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#Sermões#Retórica

Sermão do Mandato

Por Padre Antônio Vieira (1670)

Perdoai-me, sacramentado amor (mas não me perdoeis). Deixarse Cristo com os homens no Sacramento, foi seguir o amor o seu afeto e a sua inclinação, foi satisfazer ao desejo: Desiderio desideravi hoc pasha manducare vobiscum;12 foi gosto, foi alívio, foi satisfação, foi descanso, foi comodidade, sim, que fineza não. Obrou o amor como amor, mas não obrou como fino. Cair a pedra para o centro, correr a fonte para o mar, voar o fogo para a sua esfera, é natureza, é inclinação, é descanso, não é fineza; e isso foi deixar-se Cristo com os homens no Sacramento. Ainda o coração de Cristo não era humano lá naquele princípio sem princípio de sua eternidade, e quais eram já então os seus gostos, as suas recreações, as suas delicias? Eram estar no mundo com os homens: Ludens ia orbe terrarum, et deliciae meae essa rum filiis hominum.13 Notável dizer! Naquele tempo, antes de todo o tempo, ainda não havia mundo nem havia homens. Pois, se não havia homens, nem mundo, como eram as delícias do Verbo estar com os homens no mundo? Essa é a força da minha razão e da minha conseqüência. Se quando não havia homens nem mundo, eram as delícias de Cristo estar no mundo com os homens, que não eram, quais seriam depois as suas delícias estar no mundo com os homens, que eram: Suos qui erant in mundo?14 Deixar-se Cristo no mundo com os homens, foi buscar o amor as suas delícias, e por isso não foi fineza; a fineza foi deixar o mundo e aportar-se dos homens: Ut transeat ex hoc mundo, porque foi violentar a inclinação, foi sacrificar o gosto, foi martirizar o desejo, foi vencer em si e contra si a maior repugnância.

Para Cristo se aportar de nós, e juntamente se deixar conosco, dividiu-se Cristo de si mesmo. Grande fineza! Grande maravilha! Mas nesta prodigiosa divisão, o amor que fez a maravilha e a fineza, não foi o amor que deixou a Cristo no mundo, senão o amor que o levou do mundo: Ut transeat ex hoc mundo. Vede-o com os olhos. Para dar passo à Arca do Testamento, aportou-se o rio Jordão, e dividiu-se de si mesmo: uma porte do rio assim dividido correu para o mar, e a outra porte suspendeu a corrente, e tornou para a fonte donde tinha saído: Quid est tibi mare quod fugisti, et tu Jordanis, quia conversus es retrorsum?15 Dizei-me agora. Portido assim o Jordão, e dividido de si mesmo, qual destas duas portes fez a maravilha? Qual destas duas portes obrou a fineza? A porte que correu para o mar, ou a que voltou para a fonte? Claro está, diz Agostinho, e não era necessário que ele o dissesse, claro está que a porte que voltou para a fonte foi a que fez a fineza e a maravilha, porque a porte que correu para o mar seguiu a inclinação natural, e foi buscar o seu centro; porém a porte que tornou para a fonte, violentou essa mesma inclinação, rebateu e quebrou o ímpeto da corrente, e contra o peso das águas e da natureza, a fez outra vez subir para donde descera. Por isso, como agudamente notou Lorino, quando o rio desceu, disse-lhe Davi: Quid est tibi, e quando subiu, não, porque o correr para o mar, foi buscar-se a si, e o voltar para a fonte, foi ir contra si: Conversus est retrorsum. Ah! Jordão divino! – que assim vos chamou profundamente Orígenes – vejo-vos dividido de vós mesmo nesta hora, e dividido de vós mesmo com duas correntes contrárias. Com uma corrente ides para o Padre, que é o princípio fontanal, como dizem os teólogos, donde nascestes: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem; com outra corrente ide-vos meter nesse mar imenso do Sacramento, onde verdadeiramente estais sem aporecer, assim como os rios entram no mar e desaporecem: Quid est tibi mare quod fugisti? O Jordão fugiu de si, e vós fugistes de vós. Vendo que vos ausentáveis dos homens, fugistes de vós para nós, e escondeste-vos neste mistério. Mas qual foi aqui a fineza? Qual foi aqui a maravilha? Milagre dos milagres, qual foi aqui o milagre? O ficar Cristo conosco no Sacramento, foi milagre da natureza, porque correu o rio para o mar, correu o amor para o centro; mas o aportar-se Cristo de nós: Ut transeat ex hoc mundo, esse foi o milagre sobre a natureza, e contra a natureza, porque foi voltar o rio para a fonte donde nascera, foi romper contra o ímpeto da inclinação, foi não só vencer a corrente, senão quebrar as correntes ao amor. Assim que a maravilha e a fineza, não foi o sacramentar-se Cristo para ficar conosco, senão o aportar-se e ausentar-se de nós.

(continua...)

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