Por Padre Antônio Vieira (1647)
Latus ejus. Se esta segunda palavra não limitara ou ampliara a primeira, grande oposição se nos oferecia nela contra tudo o que temos dito e nas resta por dizer. Cristo na cruz estava com título e representação de rei, mas não de rei universal, que era de todo o mundo, senão de rei porticular de uma nação: Rex judeorum. E não há graças mais dificultosas e duras de conseguir que as que dependem dos lados dos reis: Latus ejus. Olhemos bem para esta figura exterior, e veremos nela uma imagem natural do que os vassalos têm nos reis, e do que padecem com os lados. Primeiramente, no estado em que Cristo se achava na cruz, tudo o que pertencia ao rei estava feito; só o que corria por conta do lado estava por fazer. O que houve de fazer o rei, era pedir perdão pelos inimigos, e já estava pedido; era dar o paraíso ao ladrão penitente, ejá estava dado; era entregar o discípulo à Mãe, e a Mãe ao discípulo, e já estavam entregues; era beber ou gostar o fel, e já estava gostado; era principalmente remir o mundo, e já estava remido. Enfim, tudo o que tocava ao rei estava feito: Consummatum est (Jo. 19, 30). Ao lado pertencia dar os sacramentos, e só isso estava por fazer. O rei estava patente a todos com quatro portas abertas: duas para os inferiores, nos pés, e duas para os mais altos, nas mãos; e os lados no mesmo tempo estavam fechados por uma e por outra porte, sem haver por onde entrar, nem penetrar a eles. O corpo estava ferido e lastimado, e só os lados sãos e sem lesão alguma. Nem chegaram lá os golpes dos açoites, como às costas; nem os carregou o peso da cruz, como aos ombros; nem os rasgava ou suspendia a dureza dos cravos, como aos pés e mãos; nem os molestava o estirado e desconjuntado dos membros, como aos nervos e ossos; nem os atenuava o vazio e exausto do sangue, como às veias; nem os amargava o fel, como à boca; e o que é mais que tudo, nem os picavam os espinhos, como à cabeça, tendo tanto da coroa. Finalmente, o que excede toda a razão e toda a admiração, é que estava junto e recolhido nos lados tudo o que faltava ao rei. De duas coisas padeceu Cristo extrema falta no Calvário: falta de sangue e falta de água. Faltou-lhe o sangue, porque o tinha derramado ali e em tantas outras partes; faltou-lhe a água, porque da mesma falta de sangue se seguiu aquela extraordinária sede que o obrigou a dizer: Sitio.11 É porém muito de notar, que quando se abriu o lado, do mesmo lado saiu sangue e água: Exivit sanguis et aqua. Pois se o rei padecia tanta falta de sangue e tanta falta de água, como agora lhe sai do lado sangue e mais água? Porque tudo o que falta aos reis está junto e recolhido nos lados. Oh! se houvesse, não digo uma lança, ou uma lançada, senão uma chave mestra que abrisse estes lados, como é certo que achariam neles junto os reis, ou tudo, ou grande porte do que lhes falta, e que fazendo dois atos de justiça em um mesmo ato, poderiam socorrer, remediar, e ainda enriquecer a muitos com o que não basta a poucos.
Estes são os lados dos reis, mas não assim o lado de Cristo. Passemos do exterior da alegoria ao interior da realidade. Latus ejus. Toda a diferença de lado a lados está na limitação do ejus: dele, de Cristo. Os lados dos reis da terra dilatam, porque não querem fazer; o lado de Cristo dilatou para poder fazer mais do que estava feito. Os lados dos reis, estando todo o corpo chagado, só eles se vêem sãos; o lado de Cristo esteve são, para ser ele o mais chagado, antes a maior chaga de todas. Os lados dos reis fecham-se porque se não querem comunicar; o lado de Cristo esperou fechado para se comunicar com maior abundância, e para ficar sempre aberto. Finalmente os lados dos reis ajuntam em si, e para si, tudo o que falta aos reis; o lado de Cristo ajuntou em si, mas para nós, tudo o que sobejou a Cristo. Notai muito.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 30 ago. 2026.