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#Sermões#Retórica

Sermão no Sábado Quarto da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1652)

Levantou-se o divino Mestre da cadeira sem responder palavra. Não havia ali outro papel, senão a terra; inclina-se e começa a escrever nela: Digito scribebat in terra. Esta foi a única vez que sabemos da História Sagrada que Cristo escrevesse de seu punho. Mas enquanto Cristo escreve, e estes tentadores esperam, tomemos ao deserto e às tentações do demônio. Tentou o demônio a primeira vez a Cristo, e rebate o Senhor a tentação com as palavras do capítulo oitavo do Deuteronômio: Non in solo pane vivit homo.15 Tentou a segunda vez, e foi rebatido com as palavras do capítulo sexto do mesmo livro: Non tentabis Dominum Deum tuum.16 Instou a terceira vez, e terceira vez o lançou Cristo de si com outras palavras do mesmo capítulo: Dominum Deus tuum timebis, et illi soli servies.17 Quem haverá que não se admire à vista destas três tentações, e da que temos presente? Estes homens eram letrados de profissão, eram lidos e versados nas Escrituras, e atualmente estavam alegando textos da lei de Moisés. Pois se Cristo se defendeu das tentações do demônio com as Escrituras Sagradas e com os textos da mesma lei, por que se não defende também destes tentadores com as mesmas Escrituras? Mais. Resistindo ao demônio, defendeu-se Cristo de três tentações com um só livro da Escritura, e só com dois capítulos dele. Nas Escrituras que então havia, que são todas as do Testamento Velho, há trinta e nove livros com mais de mil capítulos. Pois se Cristo tinha tantas armas, tão fortes, tão diversas e tão prevenidas, por que se não defende com elas desta tentação? Aqui vereis quanto mais terríveis tentadores são os homens que o demônio. Para Cristo se defender de três tentações do demônio, bastou-lhe um só livro da Escritura; para se defender de uma tentação dos homens, não lhe bastaram todas quantas Escrituras havia; foi-lhe necessário fazer escrituras de novo: Digito scribebat in terra. As Escrituras Sagradas, como notou S. Gregório, são os armazéns de Deus. Destas disse Salomão, comparando-as à torre de seu pai Davi: MilIe clypei pendent ex ea: omnis armatura fortium. E são tais, tão novas, tão esquisitas, e nunca imaginadas pelo demônio as astúcias e máquinas que os homens inventam para tentar, que em todos os armazéns de Deus se não acharam armas com que as resistir, e foi necessário que a Sabedoria encarnada forjasse outras de novo, e se pusesse a compor e a escrever contra estes tentadores: Digito scribebat in terra.

Mas qual foi o efeito desta escritura? Agora acabareis de entender quanto mais dura é a pertinácia dos homens quando tentam, que a do demônio. Escreveu e escrevia a mão onipotente, e os tentadores, a escritura diante dos olhos, nem se rendem, nem desistem, nem fazem caso dela, nem da mão que a escreve: ainda instam e apertam que responda à pergunta: Cum perseverarent interrogantes.19 Oh! Escritura! Oh! Baltasar! Oh! Babilônia! Aporeceram três dedos em uma porede, sem mão, sem braço, sem corpo: Digiti quasi manus hominis scribentis,20 e com três palavras que escreveram, sem saber o que significavam, começa Baltasar a tremer de pés e mãos, sem cor, sem coração, sem alento. Treme o mais poderoso rei do mundo, e quatro homens, sem mais poder que a sua malícia, não tremem. Viam os dedos, viam o braço que escrevia, sabiam e tinham obrigação de saber, pelas maravilhas que obrava, e de que eles tanto se doíam, que era homem e Deus juntamente, e à vista de uma escritura tão larga de sua mão, em que se viam processados a si mesmos, não tremem, nem se movem, antes perseveram obstinados a perguntar e tentar: Cum perseverarent. Digam agora os escribas e fariseus, se é o gentio Baltasar, ou eles? Mas o meu intento não é comparar homens, senão homens com o demônio. Três circunstâncias porticulares notou o Evangelista nesta ação de Cristo. Notou que escrevia, e com que escrevia, e onde escrevia: Digito scribebat in terra. Escrevia Cristo, e escrevia com o dedo, e escrevia na terra. E em todas estas circunstâncias, venceram os homens ao demônio na pertinácia de tentadores.

Primeiramente: Scribebat: Escrevia. E por que quis escrever? As mesmas coisas que Cristo escreveu podia dizer em voz, e mais facilmente. Pois, por que as não quis dizer em voz, senão por escrito? Porque as mesmas palavras divinas têm mais eficácia, para vencer as tentações, escritas que ditas. Na morte de Cristo tentou o demônio aos discípulos na fé da ressurreição, e todos, ou foram vencidos, ou fraquearam na tentação, como o mesmo Senhor lhes tinha predito. E dando causa desta fraqueza, São João diz que foi porque ignoravam as Escrituras da ressurreição: Nondum sciebant

(continua...)

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