homens são árvores às avessas, e eu acrescento que, se morrerem como as árvores, serão homens às direitas. Na árvore, enquanto lhe dura a vida, ou a verdura, tudo são galas, tudo pompa, tudo novidades; morre finalmente a árvore com o tempo a primeira vez, e daquele corpo tão formoso e vário, que vestiam as folhas, que guarneciam as flores, que enriqueciam os frutos, não se vê mais que um cadáver seco, triste e destroncado. Neste despojo de tudo o que tinha sido, presa ainda pelas raízes, e sustentando-se na terra, mas não da terra, espera a árvore em pé a última caída, e esta é a segunda morte, com que de todo acaba. Assim deve acabar antes de acabar, quem quer acabar bem. Quantas primaveras têm passado por nós, quantos verões, e quantos outonos, e pode ser que com menos fruto que folha e flores! O que fazem os anos nas árvores, bem o puderam já ter feito em muitos de nós os mesmos anos. E é bem que a razão e o desengano o faça em todos, pois são mais fracas as nossas raízes. Espereinos mortos pela morte, e esperemo-la em pé, antes que ela nos deite na sepultura. Oh! ditosa sepultura a daqueles na qual se possa escrever com verdade o epitáfio vulgar do grande Escoto: Semel sepultus, bis mortuus: Uma vez sepultado, e duas morto.

§IV

Segunda condição da morte: ser incerta. O pedido de Davi e a morte de Josias. Catão e o oráculo de Júpiter. Declarações de S. Paulo. O edito de Amã, condenando à morte os hebreus. S Pedro e a incerteza da morte. O despacho de Davi poderia ser atendido por ele próprio.

Vencida assim esta primeira dificuldade de ser a morte uma, segue-se a segunda, não menos perigosa, nem menos terrível, que é o ser incerta. Certa a morte, porque todos certa e infalivelmente havemos de morrer; mas nessa mesma certeza, incerta, porque ninguém sabe o quando. Repartimos a vida em idades, em anos, em meses, em dias, em horas, mas todas estas partes são tão duvidosas e tão incertas, que não há idade tão florente, nem saúde tão robusta, nem vida tão bem regrada, que tenha um só momento seguro. Perplexo no meio desta incerteza, e temeroso dela, Davi fez esta petição a Deus: Notum fac mihi, Domine, finem meum, et numerum dierum meorum, ut sciam quid desit mihi (Sl. 38, 5): Senhor, não vos peço larga vida, mas estes dias poucos, ou muitos, que hei de viver, peço-vos que me digais quantos são, para saber o que me resta. – Assim o pediu Davi, mas é a lei da incerteza da morte tão indispensável, que nem a Davi o concedeu Deus. Era Davi aquele homem que com verdade dizia de si: Incerta et oculta sapientiae tuae manifestasti mihi,11 e manifestando-lhe Deus todos seus segredos, e as outras coisas mais incertas e ocultas de sua providência, só o incerto e oculto de sua morte lhe não quis revelar. Tão reservado é só para Deus o certo desta incerteza.

(continua...)

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